domingo, 30 de setembro de 2018

Vida longa à primavera das mulheres!

Ensaio
Por Coletivo Nova Práxis/Transição, de Recife.

ele é o olho roxo de quem não caiu da escada
ele é a violência escondida na piada
ele é aquele aperto nojento na condução
ele é a casa-grande rindo da escravidão

ele é o país na contramão da caminhada
ele é o patrão violando a empregada
ele é o nosso salário 1/3 mais baixo
a política do ódio, covardia, esculacho (2x)

a barbárie de farda berrando no palanque
a hipocrisia mais truculenta
ele é a mão suja de sangue
e se diz ungida de água benta

ele é o atraso que país nenhum merece ter
e nós somos as mulheres que não vão deixar ele vencer
ele é o atraso que país nenhum merece ter
e nós somos as mulheres que não vão deixar ele vencer”
(Ele não, de Marina Iris).

#elenão em Recife

Talvez a letra da música acima possa ser considerada uma espécie de hino da primavera das mulheres. Clique aqui e veja o vídeo com a música. É capaz de em poucos versos expressar o regime de guerra civil contra as mulheres, que ontem (29) escreveram um dos mais poderosos capítulos de sua belíssima primavera. As mulheres brasileiras de diversos coletivos e organizações mobilizaram, organizaram e comandaram (sem o aparelhamento de partidos) um dos mais titânicos atos de rua do país dos últimos 10 anos, pelo menos. Sem dúvida está entre os dois maiores, ao lado do ato de 20 de junho de 2013, parte das conhecidas jornadas de junho, que inflexionaram a política nacional e deixaram para trás o período histórico de conciliação da nova república, segundo a acurada análise de Vladimir Safatle – veja aqui. E as mulheres, que estiverem lado a lado com homens nos atos de ontem, foram de longe o segmento mais ativo, mais numeroso e mais significativo. Um protagonismo inegável e emocionante das mulheres brasileiras.
Hoje tornou-se comum conhecer alguma pessoa da família ou do círculo de amigos que vai votar no #elenão. A extrema-direita e o fascismo social ganhou força nos últimos 5 anos, perdeu a vergonha e passou a disseminar o ódio e a intolerância contra todos os segmentos sociais considerados inimigos e responsáveis pelo que denominam de bagunça, falta de ordem, perversão, corrupção e ausência de bons costumes e valores nobres. A TFP – Tradição, Família e Propriedade – do início do século 21. Na ausência de bodes expiatórios “externos”, os culpados são todos os explorados e oprimidos, os negros, os trabalhadores, as feministas, as LGBTQI, enfim, tudo o que seja diferente do seu modo de vida e da sua sensibilidade de casa-grande.
As mulheres, ajudadas pelo nosso tempo de redes sociais e dos meios de comunicação digitais, tiveram que combater a tentativa de silenciamento ou de minimização pela grande mídia comercial dos atos que podem decidir as eleições 2018. Quando não ignorou, muitas vezes buscou igualar as manifestações pró e contra #elenão, como se tivessem sido proporcionais. Valorizar as manifestações minúsculas ou diminuir as gigantes é um ato de manipulação de uma tal propalada e inexistente mídia comercial imparcial. Veja um exemplo clicando aqui. No final, tiveram que noticiar os atos, sem mencionar jamais a sua magnitude social e histórica. As mulheres levaram milhões às ruas: em torno de 500 mil em São Paulo, 200 mil no Rio de Janeiro, 100 mil em Recife, 100 mil em Salvador, entre várias outras capitais e cidades do interior do Brasil. Na verdade, também em dezenas de capitais ao redor de diferentes continentes, numa mobilização verdadeiramente internacional.
Dois fatos foram marcantes nos atos: (a) a presença de uma série de segmentos profissionais organizados contra o ódio de extrema-direita: policiais contra o fascismo, médicos pelo #elenão, funcionários do poder judiciário, professoras das redes federais, estaduais e municipais, e um longo etc.; (b) o caráter pluri e transpartidário da manifestação: foi possível encontrar eleitores de Ciro, Haddad, Boulos, Vera, e até Daciolo. Mais difícil foi encontrar votantes de Marina (que esteve no ato em São Paulo), Alckmin, Amôedo e assemelhados.
Tudo isso só engradece a iniciativa, a mobilização e a atitude das mulheres. Com elas, a derrota eleitoral do fascismo é possível. Ainda assim, a luta é contínua, e a primavera das mulheres terá que se estender para além das eleições, pois a tropa do fascismo, do ódio e da intolerância não se pauta por calendários eleitorais. E é uma tropa que está organizada, e é violenta. Não será vencida com argumentos. Todo o nosso destino reside em como desarmar o fascismo que foi posto em funcionamento. O futuro é de luta e embates sociais. Sem as mulheres, não será possível vencer.

#elenão em Recife

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