segunda-feira, 8 de julho de 2019

Cartas de Londres (2): Livros que sumiram do metrô de Londres

Ensaio
Título completo: Cartas de Londres (2)  Livros que sumiram do metrô de Londres, redes sociais e aceleração do tempo histórico com a revolução tecnológica e a Internet.

Por Roberio Paulino, professor do Departamento de Políticas Públicas da Universidade Federal do Rio Grande do Norte (UFRN). No momento, realiza estágio pós-doutoral na SOAS University of London. Fundador do PSOL, candidato a governador do RN e a prefeito de Natal em 2012, 2014 e 2016.

Metrô de Londres

Nas minhas idas diárias de metrô até o centro de Londres para meu trabalho de pesquisa na universidade que me recebe neste primeiro semestre de 2019, observo atenta e discretamente as pessoas, suas atitudes, seus costumes. Antes de vir para cá pela primeira vez, durante boa parte de minha vida escutei que em um país culto como a Inglaterra as pessoas iam e voltavam do trabalho lendo livros no metrô e nos ônibus. Era isso que esperava encontrar aqui. Que nada. Contei e contei muitas vezes e, numa média, percebi que hoje, aqui também, de cada 10 passageiros, entre 7 e 8 estão ligados em seus smartphones, até certo ponto alheios ao entorno, trocando mensagens com alguém do outro lado, lendo ou escutando notícias, vídeos, músicas. Alguns poucos leem esses jornais tabloides sensacionalistas de notícias, distribuídos gratuitamente na porta das estações, aqui muito comuns. Quero nesta carta dizer por que considero a Internet e as redes sociais uma pequena revolução, apesar de tudo que vemos também de negativo nelas.
Vi, no bairro onde estou morando temporariamente, Harlesden, um reduto de imigrantes humildes, indianos, árabes, asiáticos do leste, africanos, e muitos brasileiros, coisas aparentemente mais contraditórias. Aqui tem de tudo, lojinhas e mercadinhos com produtos de todo o mundo, gente falando tudo que é língua. Muitas mulheres muçulmanas – e aqui existem muitas –, com seus véus ou hijabs, ativas e alegres falando em seus celulares nas suas línguas de origem, no que pode parecer um paradoxo. O centrinho comercial do bairro parece uma pequena 25 de março, em São Paulo, só que também com mercadinhos e lojas de produtos e fastfoods de tudo quanto é lugar do mundo, frutas vendidas nas calçadas, casas de jogos, com gente de tudo que é nacionalidade. Um pequeno mercado de Istambul. Como professor, fiz questão de procurar e visitar a escola infantil do bairro e percebi que mais de 2/3 das crianças são filhos de imigrantes, mas já inglesas.
Londres é uma cidade de fato mundial, com gente de todas as cores, raças, religiões, línguas, em todas as esquinas, especialmente na periferia. Tirando a barreira da língua, torna-se muito parecida com todas as grandes cidades do mundo e do Brasil. Do que vi no metrô e no bairro, pensei comigo: como o mundo moderno está ficando cada vez mais igual, menor, interligado. Apesar do conservadorismo, de toda a xenofobia, do fundamentalismo de direita, do racismo que vemos no continente e no mundo, com a globalização o caldeirão humano se mistura cada vez mais. E isso é bom. Fico pensando em como tudo tem mudado tão rapidamente desde que acordei para a vida consciente.
Mas vamos voltar aos celulares e às redes sociais. Mesmo na Europa, um ser humano do ano 1750, pela forma como se comunicava e se locomovia, em veículos puxados por animais e barcos a vela, estava tecnologicamente muito mais próximo de um habitante do Império Romano do que do seu neto em 1850, tamanha foi a transformação iniciada pela Revolução Industrial, que ligou um botão, iniciou um frenético e pela primeira vez ininterrupto processo de transformação tecnológica que mudou a face do mundo em tão pouco tempo. Quando Abraham Lincoln morreu nos EUA em 1865, passaram-se 13 dias para a notícia chegar à Europa e possivelmente muito mais até o Brasil, pois as informações viajavam na velocidade dos veleiros que cruzavam os mares, e não havia ainda cabos submarinos. Os navios a vapor estavam apenas engatinhando.
