terça-feira, 3 de setembro de 2019

Tiroteios virtuais

Ensaio
Por Ettore Medina, Cientista Social, Doutor em Ciências Sociais, Professor de Sociologia no Ensino Médio na Rede Estadual Paulista de Educação. Investiga Budismo, Comunicação não-violenta e Cultura de Paz.



Título completo: “Tiroteios Virtuais: notas sociológicas sobre Video Games, Educação e Sistema Perceptivo”.

Nestas notas uso como forma o relato. Assim, a narrativa e suas descrições partem da minha memória dos acontecimentos, são aproximadas e permeadas de ficção. As reflexões teóricas são um tanto apressadas, mas, a meu ver, valorosas, por tentarem tecer interpretações sobre o que foi vivenciado. Este relato também é uma defesa da permanência da disciplina Sociologia na grade curricular nacional.
No dia 30 de agosto acompanhei alunos e alunas das Terceiras Séries do Ensino Médio na Feira de Profissões da Uniara [nota 1]. Acho esse tipo de passeio muito positivo, entre vários motivos, por encontrarmos professoras e professores amigos que atuam em outras escolas. Encontrei um amigo e uma amiga [nota 2]. Dos vários temas comentados, como os horrores do Governo Bolsonaro e as possíveis precarizações do trabalho docente decorrentes das reformas do Governador João Doria em São Paulo, destaco nosso assombro frente a relação que alunos e alunas têm com jogos de tiro que têm como suporte os telefones celulares, e, em especial, um jogo chamado “Free Fire”.
Para quem não sabe – e se você é professor, professora, pai, mãe, ou tem contato com crianças e adolescentes, sabe –, “Free Fire” é um jogo de tiro em primeira pessoa, que inclusive já recebeu uma versão em filme, “Free Fire: o tiroteio” (2017). O jogo segue o estilo de jogos como “Counter Strike”, sucesso muito apreciado por pessoas gamers. Esse estilo de jogo traz recursos técnicos e gráficos de ponta que criam uma ambiência virtual bastante rápida e realista, e é quase impossível de ser jogado para quem cresceu utilizando video games como Mega Drive, Super Nintendo, e jogos em máquinas de fliperama (Arcade), que são suportes que tinham o controle (joystick) como meio de controlar a personagem. Quem joga “Free Fire” deve, ao mesmo tempo, controlar o corpo da personagem, que faz uma série de movimentos como correr, pular, abaixar, ser atirador especial (sniper), recuar, entre outros, e controlar a mira da arma. Quando se tem o computador como suporte, a pessoa que joga usa teclado e mouse ao mesmo tempo. Já no telefone celular as duas mãos e polegares velozes são utilizados para realizar gestos cuja destreza é absurda. Um aluno falou que “Free Fire” é um “jogo de sobrevivência”, observação que faz bastante sentido. Você pode começar em equipes ou jogar mano a mano. Quem mata personagens adversárias pontua, mas também pontua e pode vencer quem fica vivo no final. Outro aspecto que deve ser mencionado tem a ver com duração das partidas. Diferentemente dos jogos onde era necessário vencer muitas fases para chegar ao final, nos atuais jogos de tiroteio as partidas são rápidas e podem ser jogadas repetidas vezes. Não há mais fases a serem vencidas e nem um final a se conquistar. Vale o que é realizado dentro da partida jogada, e é possível ranquear o desempenho da personagem ou das equipes. Há pessoas que gravam suas partidas, e aquelas que assistem a vídeos de partidas que são consideradas bem realizadas.
As interpretações que destacam o estímulo à violência como uma possível consequência do uso desse tipo de jogo têm certa razão, tendo em vista que há casos de tiroteios em escolas onde os atiradores gostavam de jogos desse estilo. No entanto, cabe aqui uma qualificação da crítica. Assim, o perigo maior não seria o estímulo à violência, mas teria a ver com os efeitos de a pessoa jogadora ser tantas vezes exposta à visão da personagem mirando, atirando e depois recarregando a arma. Penso que, exceto por limitações físicas, se a uma criança ou adolescente for dada uma pistola ou um fuzil kalashnikov, ela conseguiria, ou ao menos teria noções sobre como municiar a arma e utilizar. É como se os jogos de tiroteio funcionassem como simuladores de situações de guerra, levando as pessoas jogadoras a participarem de um treino, ou mesmo de uma pedagogia para a guerra. Não parece absurdo imaginar que um dos efeitos da exposição a tais jogos seria uma formatação dos usos da atenção e do sistema perceptivo das pessoas jogadoras.
O escritor Alex Castro tem comentado como a atenção, na atualidade, se tornou uma das habilidades humanas mais disputadas pelas empresas e pelo universo da propaganda. O crescente número de pessoas que são atropeladas ao atravessar a rua olhando o celular, de pessoas que atropelam outras por dirigirem olhando o celular, ou daquelas que bateram o carro ou se envolveram em acidentes ao, por um breve momento, prestarem atenção em um outdoor e não no campo de percepção que o ato de dirigir demanda pode ser entendido como um sintoma do estágio do capitalismo que estamos vivenciando.
