terça-feira, 10 de março de 2020

Extinção de Torcida Organizada não altera o placar

Ensaio
Por Marcio Soares, que é cientista social.

As 3 maiores Torcidas Organizadas de PE

O futebol de Pernambuco tem levado muita “bola nas costas”, ainda que os incidentes entre torcidas organizadas chamem mais a atenção: por aqui, o futebol enfrenta também a má administração da Federação de Futebol, a corrupção dos dirigentes dos clubes, o controle da TV sobre a agenda do futebol e o declínio na qualidade da crônica esportiva.
Soma-se a isso a crescente violência urbana do país e a dificuldade dos órgãos de Segurança Pública de priorizarem a inteligência ao invés da truculência. Muitas vezes, a polícia que deveria inibir a violência acaba por aumentá-la.
Porque tanta resistência em dialogar com as torcidas? A exclusão do CNPJ foi uma medida usada pela primeira vez em São Paulo, em 1995, e até hoje foi uma ação que nunca serviu pra melhorar nada em nenhum estado. Em alguns lugares, a extinção conseguiu até piorar as torcidas. Na clandestinidade, tudo pode ficar pior.
Ninguém se torna violento a partir do momento que veste a camisa de uma Torcida. Mas, as torcidas precisam mudar. Precisam retomar a ideologia e o foco na festa da arquibancada e o apoio incondicional ao clube.
As torcidas não são isentas. É preciso um compromisso com o desestímulo à violência. Por outro lado, se um ato criminoso individual entrar na conta do CNPJ da torcida, temos aí também um cenário de estímulo à transgressão.
O tema é complexo e exige muito diálogo e trabalho com participação ativa das torcidas. Medidas como: a implantação de um grupo de trabalho permanente envolvendo torcedores, a criação de um batalhão especializado em grandes eventos esportivos, o cadastro dos torcedores organizados, a obrigatoriedade da carteira de identificação e a criação de um lugar específico no estádio. Isso já seria um bom começo.
Extinguir é provocar o desaparecimento definitivo de algo. Como vão fazer sumir milhares de torcedores organizados? Não será com uma “canetada”, ou melhor, uma “canelada”.
Tem que extinguir a incapacidade das instituições de agirem com diálogo e inteligência junto às torcidas. Tem que extinguir essas medidas populistas, panfletárias e ineficientes. Tem que extinguir a “punição geral” no lugar da “punição individual”, porque punir CNPJ e isentar o CPF também aumenta a sensação de impunidade e estimula o crime.
A extinção não alterou o placar! E a violência, como visto no último clássico, segue ganhando de goleada. Extinção é o estado de Pernambuco tirando o time de campo e abrindo mão de seu papel de regulador. É um jogo muito feio. Uma pelada!

Festa nas arquibancadas!

Um comentário:

  1. Excelente explanação, de facil entendimento. Uma verdadeira aula para pessoas que gostam de complicar quando o assunto é violência urbana.

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