terça-feira, 19 de fevereiro de 2019

Trotsky na Netflix (2)

Crítica
Por Jefferson Lopes, mestre em História pela UFCG.



Nesta segunda parte, tive que escolher alguns dentre os vários equívocos, mentiras e falsificação contidas na série Trotsky para refutar aqui. No segundo episódio da série, há uma cena que me chamou atenção. A que retrata a entrada de Trotsky no movimento operário russo em meados, segundo a série, de 1902, quando Trotsky conheceu Alexander Parvus, que, segundo o enredo, foi seu fiador para a entrada no movimento operário russo. Bom, sabemos que este exerceu uma influência muito grande sobre Trotsky, sobretudo na concepção da revolução permanente. No entanto, a influência para por aí, pois Parvus não foi o fiador político de Trotsky no partido da socialdemocracia russa.

Paralelamente ao conhecimento entre Parvus e Trotsky, o enredo da série mostra o primeiro como um mafioso com negócios obscuros com a monarquia alemã, e que transitava no movimento socialista russo tranquilamente, mesmo com a ciência de Trotsky e Lênin sobre tais negócios obscuros. Isso, porém, não passa de uma mentira mal contada da série, pois naquele momento ninguém sabia da vida política paralela de Parvus. Entre 1902 e 1916, era consenso que ele era um militante socialista devotado à causa operária. Só no ano de 1916 é que ele fica sendo conhecido como um milionário comerciante, e que na conjuntura de 1917 apoia o governo de Kerenski contra Lênin e o partido bolchevique, ao ponto dele (Parvus) criar a mentira que custou-lhe o exílio em 1917: a acusação que Lênin era um espião a soldo alemão.
Já no terceiro capítulo da série vemos a maior deformação da relação entre Trotsky, Parvus e o movimento socialista na Rússia. Há uma cena em que Parvus se encontra com uma alta figura do Estado alemão e negocia com ele a revolução russa já em 1902! Isso mesmo, leitor, em 1902! A negociata lhe valeria dois bilhões de rublos, caso se ele conseguisse inflamar o movimento socialista a ponto de derrubar o regime czarista. E, com isso, ele acaba encontrando no jovem e brilhante orador Trotsky a figura principal para fomentar a agitação. A cena seguinte mostra a conversa que Parvus vai ter com Trotsky acerca deste apoiar um movimento revolucionário na Rússia. Trotsky fica inquieto e desconfiado da proposta de Parvus, e lhe pergunta qual é a sua real intenção. E ele responde: “dois bilhões de rublos”. Então, Trotsky aceita a oferta!
Esse conjunto de cenas que acabei de descrever é tão grotesco que precisaríamos de muitas laudas para desfazê-las com mais consistência. Tentemos resumir bastante. Essa suposta negociação com o governo alemão para fomentar uma revolução na Rússia não passa de uma mentira, mesmo na conjuntura revolucionária de 1917. Mas o pior é que a série retrata isso já nos idos de 1902! Que não estava posto qualquer perspectiva objetiva de queda para o império czarista, uma vez que o mesmo se encontrava com muito vigor. E isso não estava nem nas expectativas mais otimistas da intelectualidade marxista russa, e mesmo mundial, uma vez que a preocupação maior desta intelectualidade era a de se inserir de fato nas camadas subalternas sem ser reprimida pelo aparelho de Estado czarista. Não havia nem a possibilidade de se sonhar com uma revolução já nesta data!
Outro elemento grave da série é a oferta que Trotsky aceitou para agitar o movimento operário russo. A série, de forma cretina, quer passar a ideia criminosa aos telespectadores menos atentos de que a revolução que ocorreu em 1917 foi motivada por dinheiro, e que Trotsky foi o seu principal agente financeiro e agitador político. Nada sobre princípios político-ideológicos libertários e a luta do jugo do capitalismo.
Quando a série volta à temporalidade de onde Trotsky estava, quando relembrava os fatos, ou seja, no exílio do México, ela também produz vários desserviços. O primeiro é mostrar que Trotsky tinha pesadelos acerca de seu passado. Entre o turbilhão de pesadelos que Trotsky possuía, um me chamou a atenção. Para emplacar a tese de que o co-líder era movido por egoísmo e mesquinhez, deparamo-nos com o seu amigo marinheiro. Este era um grande admirador de Trotsky, ao ponto de cultivar uma amizade com a família de Leon. O problema é que este marinheiro, segundo o enredo, cultiva uma bela amizade com a esposa de Trotsky, Natália Sedova. Isto supostamente estaria causando ciúmes no revolucionário russo. Como forma de vingança, Trotsky o teria designado em uma missão mortal, ou seja, a série defende a ideia de que Trotsky deliberou a morte do marinheiro por causa de um ciúme doentil. Não há nenhum registro deste fato em nenhuma biografia de Trotsky.
Voltando à questão do movimento revolucionário na Rússia, a série começa a mostrar uma manifestação das mulheres ocorrida em março de 1917, o que fez que o czar fosse derrubado. A partir daí, a série mostra como o partido bolchevique começa a se inserir na conjuntura de forma oportunista. Para a série, os bolcheviques entraram em cena para instrumentalizar o movimento operário, como mostra um dialogo entre Trotsky e Lênin, onde o vocabulário utilizado por Lênin nas conversas com os camaradas de partido contém sempre a palavra “usar” para se referir ao povo. Ou seja, para dar a entender que Lênin e Trotsky usaram o povo para as vontades pessoais e também do partido, já que para a obra em tela estamos diante de um bando de trapaceiros e gangsters.
O processo revolucionário que teve início com a derrubada do czar em março, e que vai até novembro de 1917, com os bolcheviques com o papel dirigente da revolução socialista, é tratado como um golpe militar comandado por Trotsky, que arquitetou a tomada de poder que descansava nas mãos de Kerensky. Essa tese esdrúxula não é uma invenção desta obra, mas de uma historiografia da Guerra Fria ligada a um intelctual chamado Richard Pipes, um anticomunista ardoroso que era financiado pelo departamento de Estado dos Estados Unidos para propagar essas ideias. Mas, o que o enredo da série trouxe de novidade neste quesito? Foi o fato patético de um suposto diálogo entre Lênin e Trotsky após o evento, em que Lênin rechaça Trotsky, acusando-o de golpista, pois, segundo a série, Lênin admitiu que foi um golpe. E Lênin só teria aceitado o golpe porque Trotsky em uma palestra para os correligionários do partido deu os créditos da liderança a Lênin e se auto-secundarizou.
