quarta-feira, 6 de maio de 2020

A herança sarda

Ensaio
Por Michel Zaidan Filho, professor titular aposentado de História da UFPE.

Antonio Gramsci (1891-1937)

No dia 27 de abril de 1937, morria um dos pensadores mais originais da rica e diversificada cultura política marxista: Antonio Gramsci. Oriundo da Sardenha (Itália), Gramsci tornou-se cidadão brasileiro nos 1970 e 1980 pelas mãos do ensaísta e tradutor baiano Carlos Nelson Coutinho, introdutor de sua obra no Brasil ("Cadernos de Cárcere"). Como Walter Benjamin, foi mais uma vítima do nazi-fascismo e escreveu em condições adversas, preso nos cárceres de Mussolini, de onde só sairia para morrer de tuberculose. Este grande pensador italiano foi um dos fundadores do Partido Comunista de seu país, membro do Comitê Executivo da Internacional Comunista e deputado no parlamento italiano. Contudo, nada disso se iguala à originalidade de seu pensamento político. Chamado de “o Lenin europeu”, Gramsci inovou, como ninguém, a estratégia revolucionária para a conquista do socialismo no Ocidente, ao propor uma inversão da chamada “guerra de movimento” pela “guerra de posição”, e colocou em primeiro plano a luta pela hegemonia.
Houve muita controvérsia sobre a influência leninista (e até mesmo marxiana) sobre o pensamento gramsciano. Ele foi ou não leninista?! Discussão sectária e dogmática que ignorou o rico legado de uma trajetória de muitas fases. Como, aliás, a própria carreira de Lenin, ora apontado como conselheirista, ora como homem de partido. O fato é que Antonio Gramsci foi, ao lado de Rosa Luxemburgo e os austromarxistas, um adepto da “República dos Conselhos”, da organização de base dos operários, e um crítico do determinismo econômico que ele via em sua primeira leitura de O capital. A primeira fase da carreira política de Gramsci é caracterizada pela veemente defesa dos “conselhos de fábrica” de Turim: é a fase do jornal turinense “L'ordine nuevo”. Existe aí a manifestação de um voluntarismo político muito grande, que corre a par de seu otimismo com a revolta dos operários turineses. Com a derrota e o refluxo desse movimento, surge a reflexão sobre a indispensável aliança com os camponeses do “Mezzogiorno”, a Itália rural e atrasada. A mesma lição aprendida a duras penas pelos “communards” parisienses: sozinhos e isolados não se faz revolução.
Esse aprendizado levou-o a descobrir o “príncipe moderno” – o partido de novo tipo. Bom, aí estamos no domínio do leninismo propriamente dito, como, antes, parecia que a influência anarquista (Amadeo Bordiga) orientava o jovem Gramsci. A teorização do partido como intelectual coletivo, dotado de um centralismo orgânico e capaz de elaborar uma “cultura nacional popular” e levá-la às massas caracterizou essa nova fase do pensamento de Gramsci. O partido passou a ser o mediador, por excelência, daquilo que ele intitulou “a catarse” revolucionária, a transformação no pensamento dos simples em uma visão de mundo coerente e sistemática. Sob este aspecto, o teórico sardo pode ser chamado de “leninista”. Sua valorização da mediação partidária faz dele um partidário daquele "jacobinismo aferrado à disciplina do partido", criticada por Rosa Luxemburgo, em sua discussão com Lenin. E Gramsci foi um intelectual partidário. Primeiro no PSI, depois como um dos fundadores do PCI.
Mas a descoberta do “novo príncipe” não estaria completa sem a nova estratégia revolucionária para a conquista do socialismo nas sociedades ocidentais. Aqui, entramos no coração da originalidade gramsciana: a noção de hegemonia, resumidamente descrita como a soma de coerção + persuasão, força e consentimento, Estado e sociedade civil. A noção de “hegemonia” não era nova no marxismo-leninismo da 3ª Internacional Comunista. Lenin a tomara de empréstimo de Clausewitz, em sua “Arte da Guerra”. A palavra sempre teve forte acepção militar. Mas Gramsci lhe confere um novo conteúdo: consentimento ativo dos dirigidos à liderança de um chefe.
