segunda-feira, 15 de junho de 2020

O que os militares da Venezuela e dos Estados Unidos tem e os do Brasil não?

Ensaio
Por Armando Rodrigues Coelho Neto, que é jornalista, delegado aposentado da Polícia Federal e ex-integrante da Interpol em São Paulo.

O bolsonarismo penetra nas Forças Armadas

Essa pergunta deve ser respondida de pronto: vergonha na cara! Afinal, após 32 anos de vigência da Constituição Federal, um ministro do STF (Supremo Tribunal Federal) precisa proferir sentença para dizer o papel das Forças Armadas. Isso é sinal de que nunca leram a Carta Magna. Exceções à parte, obviamente.
A chefia das Forças Armadas é poder limitado, excluindo-se qualquer interpretação que permita sua utilização para indevidas intromissões no independente funcionamento dos outros Poderes”, diz o ministro Luiz Fux. Até ele já percebeu o buraco no qual a Farsa Jato meteu o Brasil, sob militaresco silêncio.
Asseclas de Bolsonaro querem o fechamento do STF. Fux disse que as FFAA (Forças Armadas), em caráter excepcional, “servem para enfrentamento de grave e concreta violação à segurança pública interna, em caráter subsidiário”, após o esgotamento dos mecanismos normais de preservação da ordem.
O Brasil está nas trevas. Se o “vice”, General Mourão – o tecla SAP de Bolsonaro –, virou e mexeu tem que traduzir o que Bolsonaro disse, e, dia sim, dia não, os militares precisam dizer que não vai ter golpe, é por que há algo muito errado no ar. O golpe foi em 2016, enveredou pela fraude eleitoral de 2018, e está com cheiro de podre.
De tanto se falar em golpe, dei uma espiadinha no documentário Militares da democracia e, de pronto ouve-se a fala do Brigadeiro Rui Moreira, piloto com o maior número de missões durante a II Guerra Mundial: 94 missões de combate, várias medalhas, cassado e preso pelos “patriotas” do Golpe de 1964.
Ao se tornar militar, o pai do Brigadeiro escreveu para ele: “És cadete, amanhã, mais tarde general… deves obediência aos teus superiores, lealdade aos teus companheiros. Sê um patriota verdadeiro, e não te esqueças que a força somente deve ser empregada a serviço do Direito”.
Na carta que se tornou referência da vida daquele militar, também consta: “O povo desarmado merece o respeito das Forças Armadas. É este povo que deve inspirá-la nesses momentos decisivos. Nos momentos de loucura coletiva deve ser prudente, não atentando contra a vida de seus cidadãos”.
Que falta não fez uma carta dessas aos assassinos de 1964. “Um soldado não conspira contra as instituições pelas quais jurou fidelidade. Se o fizer pode desgraçar a nação. O soldado não deve ser covarde nem fanfarrão”. Que falta faz a tal carta aos militares de hoje(!), sujos pelo Bolsonaro, que envergonha o país pelo mundo.
O ovo da serpente que envergonha o Brasil foi chocado no ninho das Forças Armadas em 2014. Além do que já publiquei em outro lugar, o leitor encontra indicadores na inusitada presença de Bolsonaro (02/12/2017) numa cerimônia de formatura de oficiais do Exército na Academia Militar das Agulhas Negras – AMAN em 03/12/2017.
Ali, já declaradamente candidato, Bolsonaro e seus filhos (Dudu Bananinha e Flávio Rachadinha) são objeto de “tietagens”. No cerimonial rococó, pessoas presentes têm embaixo da roupa camisetas com a fuça do Bolsonaro. É campanha política dentro da AMAN. Até então subliminar, fica explícita, e militares fazem “selfies” com o candidato.
Não teria sido a primeira vez. Em 2014, aclamado como “líder”, Bolsonaro esteve na AMAN noutra formatura. Lá, disse: “Vamos mudar este país. Alguns vão morrer pelo caminho”. Foi profético. O Brasil mudou para pior: no passado, ultrapassamos a Inglaterra na economia e hoje a superamos em número de mortes pela covid-19.
Os militares omissos durante o governo Dilma Rousseff, por falha de segurança ou conivência, permitiram que a então chefe das Forças Armadas fosse bisbilhotada pelo herói Zé Ruela da Farsa Jato. Duque de Caxias deve tremer no túmulo!
As mesmas forças que urdiram candidaturas, são as mesmas que hoje silenciam sobre a perda da soberania, a dilapidação do patrimônio nacional e batem continência para o genocida-mor.
Às turras, militares da dita alta patente fazem declarações políticas. No pós-golpe, se perderam em assertivas terroristas, ameaçadoras, catastróficas – inclusive recentemente, quando um deles diz que a apreensão do telefone de Bolsonaro poderia gerar consequências imprevisíveis. Quais? Corta!
O mundo assistiu, recentemente, a um negro agonizando nos Estados Unidos, asfixiado sob a bota hedionda de um militar criminoso americano. Do episódio, derivou uma onda de protestos, com depredações que extrapolaram as fronteiras daquele país.
O presidente Donald Trump, por meio de violência, manda dissipar um protesto pacífico, e posa para fotos. Militares graduados passam a fazer críticas à violência praticada contra o povo americano. Um deles, o general Mark Milley, chefe do Estado-Maior, envergonhado, pede desculpas publicamente por participar de ato político.
O Brasil tem muito a aprender com os militares americanos. Ter a imagem das Forças Armadas (EUA) associada à política causa vergonha, perplexidade. Aqui, elas são vergonhosamente a própria política. Fazem a política rasteira e incompetente, enquanto o indiscutível lado honesto e nacionalista encontra-se amordaçado.
Viva, pois, o falecido Brigadeiro Rui Moreira! O profético momento de loucura citado pelo pai dele chegou. Vândalos estão nas ruas. Bolsonaro manda invadir hospitais. Seus ministros agridem governadores, juízes e jornalistas, enquanto ele aparelha ideologicamente o Estado. Só protesto pacífico é ameaça. Corta!
Fora, Dilma!”, “Fora, Lula!”, “E leve o PT junto!”. Essas palavras ganharam força quando 16 milhões de brasileiros saíram da miséria absoluta. Filas nos açougues e aeroportos, negros nas universidades e o país já discutia direitos trabalhistas para empregadas domésticas. Aquilo deu nisto: ódio, desprezo ao povo e à democracia.
Mas, para não dizer que silenciei sobre os militares da Venezuela, posso presumir, além do que já é público, que haja dissidências explícitas ou silenciosas. Mas, se há uma coisa que eles sabem muito bem, é o que o país tem embaixo de seu solo, e estão vigilantes e dispostos a defender.
Os militares venezuelanos são, sobretudo, nacionalistas. Como os americanos, tem vergonha na cara. Seu país paga um preço altíssimo internacionalmente por essa resistência. O imperialismo mundial quer pôr a bota no pescoço dos países subdesenvolvidos, ou dos que ameaçam se desenvolver.
Há um mínimo de dignidade que o homem não pode negociar”, disse a personagem Branca Dias na peça “O santo inquérito”. Se os milicos brasileiros não leram sequer a Constituição Federal, como esperar deles que tenham lido uma peça de Dias Gomes?

Bolsonaro discursa na AMAN

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