sexta-feira, 8 de fevereiro de 2019

"Não é só futebol"

Ensaio
Por Taiane Alecrim, que é mulher, gonçalense, assistente social, feminista, bolchevique e rubro-negra.



Esta frase vem ganhando repercussão e tem se tornado sentimento em muitos homens, mulheres e crianças.
Crianças. Tá aí. Crianças que hoje, no “Ninho do Urubu”, não puderam acordar.
Eram apenas crianças, que queriam jogar bola.
Não, não eram.
Dentro de uma sociedade de classes, meninos carregam em si, o peso nas costas de um dia, quem sabe, retirar os seus afetos da condição de pauperização imposta por este sistema cruel, excludente e que mata.
Mata crianças.
A ganância do homem, matou mais uma vez.
Um dos maiores e mais modernos Centros de Treinamento da América Latina, amanheceu em chamas e incinerando os sonhos destes jovens e suas famílias.
Com tanto investimento em modernização, o Centro não tinha brigada de incêndio e nem um sistema antichamas?
E mais, se a chuva de dois dias atrás deixou o prédio sem luz e em condições precárias de segurança, o que estas crianças estavam fazendo lá?
O clube não tinha outro espaço para alocá-los?
Ou não poderiam arcar com as custas de um hotel para eles?
Estas crianças estavam afastadas de suas famílias, sob a responsabilidade do Clube de Regatas do Flamengo, com a obrigação de “carregar o mundo nas costas”, com sonhos e esperanças depositados de terem e darem uma vida melhor aos seus.
Hoje não mais, pois suas vidas foram interrompidas. Tudo isso é muito cruel.
Criança deveria ter, somente, a obrigação de brincar e ser feliz.
Não, não é só futebol, estamos falando de vida, da vida dos nosso jovens, que tem sido prematuramente arrancadas em nome de um sistema desumanizador, que só visa a lucratividade.
Como disse, uma vez a Bruna Silva, mãe do menino Marcus Vinícius, assassinado pela polícia militar em operação na Maré: “o Brasil vai se tornar um país de velhos, porque nossos jovens estão sendo mortos, nossas crianças estão morrendo”.
Sim, estão. Estamos falhando muito com a nossa juventude, não garantindo-lhes nem a vida.

Um comentário:

Adicione seu comentário.