Seguindo de perto o raciocínio do autor, estendemos a discussão para o tipo de sociabilidade e de conversa que são criadas quando a pessoa interlocutora saca o celular ao estar conversando com você. O amigo professor com quem falava mencionou que uma mera conferida no whatsapp pode te levar a ter contato com uma grande quantidade de informação, fazendo com que se perca muito tempo, e que evitava olhar o celular quando estava com alguém. Já a professora disse que não tinha plano de internet no celular para evitar efeitos similares. O já mencionado Alex Castro escreveu como é desleal a disputa entre você, mera pessoa, e a internet. A internet proporciona muitas possibilidades a mais que você, e necessariamente será mais interessante. Imaginem as consequências da presença do celular nas mãos de crianças e adolescentes quando somos professoras e professores. Vejo pessoas que são capazes de ficar por aulas inteiras na internet ou jogando “Free Fire”. Desse contexto temos como desdobramentos possíveis a redução da capacidade de atenção e o enfraquecimento da arte da conversação, técnicas humanas de fundamental importância para a tessitura de laços sociais ricos em significado.
Sabemos, mediante as reflexões de pensadores como Georg Simmel e Walter Benjamin [nota 4], que o sistema perceptivo, e por consequência os usos da atenção, são histórica e socialmente determinados. Voltando à fala da amiga professora com quem conversava, não só confirmou, mas também qualificou minha intuição acerca dos efeitos que jogos de tiro têm nos usos da atenção e no sistema perceptivo das pessoas jogadoras. O exemplo dado por ela diz respeito à rejeição quase que massiva das pessoas estudantes em assistirem ao filme “Tempos Modernos” (1936), de Charles Chaplin. Um dos motivos de seu assombro está no fato de que nos anos anteriores a atividade havia funcionado muito bem. Ainda nas palavras dela, é assustador notar que pessoas adolescentes têm dito não terem concentração para assistir televisão, pois um vento ou a mera presença de alguém próximo ao aparelho atrapalhava e as levava a perder a atenção. Nos anos 1930 Walter Benjamin percebeu como o predomínio da informação era um dos grandes responsáveis pelo declínio da experiência – um acontecimento que nos toca, e cuja apreensão qualitativa nos permite sua transmissão, que, por sua vez, toca a pessoa interlocutora e permite a ela, além de se enriquecer com a matéria que lhe foi narrada, a transmitir. No atual estágio do capitalismo, momento onde o alcance dos discursos informativos é massificado e constante, certamente estamos mais pobres em experiência. Talvez “Free Fire” e seus efeitos sejam um sinal da aceleração desse empobrecimento.
Naquele 30 de agosto apresentei as duas últimas aulas do período da tarde como substituto em uma sala de Sexto Ano com quem ainda não havia tido contato. Era um bando de crianças de 11 e 12 anos. Lancei mão do efeito surpresa para brincar, usar de mímicas precárias, caretas e malabarismos para elas rirem. Fora umas três, todas se aproximaram. Rapidamente memorizei seus nomes, o que é importante para elas e têm bom efeito. Perguntaram quem eu era e falei que ensinava Sociologia. Comentei que a Sociologia pensava a relação entre as pessoas e explicava como, por exemplo, seus os avôs e avós tinham ideias e hábitos tão diferentes dos deles. É comum acontecer nas aulas que leciono, inclusive nas aulas regulares de Sociologia, de as perguntas feitas pelas pessoas estudantes ditarem o rumo das aulas. As crianças do Sexto Ano começaram a perguntar sobre minha vida e, sentindo-se à vontade frente minha disposição em falar e ouvir, começaram a falar de si.
A condição de ter sido professor eventual por muitos anos permite à pessoa falar, inclusive improvisadamente, sobre uma razoável quantidade de temas diferentes por 15, 20 ou 30 minutos. “Free Fire” acabou sendo um dos temas sobre os quais falei. Em um dado momento, enquanto mencionava sobre como dormia cedo e gostava de ler, uma das alunas disse que costumava jogar “Free Fire” até duas ou três da manhã, e também disse que quando começou a jogar perdeu o interesse em ler ou assistir a vídeos ou filmes. Jogava sempre que podia. Ainda disse que seu pai falava como ela deveria jogar menos. Não deixou de mencionar, no entanto, como o pai também jogava, gastando R$50 reais mensais em “Free Fire”, e que às vezes jogavam juntos. Nós sabemos: quando a criança pede para o pai comprar um chocolate e ele diz não ter dinheiro, mas vai e compra um maço de cigarros com o dinheiro que ele diz não ter, isso tem um efeito. Crianças aprendem muito com exemplos. Perguntei a aluna se ela brincava, e ela disse que não. Preferia jogar a brincar com as outras crianças. Após o relato da menina, outros alunos e alunas disseram que também jogavam muito. Ali não jogaram “Free Fire”, pois solicitei que não mexessem nos celulares, e também porque estavam, na maior parte do tempo, atentos à minha presença e fala. Consegui conduzir as duas aulas com conversas, respostas a perguntas e exposição de conteúdos. Aprenderam, riram e se descontraíram bastante. Deixei que ficassem mais livres nos últimos vinte minutos e, para a minha alegria, se juntaram em grupos e brincaram.



Notas
[1] Universidade de Araraquara. Instituição privada.
[2] Agradeço ao professor de Língua Portuguesa Mário Augusto e à professora de Sociologia Cibele Fabretti, ambos professores na Rede Estadual Paulista de Educação, pela boa conversa que me instigou a escrever estas notas.
[3] Tenho em mente as reflexões desenvolvidas por Alex Castro no livro “Atenção: por uma política do cuidado” (2019), Editora Rocco.
[4] Tenho por referências o ensaio “As grandes cidades e a vida do espírito” (1903), de Georg Simmel, publicado em outubro de 2005 pela Revista Mana, e os ensaios “Experiência e Pobreza” (1933) e “O narrador” (1936), de Walter Benjamin, presentes na obra “Magia, técnica, arte e política: ensaios sobre literatura e história da cultura”, publicada pela Editora Brasiliense em 1985.

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