segunda-feira, 22 de junho de 2020

Autoengano

Ensaio
Por Flávio Barbosa, psicanalista e cronista de fatos pitorescos do "patropi"*.

*Para quem desconhece o termo "patropi", ele é um acrônimo que quer dizer “país tropical”, como também é conhecido o Brasil em versos e samba.

Queiroz é preso em Atibaia/SP

Imaginem que uma nuvem tóxica pairou sobre o céu brasileiro encobrindo todo território nacional e afetando nossas percepções, comunicações e, por conseguinte, a nossa capacidade de entendimento das coisas. Em assim sendo, bem podemos narrar os fatos que nos sucedem da maneira que descreverei abaixo. A despeito da prisão na semana passada daquele em que nos perguntávamos sobre seu sumiço havia muito tempo: o corretor da família Bolsonaro, ele, o Queiroz (…).

"Que injustiça! Não foi nada disso que estão dizendo nestas mídias maldosas. A verdade é que Queiroz estava passeando em Atibaia, interior de São Paulo, pensativo, confabulando com seus botões sobre a sua vida e a dos mortais que ajuda com seu espírito altruísta. Contudo, não conhecia a região, e se perdeu.
Sobressaltado pelo súbito lapso que lhe ocorrera, essa pobre e singela criatura não mais sabia o caminho de volta para casa. Então, caminhou em rumo incerto, viu adiante uma casa com os portões abertos, não se fez de rogado e adentrou ao recinto. Gritou o tradicional “ó de casa”, para ocasiões em que se procura alguém a se falar. Então, surgiu um cidadão cordato, bastante simpático e asseado em seu toalete, que o recebeu sem qualquer obséquio, identificou-se como o dono da casa, informou ser advogado e perguntou ao estranho visitante o que ele desejava.
O estranho visitante, Queiroz, perguntou-lhe como sair daquele lugar em direção ao caminho de casa, longe daquela cidade. E o anfitrião, tão solícito, percebeu que havia algo naquele senhor frágil e meio débil que lhe chamou a atenção. Acolhedor, pôs o visitante imediatamente para a nave interna de sua casa, ofereceu-lhe água, um café quente e até mesmo uns pães de queijo. O visitante agradeceu com ternura. Contudo, os seus lapsos de memória o impossibilitaram de dizer quem era, o que fazia ali, onde morava e mesmo o que gostaria de perguntar àquele nobre senhor.
O advogado percebeu o drama do visitante e de imediato ofereceu-lhe guarida, disse-lhe que poderia permanecer ali na sua casa pelo tempo que necessitasse para recuperar a memória. E a hospedagem, então, durou um pouco mais de um ano, segundo o caseiro daquela casa, até que outra visita inesperada surpreendeu aquele bom homem, o advogado, que não estava em casa quando este outro fato se sucedeu, a saber: a visita da Polícia à sua casa com mandado de prisão para aquele a quem acolhera tão afetuosamente e sem qualquer outro intento que não o de ajudar uma pobre alma penante e perdida.
O que se sucedeu doravante foi apenas uma sucessão de infelizes coincidências. Aquele senhor perdido era um elemento importante na cadeia de comando das ações, digamos assim, não esclarecidas do presidente Bolsonaro e sua família de homens de bem. Aquele advogado era o procurador do presidente Bolsonaro e de sua família, e que costumava se reunir com o presidente a qualquer hora do dia, da noite e das madrugadas fosse no Palácio da Alvorada, atual residência de Bolsonaro, o Jair Messias, fosse sabe-se lá donde, para tratar exatamente das atividades não esclarecidas do presidente Bolsonaro e sua família.
O fato é que a maldade da mídia enviesada tenta elucubrar com narrativas fantásticas a de que todos esses homens se conheciam desde [há] muito, digo, o Queiroz, aquele senhor de memória sombreada, o advogado de nome Frederick Wassef, proprietário da casa em Atibaia/SP, e o presidente Bolsonaro que há muito não sabia o paradeiro de seu velho amigo Queiroz, e nem de longe poderia imaginar que esse seu amigo estivesse na casa de seu advogado Wassef. Aliás, advogado que o próprio Bolsonaro soltou nota para dizer que não era o seu advogado, sem explicar, talvez por não haver necessidade, por que este senhor Wassef frequentava a sua atual residência oficial constantemente de manhã, à tarde, e madrugada adentro, apresentando-se, ademais, por todo esse tempo e para todos os demais que lhe arguissem como advogado de Bolsonaro e família e sem jamais ser contestado pelos representados".

Foi isso, e espera-se que com a nota oficial do presidente, no alto de sua ilibada autoridade, e desconhecedor de possíveis atos ilícitos do velho amigo do tempo de caserna, tudo, absolutamente tudo, esteja esclarecido, desfazendo, portanto, o mal-entendido, afinal, coincidências existem, ou não?
Outrossim, o problema é que não é bem uma nuvem tóxica o que paira no céu do Brasil, mas a vontade de muitos brasileiros de acreditar no que querem.

Frederick Wassef e Flavio Bolsonaro: advogado e cliente

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