Claro, esta operação não teria sido possível sem a rica contribuição da cultura política e filosófica italiana: o paradigma da história ético-política, de Benedetto Croce. A ideia do bloco histórico, dos intelectuais como funcionários da superestrutura, etc.
Essa inovação teórica e revolucionária conduziu Gramsci a reconhecer o valor da indigitada “sociedade civil” e seus “aparelhos privados de hegemonia” (a escola, a igreja, as academias científicas, os jornais, etc.) como elementos fundamentais para a conquista do socialismo em sociedades de massa, como as ocidentais. E que antes da conquista do poder político, era necessário conquistar a hegemonia: o coração e as mentes das pessoas. É preciso advertir que para ele, “hegemonia” nunca foi sinônimo de “dominação”. Embora ajudasse a consolidar um projeto de poder por um longo tempo.
E, aqui, gostaria de puxar a conversa para o Brasil. Como disse no início, Antonio Gramsci tornou-se cidadão brasileiro através de seu tradutor, Carlos Nelson Coutinho, no bojo de uma luta interna no Partido Comunista Brasileiro, defendendo uma estratégia democrática radical para o fim da ditadura militar e a luta pela conquista do socialismo. No entanto, seu pensamento foi logo apropriado pela academia universitária no sentido de se estudar a chamada “cultura popular”. Como um teórico da superestrutura, Gramsci trata da cultura dos simples, sua ideologia, suas formas de pensamento (materialismo histórico e a filosofia de Benedetto Croce).
Nesta obra, ele estuda o senso comum, o bom senso, a religião e as visões de mundo tradicionais. O teórico italiano manifesta uma particular forma de valorização do senso comum e da visão de mundo das classes subalternas, mas sublinha que esta visão é produto de um amalgama de variados traços – vindos de fora – que se imprimem no imaginário dessas classes, produzindo uma ideologia acrítica, eclética e assistemática. Sendo, portanto, o papel dos intelectuais progressistas e do partido político, fazer a necessária depuração dessa mixagem ideológica, ajudando as pessoas a sistematizarem e darem coerência ao seu pensamento. A essa nova forma de pensar, ele dá o nome de “cultura nacional popular”, e ela varia de conteúdo no âmbito das inúmeras revoluções burguesas e populares ao longo da história.
Sobre este aspecto, nos interessa, sobretudo, a ideia de usar os conceitos gramscianos para o estudo da cultura popular no Brasil. E, neste particular, tanto poderiam ser as religiões populares, como os folguedos e brincadeiras carnavalescas ou ainda os maracatus. O que dizer dessa apropriação dos conceitos gramscianos? Em primeiro lugar, que hegemonia não é sinônimo de dominação, dominação ideológica, do tipo que a indústria cultural moderna opera com o imaginário das pessoas. Segundo, os potenciais críticos, subversivos ou utópicos presentes nessas manifestações precisam ser submetidos a “uma hermenêutica da suspeição”, ou seja, eles aparecem mesclados com elementos da tradição e precisam passar por um processo de decantação ideológica, para que sejam devidamente aproveitados na construção de uma nova visão de mundo. Aí, o trabalho dos intelectuais “orgânicos” (não necessariamente acadêmicos), aqueles ligados aos movimentos de massa, é muito importante. Gramsci, como leninista de novo tipo, evita prescrever uma postura autoritária, diretiva e autossuficiente para essa pedagogia política. Acredita num movimento de reciprocidade e revezamento entre as bases e a direção do partido ou do movimento (“centralismo orgânico”). De toda maneira, seria conveniente não taxar de saída o pensamento dos simples como retrógrado ou atrasado. Ou cortejar simplesmente essa forma de pensamento como sábia e revolucionária. Acho que Antonio Gramsci fica a meio termo.

Filme sobre a vida de Gramsci (1977)

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