Hoje, com centenas de cabos de comunicação estendidos nos leitos dos oceanos e 5000 satélites girando aí em cima, se acontecer agora um terremoto no Japão ou na Bolsa de Londres, em 13 minutos todo o mundo ficará sabendo. Depois que o primeiro avião atingiu uma das Torres Gêmeas em Nova Iorque, ainda em 2001, boa parte dos seres humanos, informados do atentado em questão de minutos, correu para frente das TVs em suas casas, escritórios ou lojas e viu o segundo avião bater na outra torre ou visualizou em tempo real o desabamento daqueles prédios. Por vezes, não nos damos conta de como tudo muda cada vez mais rápido.
O fato é que mundo é cada vez mais um só, integrado, uma Aldeia Global, termo criado pelo filósofo canadense Herbert McLuhan na década de 1960, que tinha como objetivo sugerir que as novas tecnologias eletrônicas e o progresso tecnológico tendiam a encurtar distâncias e reduzir todo o planeta a uma mesma comunidade, um único mundo, onde todos estariam, de certa forma, interligados com todos. O cientista social espanhol Manuel Castells, ao final da década dos anos 90, já no início da Internet para todos, também disse que temos hoje uma Sociedade em Rede. Quais têm sido e serão no médio prazo as consequências estruturais na sociedade humana e nas mentes de toda essa vertiginosa mudança?
O escritor inglês Aldous Huxley, impressionado com todas as transformações que via ainda no início do século XX, escreveu em 1931 o seu famoso livro Admirável Mundo Novo, que li há quase 40 anos, ainda muito jovem, impactado. Apesar de tratar de outros assuntos, dos avanços que observava na área da genética, que via como um perigo, com pessoas nascendo de forma programada em provetas, o título de seu livro indicava uma ironia, uma crítica, mas, ao mesmo tempo, toda a estupefação gerada com a velocidade e as possibilidades de mudança. Vendo esse turbilhão de mudanças tecnológicas, que acelera também os processos físicos, socais, históricos, que dá ao ser humano um imenso poder e ao mesmo tempo encurta o tempo de tudo, que nos exige cada vez mais, nos enche de informações até o cérebro não suportar, que a tudo liquefaz, desfaz, como disse o pensador Zygmunt Bauman, fico imaginando, sonhando, aonde iremos como espécie neste novo milênio, se não nos destruirmos antes? Aonde acabará tudo isso? Até onde irá a humanidade? Pena que nossa vida seja tão curta e não possamos acompanhar a saga humana pelos próximos séculos.
A comunicação em tempo real por aparelhos eletrônicos através da Internet e das redes sociais virou uma febre, uma tentação difícil de resistir, incorporada ao modo de vida e trabalho diário, e que está alterando o próprio ethos humano, afastando, mas, ao mesmo tempo, contraditoriamente, aproximando as pessoas. Também acelera todos os processos produtivos e sociais. As empresas de todo porte as usam em todos os seus processos intrafirmas. Aparentemente, conversamos cada vez menos com quem está próximo, mas, ao mesmo tempo, nos ligamos cada vez mais com mais pessoas, com quem está longe ou em fontes de informação que selecionamos, através das redes sociais e aplicativos.
Há apenas 30 anos, os únicos que portavam um equipamento de comunicação portátil eram alguns soldados ou técnicos de empresas, com um aparelho pesando alguns quilogramas e uma antena imensa. Lembremos que o rádio em massa e a TV chegaram no mundo e ao Brasil há apenas 60 ou 70 anos. Os primeiros computadores pessoais para o cidadão comum, que hoje parecem coisas de museu, e a Internet para grandes massas das pessoas, só existem de meros de 25 anos para cá. Quando surgiram, há apenas 20 anos, os celulares mais antigos só faziam ligações para outros aparelhos, pesavam quase 1kg, não tinham acesso à Internet, além de serem caríssimos para a maioria.
Os celulares e smartphones tem apenas 10 anos – já estamos tão acostumados com eles que às vezes esquecemos disso –, mas hoje já existem 6 bilhões deles, uma vertigem, até mesmo na mais isolada aldeia africana, na Sibéria ou na selva amazônica. Quase todas as empresas e grande parte das residências já têm um aparelho de Internet sem fio. Tais aparelhos e os computadores vêm mudando consideravelmente o modo de vida humano. Com eles, a mais simples das pessoas pode hoje acessar um site ou conversar instantaneamente com a família ou amigos do outro lado da cidade, do país ou do mundo a qualquer hora, fazer compras em lojas, operar sua conta bancária, monitorar sua casa ou seu filho na escola, receber imagens ou ver filmes, fazer reuniões eletrônicas com pessoas que estão há milhares de quilômetros etc. Um poder considerável, se bem usado. E tudo em tão pouco tempo. Que diferença do tempo em que se esperava meses por uma carta para saber notícias, há apenas meio século, quando o tempo demorava a passar. Hoje é o cérebro que mal consegue acompanhar o ritmo frenético das coisas. Quais estão sendo e serão as implicações mais profundas dessa mudança para a sociedade humana nas próximas décadas?
