quarta-feira, 16 de janeiro de 2019

Rosa versus Lenin?

Ensaio
Por Jefferson Lopes, mestre em História pela UFCG.

Maio de 1968 em Berlim

Lenin escreve O que fazer? (1902) em um ambiente político bastante hostil (ainda vigorava na Rússia uma monarquia feudal, que tinha o Estado mais policial da Europa). A tese do partido de vanguarda como uma organização operária mostra como aquele deve se comportar diante da tarefa revolucionária. Ou seja, Lenin defende um método, ou uma relação, entre o partido e o movimento operário objetivando a elevação da consciência socialista dos trabalhadores. Esta consciência, segundo Lenin, viria de “fora”, através dos seus partidos de vanguarda, disciplinados e de quadros de intelectuais educados na tradição marxista, para “dentro” do movimento operário.
Lenin (1978) não estabelece uma separação ou cisão entre os intelectuais e trabalhadores no interior do partido: “Diante dessa característica comum aos membros de tal organização, deve ser absolutamente eliminada qualquer distinção entre operários e intelectuais e, com maior razão, entre as diversas profissões de uns e de outros” (p.98).
Pois, segundo tal concepção, a classe operária desenvolve sua consciência de classe “para si” através de sua inserção no modo de produção capitalista e suas inevitáveis consequências nefastas de exploração da força de trabalho, aliada à pauperização da vida dos trabalhadores e de suas famílias. Estas condições fazem com que os operários se solidarizem, formem coletivos e saiam em luta por melhores condições de vida e maiores salários, formando sindicatos. Mas, segundo a concepção de Lenin (1978), os trabalhadores nessa situação não conseguiriam alcançar o pensamento revolucionário socialista. Como ele argumenta:

Dissemos que os operários nem sequer podiam ter consciência social-democrata. Esta só podia ser introduzida de fora. A história de todos os países testemunha que a classe operária, exclusivamente com as suas próprias forças, só é capaz de desenvolver uma consciência trade-unionista, quer dizer, a convicção de que é necessário agrupar-se em sindicatos, lutar contra os patrões, exigir do governo essas leis necessárias aos operários, etc. Por seu lado, a doutrina do socialismo nasceu de teorias filosóficas, históricas e econômicas elaboradas por representantes instruídos das classes possidentes, por intelectuais. Os próprios fundadores do socialismo científico moderno, Marx e Engels, pertenciam, pela sua situação social, à intelectualidade burguesa” (p.101).

No entanto, a consciência proletária é a da imediaticidade das lutas cotidianas, que, como vimos, para Lenin, as não geram necessariamente uma consciência revolucionária de classe. Assim, o papel do intelectual organizado no partido e inserido nas lutas contra o capitalismo é de fundamental importância para colaborar na construção de uma consciência política dos trabalhadores.
Ainda, este livro também representou um ataque frontal às tendências economicistas dentro dos partidos social-democratas da Europa, que afirmavam que os movimentos sindicais com suas reivindicações e suas conquistas salariais poderiam elevar as condições de vida dos trabalhadores exatamente na vigência da sociedade capitalista. Essa linha argumentativa foi defendida primeiramente pelo então teórico marxista Edouard Bernstein, que foi militante da social-democracia alemã. Ele defendeu que o movimento socialista não precisava necessariamente romper com o capitalismo, mas, sim, lutar e ganhar cada vez mais direitos nos marcos da democracia liberal.
Para contrapor-se a esse argumento mecânico, Lenin vai defender a tese de que no capitalismo os trabalhadores estão “aprisionados” pela ideologia burguesa e se veem incapazes de pensar para além do mundo em que vivem. E, por isto, o papel da vanguarda é central para que os trabalhadores transcendam a “consciência sindical”, ou seja, as condições subjetivas nas quais estão inseridos.
É bom deixar claro que a vanguarda revolucionária é, para Lenin, a chave principal para a consciência socialista. Mas isso não impede que a classe operária elabore conjuntamente com o partido e seus intelectuais um programa revolucionário socialista. Pois Lenin tinha bastante clareza de que estes intelectuais corriam o risco de se tornar uma seita dogmática, um pequeno grupo, isolado da realidade social do povo, caso não realizasse uma interlocução com a classe trabalhadora nas questões cruciais da vida dos operários.
Lenin, portanto, com suas formulações teóricas a respeito da consciência de classe, se aproxima das formulações de Marx no aspecto de que a classe na dinâmica da luta contra a burguesia vai produzindo uma consciência “para si.” O líder dos bolcheviques introduziu o papel crucial do partido e seus intelectuais na construção de uma consciência socialista que pudesse “quebrar as barreiras” da ideologia burguesa, com o objetivo de atingir a revolução socialista.
As formações de Lenin foram bastante contestadas mesmo no seio da social-democracia europeia, e também pela aliada do líder dos bolcheviques, Rosa Luxemburgo. Ela atacou diametralmente as teses encontradas no livro O que fazer?
No escrito Massa e chefes, de 1903, ela critica a noção da consciência socialista advinda de “fora”, uma vez que “ali se considera massa como uma criança a educar, a qual não é permitido tudo dizer, a qual, [por sua vez, ainda,] em seu próprio interesse, [os chefes] tem o mesmo direito de dissimular a verdade (Luxemburgo, 2005, p.53).
Para a noção de consciência política do movimento operário, Lenin valoriza o papel da vanguarda na formulação da consciência política dos trabalhadores, por via da propaganda. Diferentemente, Rosa vê a “escola” de formação da consciência como a luta das massas contra os patrões, por via de manifestações e greves de massas, que, para ela, é a melhor e mais rápida didática para a classe trabalhadora, e não a propaganda: “Porém, para ser capaz disso, o proletariado necessita de um alto nível de educação política, de consciência de classe e de organização. Essas condições não são conquistadas através de panfletos, mas pela escola viva da política, com luta e na luta” (Luxemburgo, 2005, p.236). Entretanto, isso não faz da teórica polonesa uma defensora intransigente do movimento espontâneo das massas, pois ela rechaçava qualquer voluntarismo. E vê a vanguarda como um acelerador do processo, como indica Michael Löwy:

