terça-feira, 9 de junho de 2020

Sofismo

Ensaio
Por Flávio Barbosa, que é psicanalista.

Olavo de Carvalho e Abraham Weintraub: novos sofistas decadentes?

Lá pelo século V a.C. surgiu na Grécia um método argumentativo, de retórica e oratória, de viés filosófico, chamado sofismo. Em verdade, o sofismo foi muito criticado por filósofos como Sócrates, Platão e Aristóteles que diziam que este pensamento não se tratava de uma escola filosófica, sequer uma filosofia, mas uma fraude, um engodo, uma falsificação, e era assim que eles tratavam os sofistas, os praticantes desse método.
Sócrates os percebia como indivíduos desapegados à verdade que ele tanto insistia como categoria filosófica e postura ética do homem e mensagem pública, as distorções que empreendiam aos conceitos com suas perorações retóricas e metodológicas. Por outro lado, sofistas como Protágoras também o criticava, a Sócrates, pela forma como elaborava sobre a verdade e outros conceitos filosóficos sem concessões a certas inflexões, tais como a adotavam, em sua relatividade, os sofistas.
O sofismo se destacava como uma retórica argumentativa que se servindo de premissas verdadeiras, no entanto, induzia as pessoas ao erro, à falsificação das ideias e do pensamento. Lega-nos atualmente a expressão sofisma, indução de outrem ao erro. Entre os muitos autores desse segmento destacaram-se Górgia, Protágoras e Hígia de Elis.
Os sofistas costumavam viajar muito ensinando oratória, retórica, artes, música, matemática e ganhavam muito com isso, em geral eram muito bem remunerados ensinando as pessoas a argumentar, especialmente na política. Em geral só os abastados, os jovens filhos das famílias abastadas podiam frequentar esses estudos devido ao alto preço cobrado pelos sofistas, o que gerava críticas dos filósofos. Sócrates, como disse acima, por exemplo, foi um duro crítico dessas práticas dos sofistas, do relativismo e do subjetivismo com que tratavam as coisas, tais como a verdade, a existência, o conhecimento, a ética e etc.
Os sofistas, não raro, eram reconhecidos como pessoas inteligentes, até muito inteligentes, mas essa capacidade em razão das habilidades formidáveis de retórica e argumentação que tinham, no entanto, tinha um viés de produzir coisas nada razoáveis, distorções de caráter cognitivo, ético e moral.
Outra qualidade que se atribuía aos sofistas era a da memória. Dizem que Protágoras era capaz de memorizar até cinquenta nomes ouvindo-os de pronto uma única vez (sic!). Eles eram capazes de repetir inúmeras vezes em suas andanças pelas cidades gregas, e de outras costas marítimas, argumentações que lhes interessavam em seus cursos e diziam ter método para isso. Métodos que encantavam os interessados que os pagavam para dispô-los.
Aristóteles foi outro grande crítico dos sofistas. Ele, criador na filosofia da lógica e de um método conhecido como silogismo, teve em ambos um uso argumentativo muito forte por muitos sofistas. O silogismo trata-se de um método de três proposições e que tem duas premissas e uma conclusão. Exemplo:
Todos os homens mentem (primeira premissa ou premissa maior);
Sócrates é um homem (segunda premissa ou premissa menor);
Sócrates mente (conclusão).
Deduz-se desse método aristotélico uma captura por parte dos sofistas que podemos apresentar a partir do seguinte exemplo:
O amor é cego (premissa maior);
Deus é amor (premissa menor);
Deus é cego (conclusão).
Argumentos assim eram utilizados pelos sofistas para induzir ao erro, no que ficou conhecido como sofisma silogístico ou silogismo sofístico. Os sofistas também se valiam muito do pensamento de Heráclito, o de que tudo é fluidez, tudo é movimento. As coisas não tinham permanência ou fixidez, não havia o em-si. Ademais, eles negavam o ser como categoria metafísica e filosófica e também a questão do saber absoluto.
Aliás, eis dois pontos em que deveríamos ter um olhar mais atento aos sofistas, ou seja, essa questão da negação do ser, o não-ser, e do saber absoluto. A questão do ser como entificação do sujeito, elemento importante para a metafísica e a ontologia, que, na metafísica, estuda o ser.
