segunda-feira, 24 de setembro de 2018

Retórica, jogos de linguagem e sofística

Ensaio
Por Michel Zaidan Filho, professor titular de História da UFPE.

Representação pictórica dos sofistas

A ciência moderna da Retórica foi profundamente influenciada pela suspeita metódica do filósofo Friedrich Nietzsche em relação ao conhecimento humano. Num curto ensaio intitulado A verdade e a mentira no sentido extramoral, Nietzsche lança as bases do neonominalismo na ciência, na filosofia e na religião. Segundo ele, o pensamento é uma patologia humana, uma espécie de racionalização do complexo dos homens em relação às demais criaturas do universo. Pensa-se para justificar a pobreza cósmica e filosófica da humanidade. Sobretudo, a sua solidão metafísica. O pensamento seria uma espécie de doença responsável pelo sentimento de angústia e desamparo humanos diante da grandeza do mundo.
Neste ponto, os conceitos, as ideias gerais, os princípios éticos e gnosiológicos não passariam de meras “efígies” das coisas, sem correspondência nenhuma com elas. Um tal pensamento levaria a um relativismo ético desesperador, no sentido de que todas as assertivas morais e deontológicas não passariam de uma racionalização da vontade de poder, ou de potência – como dizem os nietzschanos. Daí a moral do mais forte, do vencedor. E o cinismo reinante quanto às razões dos vencidos, dos dominados.
Sob a influência da chamada crise da razão ou do mal-estar na modernidade, esse relativismo ético se tornaria mais robusto com a pós-modernidade e os pensadores pós-modernos, muitos de inspiração neonietzschiana (Foucault, Deleuze, Guattari, Lacan). E a principal influência viria da chamada “virada linguística” patrocinada por Ludwig Wittgenstein e, sobretudo, o segundo Wittgenstein, o da crítica à representação e dos jogos de linguagem. Segundo nosso filósofo da linguagem, o nosso pensamento não pode ser concebido de uma perspectiva representacional, e a correspondência biunívoca entre ser e linguagem seria apenas um dos jogos ou função da linguagem.
Essa crítica exerceu uma enorme influência sobre a ética, o direito e a ciência, relativizando as pretensões de validade do discurso científico, jurídico ou filosófico. O que levou à elaboração de outras éticas (Apel, Habermas, Deleuze), éticas relacionais, discursivas ou pragmáticas. No caso do Direito, houve um grande avanço dos estudos retóricos, com sua repartição entre a retórica material, a retórica pragmática e a retórica analítica, conjugada à semiologia: o estudo do signo jurídico – na relação entre sujeitos (agontica), entre sujeitos e coisas (ergontica) e a relação entre o sujeito e os sinais (pitaneutica). O estudo da Filosofia do Direito, a partir da retórica e da semiologia jurídica levou ao que se pode chamar de uma “semiurgia”, de um mundo feito a partir da linguagem, dos signos jurídicos. É quando o mundo das normas, dos fatos e das vivências se esfuma e se torna mero discurso.
As consequências dessa virada linguística, responsável pela supervalorização da retórica na ciência do Direito teria imediatas consequências políticas e éticas. Ao não reconhecer mais as pretensões de validade normativa, estética ou gnosiológica das assertivas filosóficas, o filósofo se torna, não um retórico (no sentido aristotélico da palavra), mas um sofista, que aluga ou vende o seu discurso ou seu saber filosófico a quem pode pagar por ele. Daí que a justificação de golpes, estados de exceção e doutrinas decisionistas ou autoritárias torna-se possível, em função de uma razão retórica que, às vezes, resvala para o cinismo ou o puro e simples casuísmo.
Essas considerações talvez fossem ociosas e especulativas se essa orientação não estivesse, hoje, nos cursos de pós-graduação em Direito, nos cursos de bacharelado em Direito, nas estantes das bibliotecas e livrarias de Direito e nas colunas de jornais e espaços de debate, justificando a recente ruptura institucional que o país sofreu, a serviço de interesses privados. Estaria aí, quem sabe, a razão de uma distinção formulada, há pouco por um doutorando, em tese sobre os cursos de Direito do estado de Pernambuco, entre filósofos do Direito e sofistas, não retóricos. Os primeiros pensam, refletem e criam; os segundos vendem seu cabedal filosófico a quem pode pagar regiamente por ele.
Sei que com essas palavras serei tratado como “tacanho”, “mesquinho” e “ultrapassado”. Mas já está na hora de abrir o debate amplo e desassombrado sobre a relação entre Filosofia do Direito, Retórica e Sofística. E que cada um assuma as consequências de seus atos retóricos.

Uma justiça cega ou indiferente?

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