sexta-feira, 9 de novembro de 2018

Lava Jato: combate à corrupção e uso político

Ensaio
Por Henrique Carneiro, professor de História da USP.

Moro vira ministro

As prisões de deputados estaduais do RJ hoje (8), muitos da base bolsonarista e que, antes, eram da base dos governos do MDB/PT, mostram que a operação Lava Jato, além de todas as utilizações políticas que teve, servindo para ajudar o impeachment, a prisão de Lula e a vitória de Bolsonaro, tem desvendado uma corrupção real e efetiva.
O desvio bilionário da Petrobrás de fato existiu. As acusações que levaram Cunha, Cabral, Eduardo Azeredo, Picciani e tantos outros a serem indiciados e presos são reais. Se o caso de Lula com o tríplex é duvidoso, ausente de provas de sua propriedade e de que as reformas teriam correspondido de fato à contrapartida por favores governamentais, há um enorme repertório de outros casos de corrupção comprovada, com contas milionárias no exterior de vários dos que hoje estão cumprindo pena.
O PT ganhou, no passado, boa parte do seu prestígio na luta contra a corrupção. Após a derrubada de Collor, por essas mesmas acusações, a bandeira da “ética na política” marcou o perfil programático petista.
O PT podia (e devia) ter feito uma devassa logo no seu primeiro governo. O PT podia (e devia) ter feito uma operação anticorrupção geral no país. Mas, não. O governo Lula buscou não ter inimigos, se abraçou com todas as oligarquias, perdoou dívidas da Globo, cedeu espaço político e até ministérios para as igrejas evangélicas, especialmente a IURD. E abandonou a bandeira da anticorrupção nas mãos da direita.
A denúncia do arbítrio da Lava Jato, especialmente com o seu uso político, comprovado agora com a ida de Moro ao ministério, não pode esconder o fato de que há um conjunto de denúncias comprovadas e um enorme contingente de políticos envolvidos, não só petistas. Aliás, a maioria em termos partidários é do PP, que foi o partido no qual o próprio Bolsonaro esteve por mais tempo.
A esquerda tem o dever de retomar a luta contra todas as formas de desvio do dinheiro público em todos os âmbitos da administração pública. Isso significa fazer um balanço categórico do que significou o abandono da luta anticorrupção pela esquerda e não hesitar em condenar os seus próprios membros que também se corromperam.
O PSOL, e também o PCB, o PSTU, o PCdoB e o PCO, são praticamente os únicos partidos que não tem nenhum caso de corrupção em suas fileiras. A solidariedade a Lula, injustamente acusado pelas reformas do tríplex, não pode ser uma recusa a reconhecer os casos que foram de fato comprovados, seja envolvendo o PT ou os demais partidos, ainda mais agora que o novo presidente vai se cercar de uma boa parte desses mesmos corruptos de sempre, a começar pelo seu coordenador político, o deputado Onyx Lorenzoni, que também se beneficiou de Caixa 2.

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