quinta-feira, 23 de julho de 2020

Corrupção e capitalismo

Ensaio [*]
Por Paulo Rubem Santiago, que é professor da UFPE.

Deltan Dallagnol e Sergio Moro

A corrupção e seu fim patrimonial derivam, em última instância, da identidade dos corruptos, sejam públicos ou privados, com os valores e fetiches de um capitalismo levado ao absoluto: riqueza sob a forma de moeda, moeda como meio de pagamento, que adquire patrimônio, moeda como reserva de valor, mais e mais capital.
Olhemos o momento atual do país. Não há, em nenhum país do mundo, instituições absolutamente perfeitas, isentas de pressões e distorções. Os mecanismos de poder e interesse, vaidade e fortuna, são sempre envolventes, mas nem sempre prevalecem em sua totalidade. Prefiro um Ministério Público e um Judiciário que ajam, e que quando erram são combatidos e corrigidos, do que uma “engavetadoria geral da república”, por exemplo, como se viu a atuação da Procuradoria-Geral da República nos governos de FHC. Vejo hoje na Lava Jato acertos, erros e abusos, vazamentos de delações e áudios de pessoas com foro no STF (as conversas de Dilma e Lula, por exemplo), vejo intensa exposição de nomes ligados ao PT, presunções antes de condenações, vejo lentidão de decisões no STF no que tange aos parlamentares do PMDB denunciados, vejo lideranças do PSDB delatadas, mas ainda não investigadas, mas observo que uma megaestrutura de poder e dinheiro está, sim, sendo enfrentada.
Nem por isso assino embaixo dos erros e abusos cometidos pelos órgãos de investigação. Para alguns, a Operação Lava Jato deveria ser anulada. Tudo continuaria como antes, certamente. Por trás da mesma, para esses, haveria o interesse dos EUA em fragilizar as grandes empresas de engenharia nacional. Não duvido que isso possa existir. Afinal, a turma do Tio Sam não brinca em serviço. Mas já imaginaram a eleição de 2018 com as regras de antes de financiamento privado de bilhões e bilhões, sob o império dessas empresas agora investigadas? Ia ser um passeio para um seleto grupo de financiadores. Uns comprando 40 mandatos na Câmara e 20 no Senado e outros talvez o dobro ou mais, além de bancarem candidatos aos governos estaduais e à presidência da república. O livre mercado solto, feito cães ferozes sem coleira. Democracia? Um simples detalhe, mera formalidade.
Por isso, reitero: Que tudo seja investigado, até a conduta dos investigadores no ato de investigar, para que não saiam de suas atribuições constitucionais, sendo também julgados e condenados se o fizerem. Que avancemos ao máximo no desmonte das estruturas de poder, da corrupção e do dinheiro que fraudam a democracia e a soberania do país. Superando-se os erros monumentais acumulados na forma de se relacionar governo e sociedade civil, no abandono de reformas estruturais e, claro, no recurso às práticas históricas das oligarquias de se associarem ao Estado para fins privados, ilicitamente. Democratizar de fato e libertar, pois, a democracia, do cabresto da corrupção e do poder econômico, reformar, sim, as instituições, fortalecer a consciência, a vontade e a disposição de luta da maioria do povo em construir um país digno, soberano, com empregos decentes, ética nas relações público-privadas e justiça social. Eis a pauta.

Uma das mais notórias empresas com participantes e delatores de corrupção

[*] Este texto foi originalmente publicado em 24 de janeiro de 2017 no sítio do Diário de Pernambuco.

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