domingo, 14 de outubro de 2018

Supervalorização das pautas identitárias

Ensaio
Por Renato Correia, militante social.

Operários, de Tarsila do Amaral

Existe uma versão da música “A vida é desafio”, do grupo Racionais Mc's, em que Rap Afro-X tece alguns comentários: “Sempre fui sonhador, é isso que me mantém vivo. Quando pivete, meu sonho era ser jogador de futebol, vai vendo. Mas o sistema limita nossa vida de tal forma que tive que fazer minha escolha, sonhar ou sobreviver. Os anos se passaram e eu fui me esquivando do ciclo vicioso. Porém, o capitalismo me obrigou a ser bem-sucedido. Acredito que o sonho de todo pobre é ser rico”.
Não sei se a compreensão da realidade da classe trabalhadora é a mesma apontada por Afro-X, ou seja, se a classe busca ser rica (é necessário uma precisão maior no significado “rico”). Talvez trocando rico por conforto e considerando conforto como uma condição material digna para o desenvolvimento pleno do indivíduo, acho que é possível considerar os comentários de Afro-X como aproximados do sentimento da classe trabalhadora brasileira.
O fato é que neste ponto, pelo menos, Afro-X tentou se aproximar da realidade concreta da classe trabalhadora. Diga-se, uma tentativa muito mais próxima da realidade subjetiva dos trabalhadores que as tentativas da esquerda brasileira.
É imprescindível que na luta contra o capitalismo, o discurso e o programa consigam aderir à realidade concreta dos trabalhadores. Aliás, esse deveria ser o objetivo da esquerda.
No Brasil, temos uma classe trabalhadora devastada pela violência policial e de grupos criminosos. Uma classe trabalhadora cada vez mais precarizada no quesito emprego. Uma classe trabalhadora cotidianamente humilhada, seja no transporte público ou no Sistema Único de Saúde. Uma classe trabalhadora que assiste a uma avalanche de propagandas da sociedade de consumo mas não consegue obter os mesmos bens que a classe média. Uma classe trabalhadora cada vez mais excluída dos espaços políticos decisórios. Uma classe trabalhadora cada dia mais distante de uma vida minimamente digna. Enfim, os problemas materiais que a classe trabalhadora brasileira enfrentam são muitos.
Apesar dos problemas acima descritos serem intrínsecos ao sistema capitalista, e parte da crítica histórica da esquerda ao capitalismo, nos últimos anos a esquerda brasileira vem dando mais ênfase às lutas identitárias.
É obvio que as pautas identitárias são justas e importantes, mas colocadas isoladas de um programa anticapitalista não levam a lugar algum. Por exemplo, o debate contra o racismo isolado do debate classista pode ser feito por qualquer um, até mesmo por alguém da direita. No entanto, a combinação do debate antirracista e classista separa o joio do trigo. Em suma, o debate identitário isolado da crítica anticapitalista e da questão de classe serve apenas para esconder as contradições do capitalismo.
Ademais, embora o machismo, a homofobia ou mesmo o racismo façam parte do cotidiano dos trabalhadores, na percepção de quem vem sendo massacrado pelas políticas neoliberais é mais urgente combater a violência policial e de grupos criminosos ou mesmo defender empregos estáveis e dignos do que defender pautas de gênero.
Não é por acaso que tem sido cada vez mais comum encontrar jovens periféricas defendendo a extrema-direita. Algumas até ratificam ser contra as declarações machistas defendidas pela extrema-direita. Contudo, mesmo assim, optam em votar na extrema-direita. O resultado das eleições do primeiro turno de 2018 pode ser um indicativo assustador disso. Bolsonaro teve mais votos que todos os candidatos em 17 estados no Brasil. No Nordeste, Bolsonaro teve mais votos que Aécio Neves em 2014.
É importante dizer desde já que o avanço da extrema-direita no Brasil não tem a ver com as pautas identitárias defendidas pela esquerda, mas, sim, com a supervalorização das pautas identitárias isoladas de um discurso de classe. Esta supervalorização isolada de um discurso de classe afastou a classe trabalhadora de um projeto anticapitalista de sociedade.
O discurso e o programa da esquerda, ao não atender e dialogar com a realidade concreta e subjetiva da classe trabalhadora – aliás, uma classe precarizada, jogada fora do mercado formal de exploração, não raro uma classe conservadora e que na era lulopetista teve potencializadas atitudes individualistas – possibilitou a ascensão da extrema-direita. De algum modo, a ascensão da extrema-direita surge da inépcia da esquerda.

Gênero, Raça e Classe

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