domingo, 24 de maio de 2020

Ignorâncias

Ensaio
Por Flavio Barbosa, psicanalista.

Bolsonaristas zombam da covid-19 e dos mortos da pandemia

Jacques-Marie Lacan (1901-1981), psicanalista francês, fazia duas definições da ignorância: a ignorância crassa e a ignorância douta. A ignorância crassa ele a definia como um “desejo de um desejo de não saber”. Notem, não se trata simplesmente de um desejo de não saber, mas de um desejo de não desejar, ou seja, um desejo de não desejar saber. Não é só não querer saber, é não desejar sequer desejar saber, um desejo de apagar um desejo. De não tê-lo.
A ignorância douta, por seu turno, seria um desejo de saber, ou seja, um desejo daquilo que falta no campo do saber, mas, dizendo assim, quer-se dizer que tal desejo sustenta o fato de que a falta, a falta de um saber, um saber sabido, pleno, completo, é próprio da estrutura, ou seja, não há saber que dê conta do que nos falta. Não há saber total, e que pacifique por completo as nossas curiosidades e dúvidas. Em assim sendo, é o que nos move no campo do conhecimento, da ciência e da filosofia. O de que não há um signo pleno capaz de dar conta daquilo que pede o saber. E o saber douto conduz sempre à falta. Ela, a falta, se move, tanto quanto se movem os meios de supri-la e, assim, o desejo (que é sempre uma falta-a-ser) se sustenta e a gente segue em nossas curiosidades e interesses, em nossas dúvidas, alimentando-as, e ainda mais quando supomos um saber ao insabido.
Lacan dizia que o desejo, o objeto do desejo, é uma metonímia, pois ele sempre escapa, escorrega de nossas mãos. Não de outra maneira, Sigmund Freud (1856-1939) dizia que educar, assim como psicanalisar e governar, são profissões impossíveis, já que eles perseguem um saber que jamais será plenamente possuído, pois que o objeto falta. Se vocês imaginam que isso possa ser o esgotamento da educação, da psicanálise e do ato de governar ou mesmo da política como possibilidade real para o sujeito, digo-lhes que é precisamente o contrário.
Dizer que educar é uma profissão impossível, é dizer que nunca vamos domesticar o outro, e que a educação jamais será a condição de alcançar plenamente o objeto do saber. Dizer que psicanalisar é uma profissão impossível, é dizer que nunca vamos curar o outro, e que a psicanálise, assim como a ciência, não é e não são uma weltanschaung (saber total), tampouco uma cura plena, milagrosa. Dizer que governar é uma profissão impossível, é dizer que nunca se pode controlar o outro e o destino de uma sociedade. Por mais que se tente, haverá sempre furo. Em todos esses casos a valência que se valida ad infinitum é a da sustentação do desejo de saber, e, portanto, se qualificar, seguir adiante, buscar as partes das partes no outro, sem o senso do preenchimento. Assim como compreender que o poder é efêmero e falso quando se supõe possuí-lo.
Lacan pôs mais uns grãos e condimentos nesse tempero freudiano. E além dos impossíveis expostos pelo mestre vienense, acima anotados, ele, Lacan, acrescentou mais um: “amar é uma profissão impossível”, pois o amor não nos torna um, ou seja, não nos completa no e pelo outro.
Em outro sentido ao da ignorância douta, a ignorância crassa não sustenta a falta, esta se preenche do nada, ou do todo, que nada é. O todo e o nada são totalidades, enquanto a falta nos faz deparar com o parcial e o provisório, o vazio e a não-certeza. Cabe aqui uma outra lembrança de Lacan. Ele dizia em um de seus tantos aforismas que a “certeza é paranóica”.
Destarte, estamos a viver um tempo estranho, um tempo de irrupção celebrativa da ignorância crassa e isso saiu da esfera privada e extrapolou para a esfera pública. Então, vejam quantos governos mundo afora estão sendo liderados por figuras bizarras que cultuam com orgulho inaudito a estupidez, e a estupidez adornada por aquela verve que dá a dimensão de tudo ao nada que diz. É o caso dos Estados Unidos com Donald Trump, do Brasil com Jair Messias Bolsonaro, de Israel com Benjamin (Bibi) Netanyahu, da Hungria com Viktor Orbán, para citar só esses. Mas tem mais, muitos mais, incluso governantes ou líderes provinciais no Brasil e alhures.
Essas figuras empoderaram e foram empoderadas por gente que se espelha um no outro, fazendo laço social exclusivamente via o espelho, tais como uns Narcisos atordoados. Mal sabem, as criaturas, que o espelho é o espectro da ilusão. Vide o próprio Narciso que se apaixonou fatalmente por um outro que era apenas a sua imagem refletida no lago Cefiso.
