quarta-feira, 1 de janeiro de 2020

Notas sobre Domenico Losurdo [4] – "Maestri, posso fazer uma pergunta pessoal?"

Ensaio
Por Mário Maestri, historiador e ex-professor do Programa de Pós-Graduação em História da Universidade de Passo Fundo (RS).

O historiador, cientista social e militante baiano Jacob Gorender

Conheci Jacob Gorender, de corpo presente, de olho no olho, em inícios dos anos 1980. Quando concluía tese de doutoramento sobre a escravidão sulina, tropecei em O escravismo colonial. O livro foi dupla iluminação. Primeiro, ele detalhava tudo o que eu balbuciava em meu trabalho. Segundo, porque se tratava de uma “economia política” da escravidão colonial com o objetivo de alicerçar uma crítica sistemática da formação social brasileira. Ou seja, compreender o país para revolucioná-lo. Convidei-o, quando foi possível, para falar aos meu alunos da USU ou da URFJ.
Conheci mulheres e homens inteligentes. Gorender bordejava a genialidade. De família judia pobre radicada na Bahia, ingressara no PCB quando estudante de Direito, sob a ditadura getulista. Lutara na II Guerra como voluntário e, ao retornar, abandonara os estudos para militar profissionalmente. Jamais concluiu curso superior, o que lamentava. Foi definido como “historiador não profissional” por colega com canudinho de doutor e alguns pós-doutoramentos.
Gorender conhecia o alemão, o ídiche, o francês, o espanhol, o russo, o italiano e quem sabe o que mais. Por muito tempo, ganhou a vida como tradutor. Mais tarde, foi o responsável na Abril, onde trabalhava, pela coleção “Os Economistas”. O homem tinha conhecimentos sistemáticos em filosofia, economia, história, sociologia e por aí vai. Conhecia solidamente a literatura universal e a brasileira. Era metido a entender cinema e música. Formara-se segundo o espírito humanístico do século 19.
Fora um dos redatores escolhidos por Luís Carlos Prestes para escrever a “Declaração de Março” de 1958, reajuste da linha do PCB à direita, após Stalin ser esculhambado por Kruschev em 1956. Mais tarde, participava da esquerda pecebista – com Mario Alves, Marighella, Apolônio de Carvalho etc. – que rompeu com a direção do partido após 1964, quando do desastre, em 1964, da política de colaboração de classe com a “burguesia democrática”. Em 1968, Gorender fundou com [outros] companheiros o PCBR, organização híbrida que propôs a luta armada e o trabalho de massa, mas não aderira ao programa socialista. Insatisfeito com uma ruptura que não explicava ou compreendia com o que rompia, além de denunciar o pacifismo, iniciou a investigação sobre a formação social brasileira, que apresentou em suas linhas gerais, em curso ministrado na prisão, em São Paulo.
Publicou sua tese em 1978. Em minha opinião, o marxismo só se consubstanciou como interpretação sistemática da formação social brasileira com essa crítica sistemática de Gorender, que propôs categorias específicas para os fenômenos específicos do modo de produção escravista colonial, dominante em nossa formação social até praticamente 1888. A tese foi todo um sucesso na Academia, esgotando-se em poucos meses uma primeira edição. Então e até hoje, raros militantes leram o trabalho “excêntrico” do conhecido intelectual comunista, que falava de cativos, em vez do assalto ao poder.
Como todos os dirigentes e militantes do PCB, Jacob Gorender fora um stalinista “raiz”, duro como granito. Estava na URSS em 1956 e lera o relatório de Kruschev em edição reservada aos funcionários do PCUS. Fizera das tripas coração para superar a formação política stalinista dogmática que o acompanhara desde sempre e que conflitava com a revolução epistemológica que empreendia sobre a formação social brasileira. Se esforçava muito para erradicá-la. Porém, os milagres não existem, ao menos neste mundo.
