terça-feira, 7 de janeiro de 2020

Notas sobre Domenico Losurdo [5] – A "Terceira Guerra" que não houve

Nota
Por Mário Maestri, historiador e ex-professor do Programa de Pós-Graduação em História da Universidade de Passo Fundo (RS).

Casa dos guardas e torre de observação na última residência de Trotsky

Losurdo mente. Falseia a história. Embaralha as cronologias. Usa fontes desqualificadas. Tudo para justificar o Grande Terror stalinista [1934-38] como resposta a uma suposta “Terceira Guerra Civil”. A Primeira seria a de 1917; a Segunda, a vencida sob a direção de Trotsky [1918-21]; a Terceira, a de Losurdo, lutada por Stálin contra o ataque armado à URSS, desde dentro do Partido Bolchevique, pelos trotskistas, é claro. Esta, ninguém ouvira falar, até agora!
Para o italiano, em 1927, Kamenev, Zinoviev e Trotsky partem para a “conquista do poder” através de ofensiva “militar”. Trotsky define o “plano militar” em reunião, em “bosque”. O “Bonaparte Vermelho”, apoiado no “exército”, nas “massas operárias” e em “jovens comunistas” tomaria o “poder” em “golpe de Estado”. A insurreição iniciaria no 10º aniversário de 1917, com “manifestações” em Moscou e em “outros centros industriais”.
Tudo está pronto, mas nada acontece. O neo-Pinóquio conclui as revelações estarrecedoras dizendo apenas: “Como se sabe” [quem?], os “planos fracassaram” [onde, quando, como?] e Trotsky foi “expulso do partido” e obrigado a “transferir-se” [sic] para a “Turquia”. No exílio, segundo ele, seguiria organizando “sabotagens” terroristas para tentar outras insurreições.
No mundo real, os fatos são outros. A Oposição Unificada defendia um programa político contra a burocracia e a restauração capitalista na URSS, para corrigir a linha do PCUS – democracia operária, industrialização, coletivização. Em fins de 1927, a Oposição já entrava em crise. Fracassara a Revolução Chinesa, liquidada pela direção burocrática, com o que ela esperava que se reativasse a vida política na URSS.
O desânimo era grande. Iniciaram-se as prisões em massa. Em novembro de 1927, Adolph Joffe, de 44 anos, bolchevique desde 1900, dirigente do assalto em 1917, diplomata soviético, muito doente, suicida-se em protesto antiburocrático. Milhares de trabalhadores, de punhos cerrados, seguem silenciosos o enterro. Em janeiro de 1928, Zinoviev e Kamenev abjuram. Trotsky segue isolado a luta antiburocrática.
Em fins de 1928, a situação modifica-se totalmente. Os camponeses ricos negam-se a entregar o grão, e a fome abraça as cidades. Temendo ser engolido pela NEP, Stalin rompe com Bukharin, apropria-se e implementa, violenta e burocraticamente, o programa da Oposição. Milhares de “trotskistas” aderem. Acreditam que apenas a industrialização, proposta desde sempre pela Oposição, faria renascer a democracia operária. Voltariam a ser presos e, mais tarde, fuzilados.
Ante Ciliga registra a “debilidade” da Oposição em 1927. Ele e Victor Serge relatam as tentativas de falar em células operárias sob o controle dos brutamontes da burocracia. Após 1929, no exterior, Trotsky vive como asceta e passa a escrever para pagar as contas. Não contava com o “ouro de Moscou”! A organização que funda vive em crise financeira.
Em 1974, refugiado no México da repressão no Chile, visitei a última residência de Trotsky, em Coyoacán, na periferia da capital. Me surpreendeu a pobreza. O QG da “Terceira Guerra Civil” de Losurdo era uma moradia de classe média, de um andar, com um pequeno pátio, nos cafundós do mundo. Os altos e sinistros muros davam falsa ideia de proteção.
Losurdo apoiou seus disparates sobre 1927 no italiano Malaparte, jornalista aventureiro fascista, como vimos, e em Ruth Fischer, comunista de esquerda que, em 1926-7, estava… na Alemanha. E, nos anos 1940, ao escrever as memórias que o italiano usa, era ideóloga anticomunista!
Assim não dá, Losurdo! O teu nariz não pára de crescer!

P.S.: O título atribuído pelo autor para as linhas anteriores foi: “A Terceira Guerra que não houve: o nariz de Pinóquio de Losurdo [5]”.

Túmulo de Adolph Joffe

Nenhum comentário:

Postar um comentário

Adicione seu comentário.