sexta-feira, 8 de maio de 2020

"Freud tinha razão onde ele não tinha razão"

Citações
Por Mauricio Gonçalves, professor de Sociologia do IFRN.

Sigmund Freud (1856-1939)

Reunindo capacidade dialética notável, perceptível já no título escolhido para este post (que inaugura neste espaço virtual a seção “Citações”), e condensando elementos cruciais para a compreensão das relações recíprocas entre indivíduo (e sua psicologia) e sociedade (e seus processos) em sociedades de capitalismo avançado (pós-clássico), além de posição metodológica que evidencia a riqueza de sua própria teorização social, a citação abaixo de Theodor Adorno foi retirada do ensaio “A psicanálise revisada”, escrito em 1952, e que se encontra no interior do livro Ensaios sobre psicologia social e psicanálise, publicado no Brasil pela Editora Unesp em 2015. Em tempos de pandemia, crises socioeconômica e ambiental catastróficas em permanência (o que alguns teóricos chamam de “capitalismo de desastre”), e ascensão fascista, os textos de Adorno são inescapáveis e obrigatórios, especialmente na esteira de suas reflexões sobre a psicanálise e de sua pesquisa sobre a personalidade autoritária.
Certo da necessidade de uma teoria que leve em conta a fertilidade e a eficácia do que poderia ser chamado de “psicologia social analiticamente orientada”, Adorno combate tendências na psicanálise – mais fortes depois da Segunda Guerra Mundial, mas existentes já durante a década de 1930 – que buscam modificar os postulados freudianos, esterilizando a capacidade crítico-negativa neles existentes. Procurando superar deficiências – reais – em concepções do criador da psicanálise, alguns de seus antigos continuadores, que Adorno classificou como “revisionistas” (aqueles que enfatizam a prevalência de “motivações de tipo social ou cultural acessíveis sem maiores dificuldades pela consciência, em prejuízo dos mecanismos ocultos do inconsciente” (p.43), ou que fazem uma espécie de “sociologização da psicanálise”), acabaram chegando num nível inferior e conformista de produção teórica e de clínica. Metodologia científica, relações entre indivíduo e sociedade, filosofia crítico-negativa, psicanálise e teoria social, todos esses elementos estão reunidos na rica citação abaixo, que pode ser considerada uma aula em pouco mais de 20 linhas.
Duas observações finais: (1) há textos ou passagens de textos que proporcionam uma espécie de iluminação nos leitores. Foi mais ou menos esse o efeito que as linhas a seguir causaram em alguns de nós; (2) aqui a prosa adorniana é de uma tal beleza literária, que chegamos a lembrar alguns dos escritos do jovem Marx, especialmente algumas partes de sua “Crítica da filosofia do direito de Hegel – Introdução”, de 1844.

Eis a citação:

Freud tinha razão onde ele não tinha razão. A força de sua teoria se nutre de sua cegueira perante a separação entre sociologia e psicologia, que, de fato, é o resultado daqueles processos sociais que muitos revisionistas [neofreudianos], na linguagem da tradição filosófica alemã, denominam a autoalienação do ser humano. Se o discernimento crítico das faces destrutivas daquela separação persuadiu os revisionistas a agir como se o antagonismo entre o ser privado e social do indivíduo fosse tratável com psicoterapia, então Freud, precisamente através de sua atomística psicológica, forneceu expressão adequada a uma realidade em que os seres humanos são realmente atomizados e separados um do outro por um abismo intransponível. Esta é a legitimação objetiva de seu método: penetrar nas profundezas arcaicas do indivíduo e tomá-lo como um absoluto que somente se vincula à totalidade através de sofrimento e penúria da vida. É verdade que ele aceitou de forma ingênua a estrutura monadológica da sociedade, enquanto a escola neofreudiana apropriou-se da consciência crítica da sociedade. No entanto, em vez de permanecer de forma consequente nessa posição, ela quer superar o negativo, ao tratar as relações humanas como se já fossem humanas. Na constituição vigente da existência, as relações entre os seres humanos não surgem nem de suas vontades livres, nem de suas pulsões, mas sim de leis sociais e econômicas que se impõem sobre suas cabeças. Se nessa existência a psicologia se torna humana ou sociável, ao agir como se a sociedade fosse a dos seres humanos e determinada por seu eu mais íntimo, então ela empresta um brilho humano a uma realidade inumana. Aqueles pensadores sombrios, que insistiram na maldade e na impossibilidade de melhoramento da natureza humana e denunciaram de forma pessimista a necessidade de autoridade – aqui Freud situa-se ao lado de Hobbes, Mandeville e Sade –, não podem ser rejeitados comodamente como reacionários. Eles nunca foram bem-vindos em sua própria classe. Que se deva falar do lado luminoso, e não do sombrio, do indivíduo e da sociedade, é exatamente a ideologia oficial, agradável e respeitável. Nela recaem os neofreudianos, indignados com o Freud reacionário, enquanto seu pessimismo irreconciliável testemunha a verdade sobre as relações das quais ele não fala” (Adorno, Theodor. “A psicanálise revisada”. In: Ensaios sobre psicologia social e psicanálise. São Paulo: Unesp, 2015, p.62-3).

Edição brasileira de 2015

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