terça-feira, 25 de agosto de 2020

E a direita roubou o discurso da esquerda

Ensaio
Por Armando Rodrigues Coelho Neto, jornalista, delegado aposentado da Polícia Federal e ex-integrante da Interpol em São Paulo.

Título integral: ““Deus se come-se”. E a direita roubou o discurso da esquerda”.

Bolsonaro visa o Nordeste e já está em campanha pela reeleição 

O mar não é salgado por que Lula tomou banho nele. Mas, pela narrativa oficial, Lula e o Partido dos Trabalhadores salgaram o mar, e se hipocrisia nacional não tiver fim, vai ser difícil se desvencilhar dessa pecha. Talvez Moisés precise reabrir o Mar Vermelho, e possa libertar seu povo escravo para chegar à prometida Canaã.
O capitalismo está em crise. Não! O capitalismo é a crise, pois não deu resposta social ao mundo miserável, nem nunca a isso se propôs. A ganância e a exploração estão na sua genética. Ele não está em crise, pois é a crise, hoje acentuada pelo conflito que lhe é inerente, o de matar consumidores – justo o que mais precisa.
Com o advento de máquinas e do mundo digital, grande contingente de trabalhadores são dispensados, os quais, desempregados, deixam de consumir. Mais desempregados, mais problemas sociais, mais a necessidade de presença do Estado, enquanto o capital quer a qualquer preço acabar com o Estado.
O neoliberalismo, no melhor estilo Paulo Guedes (o Chopin) prega o “sevirol” (cada um que se vire). Quer Estado mínimo, que no fundo é Estado nenhum para pobres e Estado máximo para ricos. Coloca granada no bolso do servidor público, nega ajuda para pequeno porque não dá lucro, mas libera verba para especuladores.
Leia-se, há uma granada no bolso daquele que vai atender mal o trabalhador mal pago ou desempregado e os invisíveis. O trabalhador mal pago e/ou desempregado – de quem o neoliberalismo precisa para consumir, são os mesmos excluídos por máquinas e aplicativos que podem cair na marginalidade. E daí?
É tudo como o famoso grafite “Deus se come-se” – representado na figura de uma cobra comendo o próprio rabo, difundida pelo americano (quase brasileiro) John Howard, na década de 80. E aqui, falo do empregado que defende patrão em detrimento de seu emprego e do servidor público que apoia quem é contra o Estado.
Nesse “Deus se come-se”, o patrão quer matar consumidor de quem precisa para acumular riqueza; o empregado defende quem o quer precarizar, destruir. Já o servidor público, defende quem quer pôr uma granada em seu bolso. Eis a crise com toda sua contradição, na qual quem apresenta solução para ela é quem cria a crise.
Eis o drama mundial, mascarado por conflitos adrede criados contra imigrantes, negros, pobres, maconheiros, artistas, homossexuais ou tudo isso ao mesmo tempo, que passou a ser representado pela palavra “comunismo”. A solução é declarar guerra contra tudo isso – combatendo o comunismo e salvando de rebarba o capitalismo.
Para salvar o capitalismo, a extrema-direita mundial tomou para si o dever de combater seus próprios vícios – são culpa da esquerda. Trouxe para si o discurso da luta contra as elites dominantes, contra o imperialismo escravizante, e, como pretenso defensores dos pobres, proclamam “acabar com tudo isso que aí está”.
Entre as vozes desse combate, Abraham Weintraub, hoje homiziado nos Estados Unidos, bem antes de partir disse, por meio de um vídeo apócrifo, que a riqueza e os grandes meios de comunicações estão nas mãos de poucos ricos, os quais pagam ideólogos esquerdistas que trabalham para que tudo fique como está.
E, para que tudo fique como está, foi e é preciso falar de crise na saúde e na educação, de corrupção, de abusos das grandes empresas contra pequenos acionistas e consumidores, da precarização do trabalho, etc. Esses fatos inegáveis são de responsabilidade da “esquerda”, que, pasmem(!), é mantida pelas elites.
Bingo! O criminoso recebe apoio da vítima e, de verde e amarelo, juntos, vão para a rua para gritar “Fora Dilma”, “Fora Lula” e “leve o PT junto”. De repente, dá tudo errado, e a culpa pelo fracasso dessa empreitada é do PT. Primeiro, porque criou a crise que o levou à rua; segundo, porque sua estratégia não deu certo. Oh, não!
Assim, a culpa pela ascensão de Bolsonaro não tem nada a ver com a Globo, Reinaldos, Constatinos, “mafionaria”, Forças Armadas; nem com a Farsa Jato, servidores dos Correios e do Banco do Brasil… Supremo e tudo... Ciro Gomes, que foi para Paris tomar sopa de cebola não tem culpa, e menos ainda o bandido Steve Bannon.
Culpa da Folha de S. Paulo também, obviamente. Mas como os discursos de direita e de esquerda se fundem na manipulação pró-sistema, a Folha corre o caminho inverso via crise capital para nivelar, por exemplo, Dilma e Bolsonaro. Do mesmo modo que, no início do Bolsonaro.gov, a Globo fazia comparações com Lula. Eita corja antipovo!
De repente, Bolsonaro (o ainda presidente da República) critica a TV Globo com a mesma ênfase de Lula e Dilma. Direita e esquerda declaram guerra ao mesmo inimigo, mesmo que tendo sido os Marinhos que elegeram Bolsonaro, com a ajuda de Moro (seu herói Zé Ruela, o qual por sua vez virou também inimigo de Bolsonaro). Ora, pois!
Com “direita e esquerda confundidas no mesmo bolo, agindo apenas em função de seus próprios interesses em detrimento do povo” (do livro Os engenheiros do caos”, de Giuliano Da Empoli, Vestígio, 2019), o fascismo (direita) aparece com soluções simples, como suposta terceira via. Desse modo, para manter as velhas práticas, Bolsonaro faz acordo com o centrão.
Mas, isso ainda é pouco. Subitamente, o criticado projeto Bolsa Família de Lula virou dinheiro de pinga, perto do dinheiro da pinga mais tira-gosto que o fascismo pretende dar. O auxílio emergencial para brasileiros durante a pandemia deu ao “presidente” da República grande alívio nas pesquisas. Eis o leilão do povo: quem dá mais?
Enquanto isso, no mundo, discute-se a crise financeira, a qual, segundo pesquisas, seria causa da ascensão da direita no planeta. Mas, a crise é do capitalismo, do sistema “Deus se come-se”, crise essa que quem quer resolver tem o rabo preso na mesma engrenagem que dá sustentação aos três Poderes. Troncho, não?
Está tudo escancarado. A grande mídia que ignorou as revelações do “The Intercept” é a mesma que ignora o “Caso Banestado” – a ossada do armário que mostra as vísceras da corrupção no Brasil e a conivência do moralismo elitizado. Com a proteção do Poder Judiciário e as baionetas da milicada sabuja e rastaquera, lógico!
A denominada elite do Brasil não quer uma sociedade inclusiva. Foi e é tudo farsa: o golpe contra Dilma (leia-se democracia); a prisão e condenação de Lula; a fraude eleitoral de 2018; a delação de Palocci; o não julgamento da parcialidade de Moro; os 41 adiamentos do julgamento de Dallagnol; a Farsa Jato é um projeto político.
Se não inventarem outra facada com Supremo e tudo, Lula tem um encontro marcado com Bolsonaro no boteco da esquina. O primeiro, prenhe de amor pelo povo e de forma autêntica tomando pinga. O outro, cheio de ódio, de forma descarada, comendo o pão com leite condensado que o criminoso Steve Bannon inventou.

Arte de John Howard

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