Bauman, e especialmente o pensador italiano Humberto Eco, por exemplo, morreram pessimistas com o que viam. Enxergavam em tudo isso, a meu ver, um problema, pois que tais inovações estariam também, segundo eles, liquefazendo os valores positivos que dão coesão à sociedade, o caráter, fragmentando o pensamento mais reflexivo. Há também outros autores que veem um sentido negativo em tudo isso, dizendo que, com o advento da Internet e das redes, estaríamos começando a viver em realidades paralelas, em ambientes apenas virtuais, com o ser humano perdendo sua sensorialidade, seu contato com o mundo real. Outros chegam a afirmar que o caminho das redes sociais é o da imbecilização e massificação da população mundial, que passaria a viver em uma realidade distópica, em telas e mais telas, distante do real.
Tenho cá minhas dúvidas sobre todas essas visões, que considero exageradas. Não deixo de ver esses riscos, mas quero aqui mostrar também o lado progressivo de tudo isso. Confesso que sou um entusiasta da revolução tecnológica, da Internet e das redes sociais. Vejo-as como um processo muito contraditório, sim, mas, ao mesmo tempo, como instrumentos extremamente transformadores, pois estão dando às pessoas comuns um fenomenal poder de comunicação, informação e interação absolutamente inimagináveis para elas há algum tempo. Um poder que um ser humano do ano 1900 ou mesmo 1950, por mais rico ou visionário que fosse, sequer podia sonhar. Por isso os governos ditatoriais, como na China, sabedores desse potencial, monitoram, limitam e censuram as redes sociais, porque as veem também como um grande perigo. Mesmo nos EUA, não nos enganemos, se um dia precisarem, por se se sentirem ameaçados, desligarão o botão da Internet e das redes sociais ou bloquearão metade de seus usuários.
Avalio também que esse processo está de fato quebrando o monopólio da informação na mão dos grandes grupos de comunicação e dos governos. E isso é bom. As maiores fontes de informação continuam nas mãos de grandes empresas capitalistas de comunicação, sem dúvida, que são conservadoras. Mas, por outro lado, jornalistas e cidadãos comuns criam e mantém milhões de sites, páginas e blogs independentes, que vão democratizando a informação em tempo real, quebrando aqueles monopólios. É um processo incompleto, claro, porque muito recente, mas progressivo e em andamento. Não é à toa que muita coisa que vemos hoje nos grandes telejornais já vimos antes em sites e blogs de notícias e nas redes sociais, e aqueles grandes meios já não podem esconder muita coisa. Os grandes telejornais, na maioria das vezes, veiculam notícias já atrasados em relação às redes.
Bilhões de pessoas seguem páginas, sites, ou estão em grupos de discussão, interagindo, se informando, recebendo mensagens e notícias dos amigos quase em tempo real, lendo mais, pensando mais, tomando contato com versões opostas, com o contraditório, sobre os distintos assuntos. Um turbilhão, que arrasta a todos para dentro, sobre todos os assuntos. E isso faz avançar o pensamento, suponho. Um único fato importante é compartilhado milhões de vezes em todo país e mesmo no mundo em questão de poucas horas. Lembremos que o conservadorismo, o obscurantismo, sempre se apoiaram na escuridão, nas trevas, na ignorância das pessoas, na desinformação. E a informação cria luz, ilumina.
Hoje uma simples criança pode pesquisar e saber de qualquer assunto nos mecanismos de busca. Cegonhas já eram. Os computadores, celulares, sites e as redes sociais tem dado às pessoas a oportunidade de fugir do pensamento único, de potencialmente saberem sobre tudo, se quiserem. Os retrocessos temporários no pensamento das massas que vemos nos países e nas redes não são culpa dessas tecnologias em si, mas decorrentes de outros fatores, como nosso passado de incultura e ignorância, que não conseguimos superar, da publicidade massificante das grandes empresas, cujos únicos valores são o consumo e a aparência, e da confusão política criada pelas atitudes erradas das lideranças e grupos políticos.
