segunda-feira, 10 de agosto de 2020

Democracia necrosada 2

Ensaio
Por Armando Rodrigues Coelho Neto, jornalista, delegado aposentado da Polícia Federal e ex-integrante da Interpol em São Paulo.

As Forças Armadas, depois de garantir seus privilégios, batem continência para um desgoverno que, negando privilégios, privilegia privilegiados.



Fedor de chulé de coturno, caspa de quepe, mofo de insígnias e caserna. Sobretudo de “divisas” com duplo sentido. Com essas palavras, encerrei o último texto sobre o assunto, após descrever a podridão que rege o país, controlado por famílias da política, da mídia, das instituições criadas para dar aparência democrática a uma nação secularmente expropriada, vilipendiada pelas elites que a controla. Banestado que o diga!
Com base em fatos e pesquisas, deixamos claro que os podres pilares de nossa pretensa democracia levam a assinatura das elites, com as quais as Forças Armadas se confundem. Conceitualmente preocupada com a corrupção, as FFAA só se insurgiram, na história recente, contra a corrupção na vigência de projetos populares de Jango e do PT. É como se tivessem, ainda que não tenham, corruptos de estimação.
Recentemente, as Forças Armadas se sentiram “ofendidinhas” com o alerta feito pelo ministro Gilmar Mendes: “O Exército está se associando a esse genocídio”, disse. É que, por omissão, o país caminha para mais de 80 mil mortos, mais de dois milhões de casos da covid-19, houve trocas de ministro da Saúde e ficou dois meses sem um titular na pasta – interinamente ocupada por um militar alheio ao tema.
Ao invés de acender a luz vermelha sobre os efetivos riscos de ter seus nomes associados aos óbitos em massa, as FFAA resolveram dar “pito” no ministro Gilmar Mendes, por quem não nutro a menor simpatia, mas que há muito vem falando coisa com coisa, defendendo o Estado de Direito – tema sobre o qual as FFAA têm se omitido, com as exceções silentes.
Tendo em vista que os militares saíram da caserna sem saírem, para enveredar pelo nebuloso pântano da política, devem arcar com o ônus da política desqualificada. A “Farsa Jato” encarregou-se de difundir a imagem de que “político é tudo corrupto e ladrão”. Em nome disso, rasgou a Constituição, prostituiu as leis, quebrou empresas, promoveu desemprego, negou a política como a arte do possível na contradição.
“Quem humilhou o Exército foi Bolsonaro”, diz manchete do jornal “O Tijolaço”. Ora, pois: se as Forças Armadas, a Justiça e a grande mídia se uniram para levar o país ao caos, todos com enrustidos projetos políticos inconfessáveis, não têm como se livrar nem das manchas nem dos odores da democracia necrosada, da política tal qual covil de larápios… Pior, perdem a oportunidade de fazer diferente.
Se Gilmar Mendes levou um “pito pelo pito” que deu, não quero levar o meu! Estamos fazendo um alerta, não sem reafirmar que o povo brasileiro se ressente das Forças Armadas como presença tranquilizadora da soberania nacional. Como dito acima, as FFAA renasceram das cinzas diante das Reformas de Base de Jango e do projeto de inclusão social do Partido dos Trabalhadores. Nas duas vezes, pró-oligarquias e contra o povo.
Um dos maiores feitos militares do Brasil, não pela operacionalidade em si, mas pela bravura e pela importância histórica, foi a participação do Brasil com a FEB – Força Expedicionária Brasileira no combate ao nazifascismo, regime com o qual o desgoverno apoiado pelos militares vai fortemente flertando. Eis, pois, outra nódoa da qual as Forças Armadas precisam se afastar, além da nódoa do genocídio alimentado pelo bozo-fascismo.
Sobre o nobre papel das Forças Expedicionárias, não são raros os pracinhas sobreviventes que guardam com orgulho as medalhas que ganharam por conta do zelo e denodo com os quais se liberaram da sua nobre missão. Mas, não foram as FFAA propriamente ditas que foram lutar, mas, sim, jovens adrede treinados pelos EUA.
Mal treinados para buchas de canhões, desprovidos até de agasalhos para o frio europeu, honraram o Brasil e tiveram o reconhecimento até da matriz (EUA). Na volta, com prestígio em alta, parecem ter causado medo às FFAA. Tão logo desembarcaram no Brasil, foram desarmados e desmobilizados. Pode ter morrido ali a verdadeira garra patriótica.
Teríamos visto, então, que “um filho teu não foge à luta…”. Entretanto, o reconhecimento pecuniário, tão objetivo e premente, só viria a ocorrer muitos anos depois. Eis, pois, mais uma dívida de nossas FFAA para com o povo, até hoje vítima das divisas – com duplo sentido, claro. Enquanto isso, as elites militares servem até hoje aos interesses das elites, como dito no texto anterior.
Muito além do genocídio, os militares, caso não se afastem de toda lama impregnada no atual desgoverno, terão de lambuja um país no qual o “novo” tem ranço de “velho”. O que é “novo” é a genialidade de quem está por trás do capital financeiro que serve às elites. As Forças Armadas, depois de garantir seus privilégios, batem continência para um desgoverno que, negando privilégios, privilegia privilegiados.
Sim, há quem para eles tirem os chapéus. Que os considerem geniais, mas não será fácil empurrar goela abaixo pela via “democrática”, as “reformas que o Brasil tanto precisa”. As elites estão financiando o neofascismo, e isso já não é mais teoria da conspiração do professor maconheiro ou de barnabé aposentado.
Vai ser difícil para as Forças Armadas um descolamento da derrocada iminente do povo. Isso não é ofensa, do mesmo modo que Gilmar Mendes não ofendeu as FFAA. Isso é alerta, e os militares estão com a imagem associada a isso. Não, não é teoria conspiratória de “vagabundo sindicalista”, comunista, nem coisa de petroleiro querendo boquinha na Petrobras. Nem precisa investigar criminalmente: é escândalo mundial mesmo!
O gabinete do ódio é financiado pelo “véio” da Havan, pelo MBL (suspeito de lavagem de dinheiro), pela Volkswagen que doa dinheiro para site fascista, pela milícia financiada por igreja evangélica do pastor que também é deputado. É tudo misturado. Como diz Ghiraldelli, essa gente não quer golpe – foram pagos para outra tarefa, a de destruir a “democracia”. Querem só a deterioração dela.
O “novo” não é a reedição rigorosa do fascismo genuíno dos anos 30. O “novo” é o neofascismo obrigando o povo a se organizar para defender algo que é muito mais imperativo do que a simples luta por liberdade, igualdade. Tão logo caia a névoa que impede o povo de ver a destruição das pequenas conquistas, ou se organiza ou se multiplicarão franco-atiradores e lobos solitários.
Por enquanto, a sociedade mutilada, em vez de discutir justiça social, aprofundamento de mecanismos de proteção à natureza, luta para que o cientista do INPE que monitora o desmatamento não seja destituído. No lugar de debater imposto sobre grandes fortunas, luta para que não aumentem ainda mais os descontos previdenciários. Em vez de lutar pelo aprimoramento do patrimônio nacional, luta que não seja “doado”.
Sequer estamos debatendo a renda básica universal, mas apenas tentando fazer o governo não obrigar o miserável a fazer biscate em plena pandemia. E, não adianta fugir. Se o governo é dos militares, muito além do genocídio, as Forças Armadas podem ter sua imagem vinculada à destruição da democracia e à penúria dos que sobreviverem à pandemia.



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