Outra coisa importante de se distinguir e que muitas vezes parecem se confundir é o sofismo e o paralogismo. Ambos têm argumentos parecidos, decorrem em conclusões falsas, mas tem uma diferença fundamental, a saber: enquanto o sofismo é uma indução ao erro, o paralogismo não é uma indução pré-determinada ao erro, mas um falseamento da verdade em face à ignorância de quem argumenta ao outro, ou seja, enquanto no primeiro caso haveria uma má-fé, isso não se verifica no segundo caso, pois é pura ignorância mesmo.
Em tempos de notícias falsas (fakes news), pátria educadora e fórmulas farmacêuticas burlescas como espécie de panaceia (remédio para todos os males), discutir sobre esses métodos argumentativos voltou a ter muita importância.
O advento das redes sociais, modernamente falando, como se vê, não inventou a indução ao erro como retórica e argumento, isso é bem antigo. No entanto, essas vias de comunicação passaram a ser um espaço excepcional para a disseminação da falsificação das ideias e do pensamento, algo que, ao que parece, encharcou essas vias.
De repente todo mundo virou filósofo, médico, especialista, governante e o escambau. Um mundo de “coaches”, podem crer, de treinadores do outro, do saber do outro, da verdade do outro, da preguiça e/ou incapacidade de pensar e argumentar do outro. Uma maravilha!
Você paga generosamente a alguém que com argumentos vai te induzir ao que esse alguém acha que você potencialmente é ou pode ser. Uma muleta existencial e dos saberes adormecidos de nós outros.
Falando nisso, onde fica o sujeito nessa história toda? Não fica! Simples assim... Essa é uma situação onde o sujeito não opera, não funciona, é excluído na própria ação. A forclusão do sujeito.
Para quê sujeito, para quê a fala, para quê pensar, afinal? A gente vira coisa mesmo, mineraliza, é mais cômodo, dá menos trabalho, ora, pois.
Pagamos, e caro, monetariamente, e algo mais, para ter a nossa sujeição ao Outro. Para permanecermos objeto do objeto do Outro.
De outra maneira, mas não tão outra assim, apesar das variações retóricas e de argumentos, temos as fakes news. Nelas somos o tempo inteiro, e num volume e velocidade incríveis, induzidos às coisas mais bizarras que se possa imaginar, e o pior é ver que governos possam ser concebidos e conceber assim. Tal a loucura hamletiana, as fakes news tem método.
Seria um neo-sofismo? Em parte podemos dizer que sim, mas lembrem: o sofismo usa de premissas anteriores verdadeiras ou mesmo bem elaboradas para chegar propositadamente a uma conclusão falsa. Seria então um paralogismo? Pode ser, mas caberia aí quase uma inocência cândida e não uma má-fé, o que não é o caso, já que a má-fé e a falsidade estão presentes desde a primeira premissa, embora algumas vezes até possa parecer que não.
Talvez estejamos inventando um novo padrão para o sofismo que não tem mais muito a ver com a sofisticação retórica e de oratória dos gregos antigos. Porque quando vemos Olavo de Carvalho, êmulo das fakes news no Brasil: faz favor! E os Weintraub? Convenhamos...
Nesses a precariedade está do começo ao fim dos argumentos. E deles todos vem o tal projeto Pátria Educadora... vocês arriscariam seus filhos, o futuro deles, nesse método, empreendimento “pedagógico”?
Em comum aos gregos antigos, sofistas, uma coisa: amam dinheiro! E como ganham dos e das sugestionáveis, oportunistas e outros quejandos. Talvez possamos localizar em um exemplo de marketing político recente um libelo contemporâneo de um sofismo silogístico. Observem:
A cloroquina salva da covid-19 (premissa maior);
Jair, o Messias, e todos os demais, tomaram a cloroquina (premissa menor);
Jair, o Messias, como todos os demais, estão salvos da covid-19 (conclusão).

Pois é...
Tem-se dito!

Protágoras (490-415 a.C.), um dos sofistas mais célebres

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