quarta-feira, 20 de maio de 2020

O Brasil e a grande infecção do imaginário

Ensaio
Por Flavio Barbosa, psicanalista.

Manifestantes bolsonaristas

Recebi um vídeo em que uma senhora, já de uma certa idade, chama Bolsonaro de pai e pede sua interferência no estado de Pernambuco, pois, segundo ela, não é o governador que “manda” lá. Do ponto de vista psicanalítico, essa senhora se coloca como uma criança evocando o “Grande Pai” diante da sua minoridade cognitiva, moral e ética. Ela se posiciona como uma “menina” que precisa efetivamente do “paizão” pra cuidar dos seus dilemas, de suas dificuldades de entendimento das coisas e de sua impossibilidade de ter constituído uma vida adulta. Ela precisa de alguém que faça por ela o que ela não é capaz de fazer.
Evidentemente que o seu desejo, isso que ela quer que seja feito, vai totalmente contra as indicações sanitárias. Mas ela não quer saber disso, pois dentro de sua “minoridade” ela não tem a menor condição de compreender a realidade que a cerca. Trata-se de mais uma “menina” mimada, uma dessas “crianças magníficas”, de uma dessas “majestades bebês” que tem impossibilidade, por sua minoridade e imaturidade, de compreender e discernir sobre as coisas.
Quanto à doença dos pernambucanos à qual se refere, existe, além da pandemia, um grande sintoma que está se transformando em uma grande e grave doença, mas que ela não tem a menor capacidade de compreender, pelas razões que vimos anteriormente. Esse sintoma apresenta-se em todo Brasil, não só em Pernambuco. Trata-se da “infecção do imaginário” que acomete essas pessoas e as impossibilita de se posicionarem criticamente e de fazer qualquer discernimento. São essas pessoas, inflamadas dos seus egos infantis, que estão promovendo essa balbúrdia em meia à pandemia, porque na dimensão relacional delas não existe o outro. Portanto, não se preocupam com o que acontece: que pessoas se infectem, que pessoas sofram, que pessoas morram! Isso não faz parte de suas preocupações.
A “menina” fala, sim, de uma doença, mas da doença dela e dos que pensam como ela! Ela fala da “grande infecção imaginária” que se alastrou no Brasil ao lado da pandemia. Temos, portanto, que enfrentar duas tragédias. Uma, de dimensão mundial, a pandemia; e outra, que ganhou no Brasil uma expressão muito própria: essa infecção imaginária. A “criancinha” pedindo ao papai para salvá-la faz parte do quadro sintomático. Salvá-la significa preservar sua minoridade, sua estupidez e sua imbecilidade!

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