segunda-feira, 30 de dezembro de 2019

Notas sobre Domenico Losurdo [2] – Losurdo, assassino de memórias

Nota
Por Mário Maestri, historiador e ex-professor do Programa de Pós-Graduação em História da Universidade de Passo Fundo (RS).

Mikhail Tukhachevsky, marechal do Exército Vermelho

Em 12 de junho de 1937 era executado o marechal Mikhail Tukhachevsky, grande herói da Guerra Civil [Russa]. Era acusado de conspiração “fascista-trotskista-direitista”. Iniciavam-se fatos de consequências terríveis para a URSS. Sobre a execução de Tukhachevsky e de “numerosos outros” oficiais, Losurdo resolve a questão dramática em sete parágrafos. E bota “numerosos” nisso, Losurdo! Dois outros marechais, oito dos nove almirantes, uns setecentos generais, em geral, membros do Comitê Central. Mais de 15 mil oficiais assassinados e talvez 40 mil na prisão! Onda de suicídios varreu a oficialidade do Exército Vermelho quando dos sucessos. Losurdo banaliza a tragédia, dedica-se a inocentar Stalin e a sugerir responsabilidade política de Trotsky!
Segundo ele, em 1937, o presidente da Tchecoslováquia informara os franceses de conspiração de Tukhachevsky com a Alemanha nazista. A GPU informara Stalin, que ordenara, em um vapt-vupt, o desventramento do Exército Vermelho. Losurdo apoia a tese da conspiração em declarações de Churchill e Hitler! E balbucia que “dúvidas permanecem” sobre ter ela ocorrido, o que justificaria a carnificina! E já zombando de seus leitores, afirma que os oficiais restantes “expunham com franqueza as suas opiniões […] sem hesitar em contradizer o líder supremo […]”. Ninguém temeria terminar no círculo ártico ou com um tiro na nuca!
Abertos os arquivos soviéticos e alemães, nada sobre a conspiração multitudinária: apenas informações documentais sobre a falsificação nazista de documentos relativos à “traição”, ao igual do também feito pela polícia política stalinista. Cada um por suas razões.
Losurdo maravilha-se afirmando que não foi a sede de sangue de Stalin que levou à mortandade, mas razões políticas: possivelmente eliminar oficiais bolcheviques de prestígio que combateram sob as ordens de Leon Trotsky. Oficiais que, entre eles, sussurrariam críticas que não podiam discutir em um partido comunista aterrorizado. A sorte da família Tukhachevsky foi sinistra, como a de tantos outros oficiais.
Oito décadas passadas, nossa homenagem a esses soldados da revolução proletária, que não merecem ter suas memórias enxovalhadas por um assassino de memórias.

P.S.: O título atribuído pelo autor para as linhas acima foi: “Losurdo, assassino de memórias – O caso Tukhachevsky [2]”.

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