segunda-feira, 13 de julho de 2020

Democracia necrosada, com fedor de coturno, quepe e caserna!

Ensaio
Por Armando Coelho Neto, que é jornalista, delegado aposentado da Polícia Federal e ex-integrante da Interpol em São Paulo.

A democracia militar

A democracia está aí como santa no altar, de quem já não se espera milagres, disse o escritor José Saramago, criticando as democracias no mundo e o voto, já que quem controla as sociedades são organismos que não tem voto popular. Entre eles, as grandes organizações financeiras internacionais, FMI, OCDE, etc.
Não é diferente no Brasil, controlado pelas elites, tendo as Forças Armadas como guarda pretoriana. No Brasil e no mundo, partidos de esquerdas tem servido apenas para dar aparência democrática e/ou civilizada ao sistema capitalista opressor que secularmente expropria a força de trabalho. O empreendedorismo “sevirol” (cada um que se vire) do chupim Paulo Guedes que o diga.
Não tenho procuração para defender o Partido dos Trabalhadores. Mas, enquanto o PT for força política organizada capaz de enfrentar e combater dentro das regras vigentes, as elites dominantes, é do PT o meu voto. O PT, sobretudo na figura de Lula, longe de ser o ideal, é apenas a expressão do possível.
Não sou petista. Isso não me envaidece nem me envergonha. O que sei de fome e necessidade não aprendi com Josué de Castro em “Geografia da Fome” (nem com seus “homens caranguejos”). Lutas de classes eu aprendi com as porradas da vida.
Não há purismo na política. Ela nunca foi palco de samaritanos, marianos, franciscanos, filhos adotivos da irmã Dulce. O “mensalão” de Abraham Lincoln acabou a escravidão nos EUA. Política é a arte do possível, mesmo com vícios, aos quais me curvo com e sob protestos, como um soldado numa guerra sangrenta inevitável.
Crítico dos modelos aos quais o mundo sucumbiu, não tenho em mente revolução alguma. Não sou comunista, nem esquerdista néscio, muito menos liberal conservador. Por conta de minhas utopias difusas, assim me rotulam, ou por fruto da burrice “bolsopata” vigente. Estar com o povo é para mim o lado certo da história.
O “presidente” da República, made in USA, eleito na fraude eleitoral de 2018, candidato dos militares, é a consolidação do esbulho. Ressalvadas dignas exceções, as FFAA estão aí para garantir os privilégios das elites a quem sempre protegeram. A História se ressente de algum momento em que elas tenham estado ao lado do povo.
Por ser assim, o Partido dos Trabalhadores nunca chegou ao poder. Ganhou, pelo voto popular, a oportunidade de assinar e cumprir papéis. Por fé na democracia de fachada ou romantismo revolucionário, aceitou dar migalhas ao povo, enriquecer os mais ricos e fortalecer o aparelho estatal contra si próprio e contra o povo.
Os militares que estão no poder descendem dos militares que após cometerem crimes em nome do Estado, anistiaram a si próprios, num escambo desigual para anistiar quem lutou por justiça social – como os aguerridos que pegaram em armas ou fizeram sequestros de embaixadores para encontrar uma saída honrosa. Hoje, nem isso.

Conluio de famílias!
As leis que regem os escombros do Brasil foram criadas para proteção dos interesses dessas elites. Até mesmo o voto popular serve para a alternância de poder entre as elites, como cidadelas interioranas, nas quais ora manda a família “A”, ora a família “B”, e na falta dessas, qualquer político apoiado por um outro grupo familiar “C”.
Um dos mais expressivos exemplos é o Rio Grande do Norte, célebre nessa alternância, com as famílias Agripino e Maia – um dos mais longevos grupos político-familiares do gênero. Além de se alternarem nas eleições majoritárias, pelo menos duas vagas do Senado ficavam garantidas para cada família. A terceira...
A exemplo de outras famílias pelo Brasil afora, as famílias Agripino e Maia tinham apoio de currais eleitorais, torcidas ou [algo] que o valha. Os métodos de conquista lícitos ou ilícitos de votos eram os mesmos. Os dois grupos só se uniam para impedir o surgimento de novas lideranças. A isso dão o nome de democracia. Valha-me a antiga Grécia!
The Intercept Brasil (TIB) revelou em setembro de 2018, que 62% da Câmara era formada por deputados oriundos de famílias políticas. No Senado, esse número ultrapassa 70%, de forma que dois terços do Congresso era controlado por algumas famílias. Mais da metade dos ministros de Temer eram de famílias políticas. Idade aristocrática e medieval?
Bolsonaro – o novo messias! – candidato dos militares, tem três filhos políticos. Sustentou um irmão que à época recebia R$ 17 mil por mês. Denunciado, foi demitido, tendo embolsado no período R$ 612 mil. Não foi o único, sem contar os que, com ou sem rachadinha viraram funcionários fantasmas dele e família, segundo dados do TIB.
Rodrigo Maia, filho de César Vaia, digo, César Maia, tem dois primos na Câmara. Todos primos do vice-procurador-geral da República Luciano Mariz Maia, nomeado por Michel Temer. A lista de famílias tem sobrenomes como Alencar, Coelho, Collor, Crivella, Gomes, Oliveira, Sarney e Richa entre outros, com nomes Filho, Júnior ou Neto. Bisnetos? Quem sabe!
O TIB diz que 16 dos 26 prefeitos de capitais eleitos em 2016 vieram de famílias políticas. Na Farsa Jato, metade dos seus integrantes são familiares de magistrados e procuradores. No Supremo Tribunal Federal, oito dos onze ministros têm parentes importantes na área do Direito. São das elites a política, a mídia, a justiça, o dinheiro...
A consciência política dos eleitores é formada pela mídia dos Abravanel (SBT), Barbalho (RBA), Dallevo e Carvalho (Rede TV), Civita (Abril), Frias (Folha), Levy (Gazeta), Macedo (Record), Marinho (Globo), Mesquita (O Estado de S. Paulo), Queiroz (SVM), Saad (Band), Sarney (TV Mirante) e Sirotsky (RBS).
O governo Sarney, em troca de votos por seu mandato de cinco anos, fez 418 concessões de rádio e televisão. Não foi diferente Fernando Henrique e Lula. Sem contar os evangélicos, as elites empurram o povo, há tempos, a votar pró-interesses delas. Eis a democracia limpa e cheirosa preservada pela FFAA. Valha-me Deus!
As Forças Armadas, por omissão, legitimaram ao longo dos anos as oligarquias. Só se insurgiu contra um projeto político popular, que sequer comunista ou socialista era. Lembremos as reformas sociais de base do governo Goulart. Logo após: Regime Militar!
É sintomático o agradecimento do General Villas Boas a Thompson Flores, Presidente do TRF4, pela “sinergia de nossas instituições”, leia-se: das Forças Armadas com Flores et florestas, claro!
Flores que é Sérgio Moro, que ajudou a eleger Bozo, que é FFAA. Flores que é Moro, que é Globo, que pertence e defende as famílias da mídia e da grana... Ladroagem da ditadura, do Dossiê Banestado, da Farsa Jato. Há nisso tudo eterno fedor de chulé de coturno, caspa de quepe, mofo de insígnias e caserna. Sobretudo de “divisas” com duplo sentido... Claro!

Obviamente! Muito escuro...!

José Sarney entre militares: transição pelo alto

Nenhum comentário:

Postar um comentário

Adicione seu comentário.