Para encurtar a história, colaborei por um longo tempo com o “Velho” – teria uns dez anos menos do que eu agora –, no combate à ampla ofensiva contra o “escravismo colonial” lançada por miríade de acadêmicos conservadores e “progressistas”, que terminaram alcançando amplos resultados, ajudados pelo refluxo geral do mundo do trabalho no Brasil e no mundo em inícios dos anos 1990. Gorender, obrigado a trabalhar para viver, tinha que responder a um batalhão de intelectuais regiamente financiados pelo Estado.
Fora dois ensaios, o segundo livro de grande sucesso escrito por Jacob Gorender foi Combate nas trevas, ainda hoje um clássico sobre os anos da luta armada no Brasil. Já li críticos proporem o despropósito de ser essa a opera magna do pensador marxista. Terminado o trabalho, entregue para a editora, Jacob Gorender pôs uns pilas no bolso e foi visitar a Itália, para descansar e para um recorrido sentimental – refazer seu trajeto do sul ao norte da Itália, quando pracinha.
Em 1986 eu vivia em Milão com Florence, minha companheira, italiana, e nosso filho Gregório, estudante da escola elementar. Eu trabalhava como correspondente internacional do Diário do Sul, de Porto Alegre, um jornal do grupo da Gazeta Mercantil. Gorender parou em nossa casa porque as liras – não existia ainda o euro – não eram muitas e deviam render.
Gorender era baixo, franzino, cabelos brancos, protocolar, mesmo com os amigos e companheiros próximos. Florence, que trabalhava em uma grande empresa italiana, conseguiu entrada para que ele assistisse a uma ópera no teatro Alla Scala. O homem foi às nuvens. Vestiu a sua melhor “fatiota”, já que ia, disse, à grande catedral da música clássica.
Na cozinha, às tardes, falávamos disso e daquilo, sobretudo do escravismo colonial e política, bebendo o generoso – e barato – vinho italiano. Também nisso ele era comedido.
Um dia, Gorender se aprumou na cadeira e, olhando-me sério, disse: “Maestri, posso fazer a você uma pergunta pessoal? É algo que me disseram de ti!”.
Confesso que me assustei. A luta na política e na Academia era, e é, de foice. Anos mais tarde, conheci o que havia de pior, nesse relativo, no Curso de História da UFRGS, conhecido, então, como “O Serpentário”. Pensei no que de mais horrível podiam me ter acusado.
Ter ficado com o dinheiro da organização, não podia ser, refleti. Os grupos em que militei não tinham dinheiro para pagar o ônibus ao militante! Tranquilizei-me por não poder ter sido também acusado de descaminhar estudantes adolescentes, pois dei apenas aulas na Graduação e Pós-Graduação! Se tivessem dito que era da CIA, Gorender não teria se hospedado conosco.
Preparei-me para o pior e respondi: “Claro, podes perguntar, sem receio, o que quiseres e o que disseram de mim!”. Ainda mais tenso e empertigado, Gorender lascou: “Maestri, é verdade que você é trotskista?!”.
Caí na risada, quase sem poder parar. O “velho” compreendeu, logo, o “mico que pagava”. Tentando recompor-se, disse: “Maestri, não deves rir. É sério. Não podes compreender como foi formada minha geração. Stalin não era o Cristo, era a Trindade rediviva na Terra”. E me contou que era verdade o proposto sobre Marighella, seu grande amigo e camarada, uns dez anos mais velho do que ele. O baiano, ao saber do relatório de Kruschev sobre o “Pai dos Povos”, desandara a chorar por horas e ninguém conseguira consolar o destemido militante, que jamais tremeu diante da morte.
Gorender concluiu: “Muitos dos meus camaradas da direção eram comunistas dedicados e honestos, que pouca atenção davam para a educação política. Entre as inúmeras qualidades do meu querido e inesquecível companheiro, não estava, certamente, a modéstia”.

Especial para o blog “Curitiba Suburbana”.


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