terça-feira, 4 de agosto de 2020

Ave, cloroquina!

Ensaio
Por Flávio Barbosa, cronista das perguntas óbvias que não se fazem.

O culto da cloroquina

Há coisas que deveriam nos intrigar muito no Brasil se não imaginássemos o que é o Brasil. Indagaríamos por que as matérias jornalísticas que buscam contrastar a opinião do Presidente da República, Jair Bolsonaro, a despeito de sua indicação do uso da cloroquina, não se propõem a investigar por que ele defende o uso desse medicamento em diversas fases do tratamento da covid-19 se ele não é médico, e se organizações de saúde pública do Brasil e do mundo, como a OMS, além de renomados pesquisadores de centros de pesquisas na área médica e farmacológica não recomendam esse uso e até o desaconselham ou simplesmente propõem que se lhes proíbam.
Indagaríamos também a despeito da função da Procuradoria Geral da República (PGR) que assiste a esse espetáculo grotesco, burlesco e letal sem qualquer manifestação a respeito. Sem abrir um procedimento investigativo mesmo diante de um genocídio, como bem salientou recentemente o ministro do STF Gilmar Mendes, e com toda razão, a despeito do morticínio da covid-19 no Brasil e a inépcia, quando não cumplicidade, das autoridades brasileiras. O que faz a PGR, finalmente?
E o que dizer do Conselho Federal de Medicina (CFM), que vê quase diariamente um charlatão ditar normas e protocolos para a Saúde Pública e simplesmente emudece? Ora, logo esse Conselho que quando por aqui no país chegou um importante reforço para a Atenção Básica da Saúde através do Programa Mais Médicos, no governo de Dilma Rousseff (PT), sobretudo os médicos vindos de Cuba, travou uma verdadeira guerra santa contra esses profissionais fazendo de tudo para que citado Programa não fosse efetivado, e, se efetivado, não desse certo, mesmo diante dos números que gritavam ao informar que: duas mil cidades brasileiras tinham uma grande insuficiência de oferta de médicos; que outras setecentas cidades brasileiras não tinham um médico sequer; que as periferias das grandes cidades e as populações de menor renda tinham uma oferta extremamente deficitária de médicos e outros agentes de saúde; que distritos indígenas e quilombolas eram imensamente desassistidos nesse aspecto e igualmente os rincões desse imenso país, donde pouquíssimos profissionais da área se dispunham a ir trabalhar neles, enfim.
Por que ninguém se indaga, seja na mídia ou no Ministério Público Federal, na Polícia Federal e/ou na Justiça Federal acerca de quais interesses, inclusive de ordem financeira, faz com que o Presidente da República faça uma defesa tão obstinada do uso de um medicamento que provoca reações perigosas como arritmias cardíacas que matam, e comprovadamente já matou pessoas que fizeram uso dele, talvez até estimulados pelos arroubos marqueteiros do Presidente da República.
Cadê o velho Tribunal de Contas da União  (TCU), aquele das convicções sobre pedaladas fiscais, que mesmo diante de uma possível prevaricação da parte da maior autoridade do país, ao autorizar que laboratórios públicos como o do Exército Brasileiro, produzissem, com recursos públicos, milhões de comprimidos de cloroquina a serem distribuídos em centros médicos para o tratamento da covid-19, mesmo este medicamento não sendo recomendado por qualquer autoridade sanitária mentalmente sã e responsável no Brasil e no mundo?
A amizade de Jair Bolsonaro com representantes de empresas que produzem a cloroquina no Brasil quer dizer alguma coisa?  A defesa que nos Estados Unidos o presidente Donald Trump faz do uso da cloroquina no caso em tela, ainda mais sabendo-se que o megaempresário Donald Trump investe em fundos acionários da empresa que detém a marca da cloroquina  (sic) e, ademais, que ele funciona como um chefe e a quem claramente Bolsonaro emula, este bisonho e submisso Jair Bolsonaro, bem, isso também quer dizer alguma coisa?
Questões não faltam, como se vê, sobre esses temas tão controversos que ora nos assaltam. O que falta é imprensa de verdade aqui no Brasil para fazê-las. Para investigar amiúde falas e posições publicamente assumidas de autoridades que parecem brincar com vidas humanas que aos milhares vão se consumindo em meio à pandemia que nos assola. E, ao invés dessas mídias fazerem as tão esperadas questões, ensejarem as investigações de praxe que as questões exigem, elas se limitam a ficar apenas se contrapondo ao que fala e afirma o “doutor Jair Bolsonaro”, como se ele fosse detentor de uma palavra respeitável e reconhecida na área médica e científica, capaz de produzir uma discussão embasada nesse contexto.
Depois fica um monte de gente e de autoridades da República melindrados e ofendidos porque um membro da mais Alta Corte Jurídica brasileira lembra-nos que o nome dessas coisas absurdas é genocídio. Ponto!
E a mídia, sobretudo a empresarial que dispõe de imensos recursos materiais, logísticos e humanos, que arfa o peito em propagandas a dizer que é séria e cheia de qualidades, permanece, impávido colosso, roendo osso, sem saber o que fazer e o que dizer ante as mais notórias evidências do teatro de absurdos que se encena tristemente nesse país.

Presidente "prescreve" cloroquina

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