segunda-feira, 29 de julho de 2019

Evangélicos x Esquerda

Ensaio
Por Armando Coelho Neto, que é delegado aposentado da Polícia Federal e jornalista.



Título completo: Evangélicos x Esquerda – Os demônios descem do norte.

Os templos evangélicos nas periferias, favelas e rincões do país afora, por serem tantos, já concorrem com botequins. Exageros à parte, devido a acidez desse texto contra o lado podre religioso, é imprescindível preservar a imagem de missionários bem-intencionados. Destacar o papel na reinserção social de presos e dependentes químicos ou mesmo lembrá-los controvertidos “prontos socorros de Jesus” – abertos durante a madrugada para acolher desesperados. Quem acolheria psicológica e espiritualmente essa gente naquelas circunstâncias? Ressalva feita…
Jogo sujo. Em 17 de dezembro de 2016 conversei com uma pessoa muito próxima ao tucanato. Lembro da data por ser festa de aniversário de minha formatura em Direito. Lá pras tantas, a conversa resvalou para a política e meu interlocutor disse: “Não temos a menor preocupação com Lula. Este, a gente tira de cena na hora que a gente quiser. Nossa preocupação é a união em curso entre Bozo e os evangélicos”. O tucano não usou a palavra Bozo. Mas minha mãe me ensinou a não tratar satanás pelo nome para não atrair maus fluidos.
A temida união aconteceu. Bozo era e é o candidato do golpe, mas a mídia entreguista pensou que ridicularizando o Coiso e demonizando Lula elegeria um tucano. Todavia, na eleição fraudulenta (não necessariamente por contagem de votos, mas no processo em si), Bozo sagrou-se vitorioso. Sobre isso, publiquei no GGN acerca do papel dos evangélicos, lembrando que o IBGE projetou para 2018 um total de 38,6 milhões de eleitores evangélicos. Já a pesquisa do Datafolha atestou ou sugeriu que certamente metade dos evangélicos votaria no Bozo. Ou seja, mais de 19 milhões de votos. Abertas as urnas, com apoio dos evangélicos, o Coiso “venceu” formalmente Haddad por 11 milhões de votos.
Volto ao assunto por ter em mãos a obra Os demônios descem do norte, escrito por Decio Monteiro de Lima (Livraria Francisco Alves Editora S/A, 1991), que já à época trazia preocupante informação: “Só em São Paulo existe um prédio, o mesmo que abriga o Missionary Information Bureau… quase inteiramente ocupado por sedes de organizações americanas que se dedicam a ...ampla ofensiva politico-partidária”. O Brasil já contava naqueles tempos com 59 grupos transconfessionais dos Estados Unidos. Ele cita grupos nacionais com o equivalente americano.
A obra detalhista revela que “todas as transconfessionais americanas estabelecidas no Brasil adotam a mesma estratégia marcada por assistencialismo, proselitismo de viés conservador, sentimento anticomunista, tendo os Estados Unidos como maior referência. As populações mais carentes são os alvos, e sequer as comunidades indígenas escapam. Com dados da época, revela-se que 25 agências religiosas protestantes se dedicavam à conversão de índios. O movimento religioso teria ou tem por trás não apenas grandes empresas internacionais, mas também agências de espionagem.
No caso da população indígena, a meta essencial seria introjetar valores inerentes ao american way of life, com reflexos 'conturbadores da ordem tribal'”. Pelo menos na área indígena, uma organização religiosa fundamentalista de nome “Instituto Linguístico Verão” teve papel importante. Segundo o autor, tal entidade com sede na Califórnia (EUA) teve problemas com os governos do Peru, México, Colômbia e Venezuela entre outros, acusada de adulterar textos bíblicos para facilitar a dominação ideológica e econômica, bem como de cooperar com militares na repressão às guerrilhas naqueles países.
O Instituto Verão teria experiência na tradução da Bíblia para centenas de línguas e dialetos, em mais de 40 países, desde 1934. Com base em Brasília, contando com uma frota de aviões e missionários profissionais no Brasil, é fácil o deslocamento até para áreas remotas. Para o autor, a presença de biólogos, geólogos, engenheiros, topógrafos e outros técnicos em áreas indígenas sugerem interesses estranhos, numa região rica fronteiriça com Colômbia, Venezuela, etc. Parte das terras, diz o autor, já compradas por multinacionais.
Em Os demônios descem do norte, Delcio Monteiro de Lima enfatiza o papel do fundamentalismo religioso não apenas em áreas indígenas, mas também e sobretudo em áreas carentes. Com foco na política e na economia, grupos evangélicos teriam financiamento externo, capazes de manter unidades educacionais primárias, secundárias, superiores, além de editoras de livros, jornais. Com capital de grande porte, controla hospitais, clínicas, mantém lanchas, aviões, etc. Como contribuição pessoal, ouso registrar a presença dos evangélicos em rádios e televisões, inclusive comunitárias, além daquelas que a PF chama de “piratas”.
O autor ressalva o papel dos missionários íntegros, mas repudia grupos fundamentalistas vindos dos Estados Unidos que confundem cristianismo com americanismo, muitos dos quais sem que se saiba quem os financia. E aqui, tomo a liberdade de falar dos templos faraônicos, em cujos topos posam helicópteros, e engravatados já foram vistos saindo com malas que se presumem conter dinheiro.
O teor da obra provoca revolta, espanta pessimistas, mas abre caminho para realistas. De há muito, interesses estranhos infiltrados em missões religiosas se consolidam no país. Há um casamento entre o governo do golpe e os geólogos e biólogos em solos que escondem de ouro a nióbio. É como se tivesse chegado a hora de recuperar o investimento feito. A obsessão do Bozo em entregar o Brasil soa como amarração de pontas. E o beijo na bandeira americana pode ter sido o sinal de que efetivamente os demônios descem do norte.
Os pleitos eleitorais do ano passado deixam claro o desafio da esquerda satanizada na batalha eleitoral. A direita sempre deteve o capital, as armas, o controle ideológico das instituições. Se tem a grande mídia e um contingente religioso absolutamente manipulável, por que estaria a perder eleições?
O sentimento antipetista está consolidado, e nem as revelações do The Intercept são capazes de abalar o curso das coisas, a escalada fascista. O destino político do Brasil pode depender de um percentual de evangélicos que é voto de cabresto. Nessa condição de fiel da balança, está claro o desafio dos partidos de esquerda. Para a esquerda está um pouco tarde, mas talvez ainda valha a pena começar criando prontos socorros de Jesus, ou quem sabe...



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