quinta-feira, 25 de outubro de 2018

O fascismo é fascinante?

Ensaio
Por Michel Zaidan Filho, professor titular aposentado de História da UFPE.



Esta seleta audiência me faz essa pergunta: “O fascismo é fascinante?” Imediatamente sou conduzido a um estimulante ensaio do filósofo alemão Walter Benjamin, assassinado pelo nazismo, A obra de arte na era da sua reprodutibilidade técnica, onde opõe a politização da arte à estetização da política, num momento em que as tecnologias da informação estavam sendo postas a serviço da destruição.
O fascismo pode ser analisado ora como categoria estética, ora como categoria econômica, ora como categoria ético-psicológica ou como categoria política.
Como categoria estética, o fascismo prega o fim da separação entre a vida e a arte, provocando uma espécie de “dessublimação repressiva” dos objetos da cultura e glamourizando o cotidiano, as coisas comuns. É uma estratégia a serviço da mercadoria – ela própria o resultado de um processo de fetichização das relações sociais. Estratégia comum da sociedade de consumo: estetizar os objetos, dotando-os de uma aura de santidade ou de erotismo. No campo da arte, essa tendência leva à PopArte, ao putschismo, à desrealização da arte. Como dizia o dramaturgo Bertolt Brecht: transformar o familiar em estranho e o estranho em familiar. É o efeito da estética do choque, bem representada pelo cinema.
Como categoria econômica, o fascismo é a superestrutura política do capitalismo tardio ou dos países que tardiamente se unificaram através de uma “revolução passiva” (Gramsci), através de um compromisso das elites, pelo alto, deixando intocadas as relações sociais no campo. Apesar da fachada de pardieiro política do Estado fascista, o seu objetivo é usar o terror de Estado para completar a transformação capitalista da economia, tornando-a plenamente capitalista – capitalista monopolista de Estado (Alemanha, Itália, Japão). Politicamente regressiva, economicamente progressista.
Já como categoria ético-psicológica, o fascismo é representando pelo “caráter anal retensivo” na tipologia do psicanalista Erich Fromm. Modelo de personalidade autoritária, produzida por uma economia libidinal repressiva, baseada na organização da família heterossexual e monogâmica, avessa à sexualidade polimorfa. Modelo de organização libidinal na sexualidade genital e destinada a produção de mão de obra para o mercado. O corpo fascista é o corpo deserotizado, transformado em máquina de produção, com uma especialização genital da sexualidade. Modelo adequado à sociedade do trabalho, mesmo em suas versões tardias e autoritárias. Há que ser lembrada a famosa ética puritana do trabalho.
Finalmente, como categoria política, o fascismo é mais amplo, porque necessariamente não precisa estar a serviço do capital monopolista. A principal característica do fascismo político é a estética da violência, da estetização da guerra, da destruição. A pirotecnia dos canhões, das bombas, a carnificina da guerra de trincheira, a rastro de destruição dos tanques de guerra, tudo isso caracteriza o horizonte da política fascista. O mise-en-scène, a representação, a teatralização da política, vista como mero espetáculo.
Mais grave é a essência autoritária, intolerante, repressiva, uniformizadora dos movimentos fascistas, que transformam “pogroms” em festivais. Aí o lúdico, o brincante, a policromia e a metamorfose estão a serviço da discriminação, do preconceito, da criminalização do diferente, e das diferenças. Ser preto, pobre, homossexual, árabe, prostituta ou transformista é um crime em si mesmo. Representa uma grande ameaça aquilo que Fromm chama de “patologia da normalidade”. Ou seja, tudo que se afasta do padrão é suspeito de terrorista, inimigo público, etc. O indivíduo disciplinarizado pelas tecnologias sociais é o modelo de sociabilidade nessas sociedades panópticas de nossa época.
O perigo é que o fascismo implica uma base de massa organizada. Massa irracional, esta a nossa, que “emprenha” pelos olhos e pelos ouvidos, tudo que vê e escuta por meio de uma imprensa golpista cujo objetivo é capturar consumidores (e eleitores) incautos. Isso, num países de herança escravocrata e hierárquico, que trata com supremo desprezo pobres e miseráveis. Num modelo de sociedade que fez opção por incluir socialmente as pessoas pelo acesso aos bens de consumo duráveis, e não através das políticas públicas. E em que o neopentecostalismo ameaça cada vez mais o laicismo do Estado brasileiro.
Em face da crise econômica, da crise de governabilidade, do espetáculo da corrupção política e social e do “amoralismo” dos meios de comunicação, “só Jesus salva”.



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