segunda-feira, 2 de setembro de 2019

Não podemos nos conformar!

Ensaio
Por Gleydson Góes, militante do PSOL do Cabo de Santo Agostinho/PE e ex-candidato a prefeito da mesma cidade em 2016.



Se colocamos água num recipiente redondo e a congelamos, que forma terá o cubo de gelo? Sim! Redonda! Se por outro lado, o recipiente for triangular, achatado ou quadrado, que forma terão os cubos de gelo? Evidentemente o formato da “fôrma”.
Um lindo poema de Marina Colasanti incia com as linhas: “Eu sei que a gente se acostuma, mas não devia...”, e segue mostrando como nos Conformamos com coisas absurdas que tiram o sentido da vida, mas que o fazemos para tentar sofrer menos.
Hoje mais cedo algumas pessoas me mostraram no telefone fotos de dois homens assassinados brutalmente em nosso município. Como uma reação natural, exclamei: “Meu Deus, quanta barbárie! Tem misericórdia desse povo”. Ouvi uma resposta que me levou à reflexão que iniciou essa postagem: nos conformamos.
A violência é tão presente e banalizada, e suas causas pouco compreendidas pela sociedade, que acabamos nos conformando! Isso mesmo: adquirimos a forma da violência quando dizemos que “morreu porque procurou”, como se alguém fosse idiota o suficiente para “procurar”, deliberadamente, uma morte violenta e precoce.
Essa mentalidade tem explicação: o estado de Pernambuco é politica e economicamente controlado, majoritariamente, por usineiros, os antigos coronéis e senhores de engenho. Nunca tivemos acesso de forma universal à educação e ao ensino técnico e superior, se não àquela quantidade de vagas necessárias para fazer rodar as empresas dos “donos do estado”.
Temos, em nosso inconsciente coletivo um “medo velado” das sombras dos brutais senhores de engenhos, que em tempos passados, aqui em nossa terra, matavam de forma sanguinolenta os empregados e escravos que cometessem a menor das falhas, e depois, jogavam em buracos para incineração.
A violência que nos amedronta, contamina e nos conforma tem outras origens que não as de nosso povo. Vem de outras castas sociais e se nutre de mecanismos de exclusão do cidadão comum dos espaços de poder e tomada de decisão. Esse é o motivo pelo qual, por exemplo, um e outro pequeno burguês queira Gleydson Góes fora do PSOL, pois na cabeça deles meu lugar seria no buraco dos senhores de engenho, ou estirado no chão em virtude do tráfico.
Todos os argumentos que tentam justificar nossa expulsão do partido são cínicas como nossa elite, assim como também o são os argumentos que até o povo compartilha (as narrativas) para justificativa dessa violência. Não podemos nos conformar. Essa violência não nos pertence.
A cidade, sim, nos pertence! É por isso que eu defendo a tese de que cidadãos comuns venham para a política e interfiram no curso da sociedade como um todo, pois é lá nos espaços de decisão e poder que conseguimos fazer isso.
A você que acha que alguém merece morrer porque se envolveu com algo de errado: lembre-se que Cristo padeceu na cruz do calvário para que as cenas de barbárie pelas quais passou e foi submetido não mais ocorram em nossas sociedades. Ele deixou um manual que hipocritamente fingimos seguir, mas que ainda estamos longes do ideal.
A violência vira paz e bonança quando nos levantamos contra a corrupção, por investimentos em formação profissional, na proteção da primeira infância, da adolescência e juventude. A violência vira vaga memória de um passado que vamos superar quando damos as mãos em busca de soluções, em vez de armarmos nossos espíritos uns contra os outros.

O Estado policial, genocida e de exceção no Brasil



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