quinta-feira, 23 de abril de 2020

Bolsonaro, a pandemia e o impasse

Nota
Por Rafael Baltar, advogado e professor de Direito Internacional Público na Universidade Católica de Pernambuco.

Bolsonaro e Maia: como sair do impasse?

A atuação de Bolsonaro ante a pandemia não se deve à sua inteligência reduzida, embora ela seja perceptível. A sua sociopatia conta, é verdade, mas, sem propósitos, ela também não se põe em ação. Também não acredito que ele esteja buscando evitar a inevitável recessão econômica, como ele sempre reafirma. É verdade que parte da burguesia brasileira fez apostas altas na bolsa de valores em 2018, esperando que a sua eleição pudesse trazer resultados, e que estes resultados já não foram alcançados no ano passado, e, agora, se tornam cada vez mais longínquos. Daí haver uma pressão redobrada desses setores contra a quarentena. Aliás, esta tem sido a leitura de Rodrigo Maia: sabendo da pressão dos investidores na bolsa, ele ainda acredita que a preocupação de Bolsonaro é salvá-los, não importando quantas vidas isto custará.
A questão não é que Bolsonaro tolere a morte de dezenas ou centenas de milhares, mas, sim, que este seja exatamente o seu objetivo. Na minha opinião, ele tem atuado de forma consciente para que a destruição provocada pela covid-19 tenha o máximo possível de alcance no país.
Ele realmente acredita que o caos de um cenário de guerra é o ambiente mais favorável para levar adiante os seus principais objetivos: uma reforma neoliberal impiedosa contra os trabalhadores e todos os oprimidos, acompanhada [e assegurada] pela eliminação das liberdades civis e políticas que ainda restam do regime brasileiro.
E, aqui, neste cenário caótico desejado por ele, se revela também um aspecto de sua loucura: ele percebe a si próprio como um soldado abnegado, disposto a doar a própria vida, em prol desta “causa”. Desde a primeira notícia sobre o seu contágio pela covid-19, ao retornar dos EUA, a sua aparência de saúde só faz piorar. E a tosse, que embargou a sua fala diversas vezes na última manifestação dos gados, deixou claro que ele não se recuperou.
É chocante perceber que, pelo menos, um terço da população ainda o apoie. Mas é bom que a esquerda, e aqueles que ainda se veem politicamente como liberais ou democratas, perceba que essa parcela de apoio que ele tem não vai derreter. Não haverá solução negociada para o impasse. Não haverá a tranquilidade de uma sonhada maioria eleitoral.

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