Ela insiste que o papel da “vanguarda consciente” não é esperar “com fatalismo” que o movimento popular espontâneo “caia do céu”. Ao contrário, seu papel é precisamente “preceder [vorauseilen] a evolução das coisas e tentar acelerá-la”. Ela reconhece que o partido socialista deve tomar “a direção política” da greve de massas, o que consiste em “dar à batalha sua palavra de ordem, sua tendência, assim como a tática da luta política” (Löwy, 2011, p.30).

Outro ataque que Rosa faz aos escritos de Lenin acerca da organização e da consciência operárias, está na separação entre a luta política e a luta econômica. Ela faz apontamentos críticos a esta separação em seu texto Greve de massa, partido e sindicatos, de 1906. Impactada pela revolução russa de 1905 – na qual os camponeses e trabalhadores urbanos marcharam juntos reivindicando melhores condições de vida (pautas econômicas) – ela percebeu a brutal repressão e buscou tirar lições. Em tal revolução, as greves foram ganhando ares políticos, até culminar em concessões por parte do Czar Alexandre II.
Ela polemiza mais uma vez com o líder da revolução de Outubro. Visto que qualquer greve econômica se transforma em greve política, pois ambas as questões estão imbricadas e em influência recíproca, na luta econômica contra os patrões as questões políticas aparecem:

Greves políticas e econômicas, greves de massa e parciais, greves de demonstração e de combate, greves gerais de uma cidade, lutas pacificas pelos salários e batalhas de ruas, combates de barricadas – tudo isto se cruza e se custeia, se atravessa, se mistura: um mar de fenômenos se torna claro (Luxemburgo, 2005, p.120).

Neste texto, Rosa fez uma leitura clássica de Marx neste aspecto, mostrando a unidade dialética entre o subjetivo e o objetivo da classe trabalhadora, para qual o movimento é mais importante que ação de uma vanguarda política [1]. Porém, sem desprezar a vanguarda, mesmo que muitos coloquem-na como crítica ferrenha da concepção leniniana. Todavia, Rosa não foi uma voluntarista com concepções antípodas da noção de vanguarda. Essa caracterização não passa por uma análise histórica séria acerca da atuação política de Rosa. Basta lembrar que ela foi assassinada covardemente na tentativa de uma revolução, em um levante do proletariado alemão em 1919, e foi uma das principais lideranças da Liga dos Espartaquistas.

Nota
[1] O fato é que tanto Lenin como Rosa são frutos de realidades sociopolíticas distintas. Enquanto Lenin estava no ambiente extremamente hostil para formar uma organização política que fizesse frente ao absolutismo czarista, Rosa estava inserida em uma realidade um pouco distinta, com uma certa liberdade política, onde havia vários sindicatos de trabalhadores, associações culturais de classe, imprensa operária e um poderoso partido de esquerda. Ou seja, um ambiente político menos repressivo que permitia uma brecha para os trabalhadores se organizarem com certa liberdade. Portanto, a concepção sobre classe e consciência de classe de Rosa está assentada numa formação histórica do Ocidente (leia-se Alemanha), diferente da de Lenin, que era a Rússia czarista. Sendo assim, acreditamos que as duas formulações sobre classe e consciência de classe estão bem aplicadas para suas respectivas realidades sociohistóricas.

Referências
LENIN, Vladimir. “O que fazer?”. In: Obras escolhidas. Volume 1. Editora Alfa-Ômega, 1978.
LUXEMBURGO, Rosa. “Massa e chefes”. In: BOGO, Ademar [Org.]. Teorias da organização política. Volume 1. Expressão Popular, 2005.
LUXEMBURGO, Rosa. “Greve de massa, partido e sindicatos”. In: BOGO, Ademar [Org.]. Teorias da organização política. Volume 1. Expressão Popular, 2005.
LÖWY, Michael. “A centelha que acende na ação: a filosofia da práxis no pensamento de Rosa Luxemburgo”. In: Revista Margem Esquerda, n.15. Editora Boitempo, 2011.


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