Humberto Eco, a quem muito admiro e que nos deixou há poucos anos, chegou a dizer que as redes sociais deram voz a uma multidão de imbecis, sugerindo, pelo que se pode entender, que são um problema. Prefiro ver de outra forma. É obvio que há muita coisa de ruim nas redes, ideias equivocadas, ódio, fundamentalismo conservador, mentiras, maldade, insultos de toda ordem, banalidade. Mas as ideias conservadoras e maléficas não são criadas pelas redes sociais nem como decorrência delas. Máquinas não criam ideias. Isso tudo que vemos surgir de errado nas redes sociais hoje, o conservadorismo, o ódio, o obscurantismo, a xenofobia, o racismo, as fake news, a futilidade, já existiam, estavam aí; as redes apenas destaparam o lado mais obscuro da mente humana, ampliando sua difusão. Mas, por outro lado, a tecnologia e as redes também nos dão a oportunidade de enfrentar essas ideias equivocadas, de fazer o contraponto, e de chegar a milhões instantaneamente, o que antes era impossível. A questão é que os setores de direita também tem sabido usar muito bem esses mecanismos, às vezes bem melhor que as esquerdas ou os movimentos progressistas.
Além disso, a proliferação de ideias conservadoras, o retorno de governos de direita em vários países, não são explicados pelo advento da Internet e das redes sociais, mas em grande medida pela decepção dos povos com governos de esquerda ou com aqueles de que esperavam que fossem de fato progressistas, mas que frustraram suas expectativas, levando as pessoas a castigarem-nos, elegendo seus adversários conservadores mais duros. Contra a esquerda pesa também até hoje, em todo mundo, o véu pesado do colapso das experiências socialistas no Leste Europeu, o que dá um argumento poderosíssimo ao conservadorismo, assunto que a esquerda ainda não enfrentou ou se nega a passar a limpo.
O que explica o rebaixamento da cultura hoje, o conteúdo banal das músicas que exercem fascínio sobre milhões, a superficialidade, a imensa confusão, a corrosão do caráter, o desinteresse de grande parte da juventude pela política, que vemos também nas redes, não é seu advento em si, mas a deficiência de nossa educação, a moral consumista e imediatista do capitalismo já em decadência, a desilusão com a política e também o imenso desgaste da ideia de uma sociedade alternativa ao capitalismo, para lembrar nosso velho Raul Seixas, com a consequente erosão dos valores sobre os quais ela se assenta, criado em parte pelas frustrações com as experiências que se propunham superiores.
O que levou Trump ao governo nos EUA foi de certa forma a decepção e o voto de muitos setores da população norte-americana, inclusive de trabalhadores negros e da juventude pobre, com Obama. Toda expectativa com seu governo foi em grande medida frustrada. O que dá força ao conservadorismo no Brasil de hoje não são as redes sociais, mas a frustração de grande parte da população com os governos de esquerda recentes. Enquanto as esquerdas e movimentos progressistas não passarem tudo isso a limpo e não souberem reconhecer-se de forma autocrítica perante as populações, ficará mais difícil virar o jogo. Não basta a esquerda criticar o erro dos eleitores de direita se não sabe reconhecer os seus próprios. Novamente, portanto, devemos perceber que o problema não são a comunicação cada vez mais rápida e as redes sociais, mas o que se comunica nelas.
Evidentemente, não nego, que o vício das redes sociais são um grande risco à fragmentação do pensamento, para nos afastar de uma atitude mais reflexiva e profunda, da leitura paciente e compreensiva de um bom livro ou texto. Esse é um perigo maior, por exemplo, para as crianças, que não querem desgrudar dos jogos nos tablets. Quem tem filhos sabe do que falo. Mas o pensamento pouco reflexivo e tendente a esse vício também não é culpa das redes sociais e da tecnologia, mas de uma educação que não imponha regras.
Esse risco se resolve de outra forma, com disciplina, horários determinados para cada coisa em nossa vida, tempo certo para o trabalho, para o estudo e a leitura, para o lazer, atividade física, necessidade de informação etc., reduzindo a exposição ao vício das redes sociais. Muitas escolas obrigam os alunos a colocarem de lado os celulares na entrada da escola ou da sala de aula. Pais estabelecem horários para cada coisa às crianças. Como vemos, mais uma vez, o problema não são as redes, mas sim como nós planejamos e o que fazemos com nosso tempo. Talvez os ingleses já não leiam livros no metrô de Londres porque podem ter concluído que é melhor ler em casa com calma do que no balanço dos trens, sendo mais eficaz aproveitar o tempo de viagem para se informar e comunicar, o que também é uma necessidade. Ou porque avaliem que podem aprender tantas coisas no que leem nas redes quanto nos livros.