Sobre os papéis de Lênin e Trotsky na Revolução, não há dúvidas de que Lênin teve o papel de maior destaque. Mas a série, que pretendeu se ater à fidelidade histórica, resolveu inovar colocando Trotsky acima de Lênin neste magnífico evento que mudou o mundo durante todo século XX.
Dois comentários sobre o que acabamos de evidenciar. Ao contrário de muitos historiadores de direita e da vulgarização extrema desta tese, Outubro (novembro no calendário ocidental) não foi um golpe, mas uma revolução emanada pelos “de baixo” (operários e camponeses), que enxergaram nas propostas de “paz, pão e terra” proferidas pelo líder dos bolcheviques, Lênin, uma saída para a situação dramática em que se encontravam e que impactou fortemente os sentimentos de milhões de operários e camponeses em toda a gigante Rússia, e fez com que o partido crescesse de forma assustadora, passando de um partido minúsculo em fevereiro para um grande partido em agosto de 1917. Mas para desmontar qualquer argumento de que os bolcheviques deram um golpe, basta lembrar do Congresso de todos os sovietes da Rússia, pois a principal pauta sobre a transferência do poder aos sovietes, já que havia uma dualidade de poderes entre sovietes e Governo Provisório. Então, ganhou a proposta de transferência de poder aos sovietes com uma margem de mais de 80%. Assim, a tomada de poder pelos bolcheviques teve todo o apoio do povo, seja dos campos ou das cidades.
Ainda na linhagem de demonstrar a tese de golpe dos bolcheviques capitaneado por Trotsky, temos a cena que vai frustrar Trotsky. Ele vai dar um comício na expectativa de ter como audiência dezenas de milhares de pessoas. Quando chega a hora, não há ninguém, como se não houvesse aderência popular. Mas, ao contrário do que quer passar o enredo, além da participação das massas populares na Revolução, havia uma ampla participação da população nos comícios, eventos e nas festividades comemorativas daquela data. Além da participação do povo nas instâncias de poder (pelo menos antes da guerra civil), e no controle dos meios de produção, que os bolcheviques socializaram em grande parte.
Chegamos ao último ponto que queria destacar das centenas de mentiras e falsificações que esta produção cinematográfica faz com a vida e inserção de Trotsky na Revolução Russa: a guerra civil. A série pouco destaca a agressão estrangeira na Rússia, provocando uma guerra sangrenta que além de ceifar milhões de vidas também destruiu a economia russa, sobrando para os vencedores o árduo trabalho de reconstruir o país em meio à ruína, desespero e fome da população. Mas isso para o enredo da série não importa. O que importa mesmo é demonstrar como os bolcheviques eram violentos, com seus métodos de terror utilizados contra os adversários. A série trata aqueles que invadiram a Rússia para sufocar a vontade de milhões de cidadãos e reempossar a família Romanov como adversários políticos que deveriam ser tratados com suavidade. Eles que empreenderam uma invasão violenta com a coligação de 14 exércitos estrangeiros mais as forças reacionárias internas da Rússia, que também juntaram esforços para derrubar os bolcheviques, além dos partidos de direita e, infelizmente, os de esquerda, como, por exemplo, os mencheviques e os socialistas revolucionários de direita (SR). Foi esse o cenário que o partido bolchevique se deparou e que teve que enfrentar para tentar salvar a revolução. É claro que houve excessos dos bolcheviques em alguns casos. Mas lembre-se que se tratava de uma guerra civil contra todas essas forças e em defesa da jovem república soviética. As desconfianças existiam entre tudo e todos. A série só mostra a violência cometida pelos bolcheviques e assim transforma os oprimidos em opressores.
A Rússia, depois que restaurou a antiga ordem, passou a empreender dentro do seu território (e também fora) uma campanha violenta contra o seu recente passado heroico de lutas que culminou na revolução russa. A burguesia e o governo de Vladimir Putin tentam desmoralizar ao máximo a experiência socialista adotando uma linha narrativa anticomunista das mais rasteiras, mais ainda do que as do tempo da Guerra Fria.
Ainda na década de 1990 houve uma historiografia que ressuscitou os brancos como vítimas da ferocidade vermelha. Outra reabilitação extremamente estranha foi a canonização do monarca czar Nicolau II pela Igreja Católica. A série foi lançada no centenário da revolução, ou seja, em 2017. E isto não passaria impune na narrativa do atual governo. “O Estado não participa na comemoração do centenário, só assiste”, (...) ”A mensagem do Kremlin é que todas as revoluções são ruins, principalmente as financiadas por estrangeiros” [1].
Já o diretor da série não escondeu os reais motivos de tanta difamação e falsificação sobre a história de Trotsky e da revolução russa, uma vez que o seu sentimento frustrado do desenvolvimento do capitalismo na Rússia, que os bolcheviques abortaram, aparece na entrevista que ele deu por telefone à Globo, onde enfatiza que o suposto financiamento da Alemanha para o partido de Lênin foi para deter a Rússia, que “estava se transformando em um país capitalista forte” [2].
Toda esta investida da burguesia russa através dos seus aparelhos privados de hegemonia contra a revolução social ocorrido em 1917 parecia que seria triunfante nos primeiros anos após o colapso daquele regime derivado dos “dez dias que abalaram o mundo”. Ledo engano. Em menos de uma década os dramáticos custos sociais apareceram, e em um passo de “mágica” o povo russo perdeu toda rede proteção que havia no regime soviético, desde pleno emprego à previdência pública, que garantia boa aposentadoria; saúde gratuita e de qualidade, que amparava toda a população; educação também de qualidade e gratuita, que atendia os filhos dos trabalhadores; além do projeto habitacional no qual o regime soviético proporcionava um lar a mais de 99% da população. Ou seja, um estado de bem-estar social antes mesmo do da Europa ocidental.
Após a queda do comunismo na Rússia os indicadores sociais só vem piorando com a restauração do regime capitalista. Basta olhar as tantas pesquisas de opinião pública sobre a percepção acerca do regime soviético: as respostas saudosistas aumentam com o passar dos anos, como indica esta pesquisa:

Aumenta a nostalgia na Rússia pelUnião Soviética. O número de russos que lamentam o colapso da URSS atingiu seu recorde na última década, de acordo com uma pesquisa do Centro Levada. No total, 66% dos cidadãos russos se declaram “arrependidos” da sua dissolução. No ano passado, a mesma pesquisa apontou que 58% sentiam de alguma forma saudade da URSS. Por muitos anos o número não ultrapassou 60%. Sociólogos e analistas apontam que a reforma do sistema de aposentadorias – que eleva a idade de se aposentar – e o medo da instabilidade econômica estão por trás do aumento dos que sentem nostalgia de um sistema que desmoronou há 27 anos [3].

É contra este passado recente que a burguesia russa e o governo de Putin promovem essas peças de propaganda, como a série Trotsky. Para demonizar e desmoralizar o passado heroico da revolução social, com a intervenção destes colossais sujeitos históricos (Lênin, Trotsky e etc.). A burguesia russa neste campo ainda não conseguiu vencer a narrativa, pois o capitalismo, que prometia o céu para a população, entregou o contrário, já que a população russa mergulha nas desgraças das misérias material e moral atuais.



Notas
[3] Jornal El País Brasil, 20 de dezembro de 2018: <https://brasil.elpais.com/brasil/2018/12/19/internacional/1545228653_659406.html>

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