quarta-feira, 25 de março de 2020

Bolsonaro pode faturar na desgraça e na vitória

Ensaio
Por Armando Coelho Neto, jornalista, delegado aposentado da Polícia Federal e ex-integrante da Interpol em São Paulo.



Enquanto as panelas batiam Brasil afora, Bolsonaro anunciava à Nação que o coronavírus é só uma gripezinha. Sua fala contraria as imagens mundo. Uma pista de patinação no gelo é usada na Espanha para conservar mortos. Na Itália, pessoas só recebem as cinzas de parentes. Sem velório, coroa de flores, despedidas. Só lágrimas ao longe, enquanto caixões seguem para outras cidades por falta de espaço. Profissionais da saúde contaminados, morrendo, enquanto a China – primeiro epicentro do novo coronavírus, vive sob ameaça de um segundo turno e tenta retomar a vida. Os Estados Unidos pode ser o novo epicentro da pandemia.
Costumo escrever nas segundas-feiras, mas cá estou hoje em decorrência do pronunciamento de Bolsonaro à Nação. Depois do episódio de Dudu Bananinha, entra em cena a ópera da banana podre, por meio da qual Bolsonaro quer tirar proveito de uma desgraça que soa iminente. Ele, que desde o primeiro dia de mandato quer ver sangue, tem protagonizado todos os tipos de insultos contra negros, mulheres, homossexuais, índios, pobres. E tem avançado contra jornalistas com baixarias, sempre falando com a legião de fanáticos que o apoia.
Ontem, definitivamente, surtou. Não é mesmo caso de impeachment, mas de interdição. Urgente. De Bolsonaro não esperem piada. Tudo é jogo de cartas marcadas, urdido nas entranhas do golpe de 2016, com grife judicial no tabuleiro da geopolítica internacional. Engana-se quem pensa que a cozinha do golpe saiu de cena.
Sempre que me pedem opinião sobre o destino do Brasil depois da pandemia, costumo dizer que tenho residual otimismo. A chuva de exemplos no mundo estimula a acreditar que o Brasil, ao seguir orientações da Organização Mundial de Saúde, pode desacelerar a velocidade da contaminação, e com isso diminuir o impacto da doença. Ainda que os impactos econômicos, obviamente, sejam inevitáveis.
Ao pensar na questão, faço uma comparação imprópria e estúpida com Lula, quando dizia que a crise de 2008 seria uma marolinha no Brasil. E foi. Mas, Lula, um verdadeiro estadista, jogou dinheiro na economia, segurou a barra e deu a volta por cima.
Lula deu resposta econômica, abriu mão de impostos para os ditos produtos de linha branca, jogou dinheiro em regiões pobres, onde o Real (R$) mal circulava. Fábricas de ventiladores e fogões, por exemplo, não paralisaram nos grandes centros, porque lá nos cafundós tinha gente com dinheiro querendo comprar. Outros e outros exemplos se sucederam, mesmo que a TV Globo, se aproveitando de um dia de descanso de caminhoneiros, exibisse caminhões paralisados como símbolo de uma crise que ainda não chegara efetivamente. Lula se transformou em mascate, vendeu o Brasil mundo afora, no bom sentido, saindo-se vitorioso e com aprovação histórica.
O sacripanta do Bolsonaro joga noutra trilha. Como diz um amigo, se os esforços da Sociedade Brasileira forem eficazes para “achatar a curva” progressiva de contaminação, Bolsonaro e seus comparsas olharão para o passado e vão dizer que a “culpa” pelo desemprego e pela desaceleração da economia (efeitos colaterais inevitáveis da crise) foi dos “inimigos”. Do mesmo modo, quanto mais a imprensa agir disseminando informações (úteis para instruir a população sobre como agir de modo preventivo, auxiliar a não propagação e se cuidar), mais estará provado o exagero e histeria na cobertura da doença, da qual tanto reclama.
O mais tosco dessa história no caso da pandemia é que o presidente e seu gado agem como se não estivessem no governo. Eles se comportam como se fossem a oposição. Se acontecer algo grave com a economia, o presidente “avisou”. Aliás, aviso dado em cadeia nacional de televisão, ao som de panelaço nacional. Tudo de ruim que acontecer ao Brasil se deve aos que com ele antagonizam: a esquerda, a imprensa, o Congresso Nacional, o Supremo Tribunal Federal. Bolsonaro avisou.
Há algo de tosco no ar. Até o Embaixador Chinês entendeu e aproveitou para dar um recado. Nas entrelinhas, sugere em nota resistência com um alerta a Dudu Bananinha: “Aconselhamos que não corra para ser o porta-voz dos EUA no Brasil, sob a pena de tropeçar feio”. Com isso, alerta o povo brasileiro sobre a submissão do desgoverno ao quixó de Donald Trump.
Mas, a fala de Bolsonaro ontem (dia 24), na contramão de uma ferida internacional, pode soar como louca. Na verdade, porém, é parte integrante do mesmo jogo diabólico que levou o banana podre à Presidência da República (de bananas).
Não há acasos no governo Bolsonaro. Tudo que vem de sua equipe é calculado. Desde os erros de português da pasta da Educação às tosquices da tresloucada que diz ter visto Jesus num pé de goiaba. Dos desvios e soslaios do picareta da Justiça (capanga de milícia, segundo um deputado), aos pretos do governo – que se sentem mais brancos ou mais clarinhos, única e tão somente por reverberar idiotices fabricadas na Califórnia – tudo é manipulação.
Bolsonaro está jogando alto com seu discurso e tem costas largas para isso. Sabe que quem o colocou lá não foi o povo, mas sim seu patrão. O povo foi mero selo.
Sem acasos, sua quadrilha tentou roubar quatro meses de salários dos trabalhadores. A medida reflete o desprezo e o distanciamento que a súcia do Bolsonaro tem para com o povo. De pronto, Bolsonaro voltou como herói e revogou com desculpas esfarrapadas. Seria apenas um “engano”, um erro, como o foi a tentativa de enquadramento de Lula na Lei de Segurança Nacional. Seria só mais um diz e desdiz, faz e desfaz, no ridículo que é marca registrada de seu desgoverno.
É preciso pôr rédeas urgentemente nas maquinações de Bolsonaro, que na surdina trabalha pela quebra da ordem democrática, e é candidato natural a ditador de republiqueta.
A fala de Bolsonaro ontem foi uma profecia. Se a campanha do ministro da Saúde der certo, Bolsonaro vai faturar pois vai provar que o coronavírus não passou mesmo de uma gripezinha, tratada com histeria. De quebra, vai culpar todos os que o criticaram, por ter alertado pelos danos à economia.
A quarentena em defesa da saúde, ao que tudo indica, é uma segunda onda da “quarentena mental” que assola o país, que pode cair mais uma vez nas garras do teatro de sombras que move os fios da fraude eleitoral de 2018. O mau cheiro no ar não vem das vítimas da pandemia. Vem de um banana podre que a elite içou ao poder.



Nenhum comentário:

Postar um comentário

Adicione seu comentário.