A luta por uma sociedade melhor, baseada em outros valores como solidariedade social, igualdade, justiça, paz, segurança, com o que muitos de nós sonhamos, não será decidida pelas redes sociais, mas pelas ideias que propagamos nelas e especialmente pelas lutas sociais, se soubermos conquistar as mentes humanas para a melhor alternativa. A Internet e as redes sociais são, nesse sentido, apenas ferramentas poderosíssimas de informação, de acesso a muitas pessoas, de esclarecimento e empoderamento social, de integração, se soubermos usá-las a serviço das ideias e fins corretos. Hoje cada um de nós pode falar com 100, 200 ou milhares de vezes mais pessoas em um único dia do que falávamos há apenas 15 anos.
O problema é que tudo ainda é muito recente e não acontece no ritmo que queremos, apesar de as coisas mudarem cada vez mais rapidamente. Além disso, os donos dessas grandes redes sociais tentam limitar cada vez mais o alcance das publicações. Governos censuram as redes. Também há uma guerra de versões entre os opostos políticos. Mas, com a revolução tecnológica, a Internet e as redes sociais, inexoravelmente o tempo histórico de tudo se acelera, ao contrário do que avaliam os mais pessimistas. As experiências com ideias e governos, por exemplo, serão feitas cada vez mais rapidamente. O desgaste do novo governo no Brasil, com apenas poucos meses, é um exemplo da aceleração dos processos em que as redes sociais contribuem e muito. A atual guerra nas redes politiza o país e não deixa quase ninguém de fora, envolve a quase todos. O desfecho de para onde irão os países e a humanidade, se para o bem ou para o mal, para uma sociedade melhor ou de volta para a barbárie, risco que não está afastado, não será decidido pela existência em si das redes sociais. O resultado de tudo isso está em aberto. Vai depender antes de tudo das ideias que nelas propagamos, de ousadia e das lutas sociais.
Obviamente, esta profunda transformação tecnológica e do modo de vida ocorre dentro do sistema da capital, que de tudo se apropria para obter lucro. As empresas produtoras de smartphones e computadores não os produzem para o bem das pessoas e da sociedade, mas para seus ganhos. Microsoft, Facebook e outras gigantes da informática são empresas capitalistas. Paralelamente a toda essa transformação tecnológica, com o capitalismo em seu regresso ao liberalismo mais radical, há também um processo de rápida reconcentração de renda e riqueza no mundo, com uma volta do crescimento da pobreza, inclusive nos países centrais. Mesmo as classes médias dos EUA e da Europa estão descendo a ladeira rapidamente em sua renda real e seu nível de vida. Eu nunca esperava encontrar tantos mendigos como vi aqui em Londres.
Não é este sistema que estou defendendo. Pelo contrário, somos muito críticos e lutamos contra isso. Do que falo aqui é que por dentro de todo esse sistema social avassalador, desse turbilhão estonteante, há também elementos extremamente contraditórios e progressivos que podem ser aproveitados. Em minha modesta opinião, a Revolução Tecnológica e das comunicações, com a informação sobre quase tudo em tempo real, os mecanismos de busca e as redes sociais, é um deles. Elas estão ajudando a dissolver o velho mundo e seus pilares. O que vemos de ruim hoje são antes de tudo reações conservadoras a esse movimento, como foi a Inquisição em seu momento. Mas o mundo seguiu em frente. Para que lado iremos, dependerá de nós.
Os seres humanos que sofreram ou perderam a vida na Idade das Trevas, na Inquisição, nos campos nazistas ou em ditaduras sanguinárias viveram em momentos muito mais difíceis e piores que o tempo histórico que nos corresponde viver. Mesmo assim, a humanidade terminou por superar aqueles tempos obscuros e de sofrimento, achando uma saída. Com todas as contradições e confusões que ainda vemos hoje, devemos acreditar que a inteligência, a capacidade de reflexão e a bondade humanas poderão superar nosso lado bárbaro, o ódio e a irracionalidade, abandonando as ideias e sistemas sociais que geram desigualdade e sofrimento, e achar um caminho certo. Já fizemos isso outras vezes. O caldeirão humano está cozinhando. Mesmo sabendo de todas as suas limitações e contradições, especificamente no que toca à Revolução Tecnológica, à Internet e às redes sociais, damos boas-vindas à nossa Aldeia Global, à Sociedade em Rede, a esse Admirável Mundo Novo.

Londres, 27 de abril de 2019.

Um dos bairros da periferia de Londres

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