segunda-feira, 3 de fevereiro de 2020

Regina diz sim. Vai interpretar ela mesma. Sugestão de discurso.

Ensaio
Por Armando Rodrigues Coelho Neto, jornalista, delegado aposentado da Polícia Federal e ex-integrante da Interpol em São Paulo e Paulo Magon, que é o heterônimo 128 de Fernando Pessoa, avô de Laurinha e Pedro.

É reticente, diz, desdiz, publica e despublica no melhor estilo diversionista que inclui o clássico “falem mal, mas falem de mim”. Ela parece estar pronta para o jogo de sombras do fascismo emergente.



Fechei o texto da semana passada tentando falar de cultura, um tema sistematicamente atacado desde o golpe de 2016. Sob império do ódio, um dos primeiros parlamentares a ser recebido pela pasta da Cultura foi o ex-ator pornô Alexandre Frota, então fechado 100% com a calhorda golpista. Hoje, ele anda por volta dos 99%, trocando farpas com a mesma horda. O fim do ministério da Cultura foi nítido sinal de que todos os ataques promovidos contra a arte e os artistas eram mesmo pra valer. No lugar da Cultura entrou em cena o culto ao ódio, a mediocridade e a pieguice.
A propósito do texto passado sobre Regina Duarte no GGN, recebi comentários dentro e fora do espaço, alguns dos quais sobre possível confusão entre a pessoa e as personagens que ela interpretou. Menos por ser fisicamente xendengue (baixinha, miúda, fraquinha) e mais por seu viés político caolho, há que se manter as reservas, seja por questões sociais ou políticas.
Socialmente, o Diário do Centro do Mundo noticiou que a atriz convocou a imprensa para ir à casa dela após anos de silêncio do “Eu tenho medo!”. Todos imaginavam que diria algo de interesse público, talvez uma crítica positiva ou negativa sobre o governo Lula, contra quem ela pregou terrorismo. Não. Ela queria mesmo era apoio para que um prédio não fosse construído, pois iria atrapalhar a vista de sua janela.
Politicamente, reeditando o terrorismo (“Eu tenho medo!”), subiu em palanque a favor do golpe de 2016, e, tempos depois, tentou adocicar o lado homofóbico, racista, ditatorial e fascista do atual “presidente da República”. Via nele apenas um homem de décadas passadas falando coisinhas assim e assado, “como meu pai”. Mais recentemente, arranjou encrenca com artistas por publicar indevidamente fotos deles, entre os quais Maitê Proença, Luís Fernando Guimarães, Carolina Ferraz e José de Abreu, que condenaram a associação de suas imagens a um “governo” que eles não apoiam. Abreu foi o mais contundente, insinuando até saber o que ela teria feito no verão passado.
Por ignorância ou provocação, a atriz mostrou logo de cara estar em plena sintonia com o modo de gerir dos bolsopatas. É reticente, diz, desdiz, publica e despublica no melhor estilo diversionista que inclui o clássico “falem mal, mas falem de mim”. Ela parece estar pronta para o jogo de sombras do fascismo emergente, no qual o público só assiste as imagens, mas não sabe ao certo o que faz o ilusionista com a outra mão. No caso, o entreguismo vira-lata, a solapagem de direitos sociais e a destruição dos pilares de uma sociedade solidária e humanizada, como prevista na Constituição Federal.
Desse modo, sobrevivem os receios de que em vez de se tornar secretária da Cultura, se converta mesmo em secretina. Portanto, mais pelo seu perfil pessoal do que por confusão entre Regina em si as personagens que interpretou.
Talvez não nos tenhamos detido quanto ao nome da “heroína” dessa ópera bufa. Regina significa literalmente “rainha”, e Duarte bem que poderia ser da Arte, formando a “Rainha da Arte”. Qual o quê! Duarte significa “guardião da riqueza”. Nada mais icônico para um governo a serviço absoluto do capital e que quer expropriar conquistas do povo, aniquilar sua cultura.
Regina Duarte andava esquecida da mídia e não perdeu a oportunidade de adentrar novamente no palco. Desta feita, representando a si mesma na peça “O casamento com o Bozo”, cujo “dote” é de pouco mais de dois bilhões de reais (orçamento estimado para a pasta) e que já nasce comprometido com a política raivosa do atual governo. No papel de si própria, como rainha guardiã da riqueza – seja dela, da Globo, do patrimônio das milícias ou dos financiadores do golpe, o destino da cultura é incerto.
No texto passado foi citada a presença daquela atriz numa homenagem ao cineasta Glauber Rocha, e um leitor não perdeu a oportunidade: “Deus tenha piedade de nós”, disse ele. Afinal, o pior é que ainda pode ser pior. “Armando Coelho, Regina não vale duas palavras do teu ensaio”, disse ele. “Li teu texto lembrando-me de Glauber Rocha no filme Terra em Transe (1967)”, roteiro e direção do Glauber. O protagonista Paulo Martins, na interpretação magnífica de Jardel Filho, verbaliza, ironicamente, o seguinte texto já ao final da película:

“‘Quando a beleza é superada pela realidade. Quando perdemos nossa pureza nestes jardins e mares tropicais. Quando no meio de tantos anímicos respiramos o mesmo bafo de vermes em tantos poros animais ou quando fugimos das ruas e dentro da nossa casa a miséria nos acompanha em suas coisas mais fatais como a comida, o livro, o disco, a roupa, o prato, a pele, o fígado em raiva rebentando a garganta em pânico e o esquecimento de nós é inexplicável, sentimos finalmente que a morte é que converge, mesmo em forma de vida agressiva’”.

Regina Duarte! Eis pois, o teu discurso de posse da pasta cultural! Eis o teu “sim” no “altar” desse casamento por interesse, fadado à traição!
Fosse rainha da arte, melhor destino poderia ter a cultura. Urge, pois, pensar com os botões quebrados de nosso puído colete e concluir: “Regina, gentileza não meter vosso franzino, xendengue e político nariz na cultura brasileira”.

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