segunda-feira, 4 de maio de 2020

A internacional populista

Ensaio
Por Armando Rodrigues Coelho Neto, que é jornalista, delegado aposentado da Polícia Federal e ex-integrante da Interpol em São Paulo.

Trump, Bolsonaro e Orban

Título completo: “A internacional populista: a esquerda precisa, urgentemente, de estrategista”.

Sorria, você está sendo manipulado! Entre mentiras e verdades, um vídeo editado, Moro mente ou distorce, e a imprensa repercute. Bolsonaro escrotiza temas importantes, e Mourão surge como tecla SAP para tentar consertar. Uma notícia falsa aqui, outra ali, um link com algo de real. Portarias ministeriais publicadas com “erro de digitação”, o dito e o desdito. De repente, a verdade se transforma em mera questão de ponto de vista. Democrático, não?
Enquanto isso, atentados contra a democracia, agressões contra profissionais de saúde, de imprensa, contra educadores e populares. Ministros do STF ultrajados, atos pró-ditadura com apoio presidencial. Crimes comuns e de responsabilidade do “presidente” são escancarados. Há suspeitas de fraude num teste de covid-19 de Bozo. No ar, uma campanha subliminar pró-genocídio. Em meio a uma briga entre quadrilhas, o ex-ministro Sérgio Moro trai seu parceiro de golpe e desembarca na PF de Curitiba como delator sem prêmio. Será? Meros pontos de vista.
Por menos que isso, no golpe de 2016, viaturas policiais atropelaram pessoas, policiais bateram, feriram, torturaram, soltaram bombas, prenderam pessoas. Já especulamos sobre manipulação com textos inspirados em documentários como “O Século do Ego”, “Muito Além do Cidadão Kane”, e outros baseados nas tramoias de Steve Bannon, ou em edições criminosas de matéria pela TV Globo.
Volto ao assunto. Por sugestão virtual de João Pedro Stédile, estou começando a ler “Os engenheiros do caos”, escrito por Giuliano Da Empoli – cientista político franco-italiano. Ele debate fake news, teorias de conspiração e algoritmos utilizados para disseminar ódio, medo e influenciar eleições. No Brasil, por exemplo, serviu para consolidar a fraude eleitoral capitaneada pela Farsa Jato, levando o atual “presidente” da República a comandar o desastre nacional.
Na obra, Milo Yiannopoulos (blogueiro inglês) é apontado como aquele que mudou o foco da transgressão. Nos anos 1960, as manifestações visavam atingir a moral comum e quebrar os tabus conservadores. Hoje, o nacional-populismo trilha sentido oposto: quebrar os códigos das esquerdas e do politicamente correto é a regra número um de sua comunicação. Arthur Finkelstein (judeu homossexual de Nova York), conselheiro de Viktor Orban (porta-estandarte da Europa reacionária) está em cena. Na lista, Steve Bannon, baluarte do populismo americano. Eles seriam engenheiros do caos que reinventam a propaganda na era dos selfies e das redes sociais.
Para transformar a natureza do jogo democrático, trabalham com o avesso das regras estabelecidas. O que soa como defeitos e vícios dos líderes populistas se transformam, aos olhos dos eleitores, em qualidades. A inexperiência serve de prova de que não pertencem ao círculo corrompido das elites. A incompetência é garantia de autenticidade. “Erramos” por que não somos do sistema. Olha o Bozo aí, gente!
Da leitura, deduz-se ser um jogo: Bozo e seus asseclas provocando tensões internacionais – assacar a China, a Venezuela, se imiscuir na questão Palestina na contramão da ONU. Soariam como prova de independência, ímpetos de soberania. Pelo mesmo algoritmo, as fake news seriam a marca de sua liberdade de espírito.
O autor lembra que, no mundo de Donald Trump, de Boris Johnson e de Jair Bolsonaro, cada novo dia nasce com uma gafe, uma polêmica, a eclosão de um escândalo. Mal se comenta um evento, diz o autor, o assunto já é eclipsado por um outro, numa espiral infinita que catalisa a atenção e satura a cena midiática.
Se você quer fazer progressos em política, não contrate experts ou comunicadores. É melhor utilizar os físicos”, diz Dominic Cummings, diretor da campanha do Brexit. Assim, ideólogos e, cada vez mais, cientistas especializados em Big Data criam o jogo ilusório que permite o triunfo do novo populismo. Nos processos eleitorais, trabalham com dados capazes de atingir milhões de eleitores indecisos.
A regra da internacional populista é inflamar paixões entre grupelhos, adicioná-los, mesmo à revelia destes, nas redes sociais. Trabalha com emoções negativas (revolta, ódio, frustração, decepção) para garantir maior participação. Isso explicaria o sucesso das fake news e das teorias da conspiração. Abre espaço para a fúria latente que quer arma e protagoniza as cenas lá de cima.
Giuliano Da Empoli, autor da obra, alerta que para combater a grande onda populista é preciso, primeiro, compreendê-la e não se limitar a condená-la. Ela se alimenta de ingredientes irracionais como a cólera em seios populares, que se fundamenta em causas sociais e econômicas reais. Anseios convertidos em dados operados por algoritmos. Por trás disso, uma grande máquina que, digo eu, tentamos operá-la de forma nanica por simples concessão de seus donos, na ilusão de resistência.
Na obra, é fácil ver o papel da Farsa Jato. Empoli diz que a Itália do início dos anos 1990 inaugurou a interminável era da rejeição às elites e da fuga da política. A Operação Mãos Limpas, a pretexto de implantar a nova ordem moralista, quis acabar e demonizar a classe política. Líderes foram presos, outros fugiram para o exterior, partidos políticos tradicionais desapareceram. Aquilo, diz ele, já ali, era uma abordagem populista. Juízes contra as elites corruptas se transformaram em políticos, fundaram partidos. O caminho trilhado por Sérgio Moro é coincidência?
Os italianos saíram em busca de elites alternativas para governar. Os políticos profissionais (de forma justa ou não) foram desacreditados, viraram corruptos e incompetentes. Surgiu o mito de uma “sociedade civil” virtuosa e não corrompida, até aparecer Berlusconi para dizer que o país deveria ser gerido pelos empresários, gestores (Olha João Dória aí, gente!). O país deveria ser gerido pelos “verdadeiros produtores da riqueza do país” que, lógico, não seriam os trabalhadores (Olha o Guedes aí, gente!).
A internacional populista avança. Precisa ser combatida. Um controvertido poeta português disse no passado que as frases que salvariam a humanidade já estavam prontas. Só faltava salvar a humanidade. A obra “Engenheiros do caos”, entre outras, estão fartas de diagnósticos na leitura do caos instalado no País. A esquerda precisa urgente de estrategistas, sob pena de naufragar. Unir esquerdas, criar frentes, comprar pastores (!?), reformular linguagem… Nestas horas, como faz falta um José Dirceu... entre outros, claro!

Livro do franco-italiano Da Empoli

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