Um laço social como o que temos visto tem como propósito desqualificar, desfazer e destruir o laço social calcado na solidariedade, na ciência, na filosofia, no pensar crítico, dialético e reflexivo. Não que isso seja propriamente a lógica e o discurso social dominantes na humanidade em seu estágio atual, embora muitos os reivindiquem, mas o que se elide ou busca se elidir definitivamente de nossa espécie, com as emergências que temos visto, é que esse desejo e esse laço social sequer vicejem.
E digo mais: no registro daquilo que igualmente não possa advir e prevalecer como um saber lúcido, reflexivo, contemplativo, nesse nosso tempo. Refiro-me também aqui à Religião, e a Religião enquanto ela não se coloca como uma reles modeladora de um condicionamento moral, mas como enunciadora de uma ética da partilha, e da partilha de um saber do pão e do peixe que originalmente fora a mensagem Cristã. Querem um exemplo? Vejam a diferença do discurso e da ética religiosa e de vida do Papa Francisco e, por outro, o de Silas Malafaia, ou o que representa a Teologia da Libertação ou a teologia da prosperidade.
Vocês podem até não crer em Religião, mas convido-os a pensar na diferença de ética e de proposição discursiva aqui assinaladas, estendendo a todos os credos, de quem tem fé, e mesmo os que não tem, mas respeitam as manifestações humanas.
Esse novo status quo gerou uma cultura negacionista que mutila o saber baseado nas evidências e demonstrações ou mesmo nas reflexões sensíveis e profundas, que exige rigor e intenta compreender ou busca compreender as coisas ante a complexidade delas, os enigmas delas.
É como se fosse, enfim, a derrota definitiva de Sócrates ante os autocratas que o condenaram por subversão, e à sua proposição maiêutica em que uma questão ia sempre em busca de novas questões, mais do que da resposta líquida e certa. É, digamos assim, a vitória da cicuta em que todos nós estamos sendo brindados, e obrigados a sorver.
No mundo monótono da ignorância crassa tudo é simples e verdadeiro. A verdade está estampada nas convicções e certezas de seus cultores, não há lugar para a dúvida, logo para a questão, a ciência e o pensar crítico. Não raro se socorrem de um signo do absoluto: Deus.
Pobre Deus! Como sofre com essa gente, faz-se imaginar que se o mundo foi uma criação divina, nos conformes dessas polutas criaturas, então esse Deus criador é um estúpido, simplório, que ainda por cima criou uma poção mágica para resolver todas as coisas: a cloroquina.
E pobre cloroquina! Que de repente se viu numa condição que não era a sua: o de elixir de todos os males desse e d'outros mundos, supondo que haja vida inteligente nesses outros mundos, igual aos termos em que se tenta impor aqui, baseada nessa (in)genialidade asquerosa e militante. É uma enrascada o que os cultores dessa peste arranjou para todos nós. Ouvi de médicos que estão na linha de frente nas UTIs do tratamento aos enfermos da covid-19 depoimentos muito curiosos nos quais observam, e com grave tensão, a pressão que sofrem de parentes desses enfermos para que utilizem no tratamento de seus entes a cloroquina de todo jeito. O dilema é o seguinte: se não usam e o paciente morre, vão ser responsabilizados criminalmente por não ter usado a poção salvadora; se usam-na após os impositivos apelos e o paciente morre, vão ser responsabilizados por ter demorado muito, hesitado muito em usar a poção mágica, ou serão responsabilizados por não terem usado corretamente a tal poção.
Não importa se a medicação supracitada possa não ser indicada para esse ou aquele caso, tampouco comprovada cientificamente sua eficácia no caso em tela, como ainda não foi! Não! Não há mais lugar para o saber parcial, para a dúvida douta, maiêutica. Há somente o saber total, pois é o que determinam essas novas modalidades cognitivas. O saber que se evidencia não é mais o da ciência, mas o dos algoritmos das redes sociais, ou, claro, do receituário do Dr. Jair Bolsonaro, o Messias alucinado desses ignorantes. Médico, não, um monstro, diria mesmo Stevenson. Ah, pobre, mais ainda, o inventor da Cloroquina, sendo Deus ou outro menos graduado, que, muito provavelmente não queria esse tipo de notoriedade. Mas há quem esteja a faturar muito com isso! Podem crer!
A ignorância crassa é o vírus mais poderoso que está a destruir o sentido maior de humanidade. Por favor, chamem Prometeu. Resgatem-no dos abutres que estão a lhe devorar o fígado no alto da Colina em razão de um Zeus embrutecido e raivoso que não quer mais saber de nós. Outros dirão: menos!

Jacques Lacan (1901-1981)

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