quarta-feira, 5 de setembro de 2018

A segunda morte de Luzia

Ensaio
Por Ana Cristina Oliveira, que é professora de História, graduanda e mestre em Serviço Social pela UFPE.



Luzia in a sea of ashes*

Estou literalmente de luto, esvaziada, queimada, em cinzas!

Infelizmente como tantos outros brasileiros não tive a oportunidade de visitar fisicamente o Museu Nacional. Mas, como professora e estudante de História, que defende a garantia de nossa memória histórica e resgate de nossa diversidade cultural, sinto-me profundamente indignada. Indignada! In-dig-na-da! Vinte milhões de vezes indignada!
Ainda que colossal, as perdas ocasionadas pelas chamas no Museu Nacional não podem ser medidas tão somente pela destruição material das quase 20 milhões de peças de seu acervo, dentre elas 90 mil artefatos dos povos pré-coloniais do Brasil, o acervo mais completo de Etnologia do país. As cinzas que hoje tomam o lugar da riqueza cultural, natural, artística e histórica que habitava a Quinta da Boa Vista sepultaram anos, milhares de anos de memória, de trabalho, de conhecimento partilhado entre gerações, de vida. Cinzas agora encobrem um patrimônio imaterial impossível de ser novamente resgatado. A perda é absolutamente incalculável e irreparável.
O Museu foi queimado, a favela foi queimada, os corpos são queimados. Esses são os legados da lógica hegemônica do capitalismo periférico à brasileira, que destrói tudo o que é vivo, que apaga raízes ancestrais, que não tem identidade própria, que não possui espírito, que não se identifica nem pode se identificar com o povo ou o território onde lhe coube existir. A responsabilidade por essa tragédia não é do acaso, do imponderável. Não foi um acidente!
O que ocorreu com o Museu Nacional foi o coroamento de uma dada racionalidade que expressa concepções de mundo desatreladas da ideia de preservação dos nossos museus, sítios históricos, bibliotecas públicas, pesquisa, vidas humanas e natureza. Para os signatários dessa racionalidade pouco importam os fósseis, múmias, obras de arte, registros historiográficos, vidas, conhecimentos sobre nossa construção como humanidade com todas suas dimensões e significados.
Os que negaram ao Museu Nacional a possibilidade de existir não estão interessados em preservam a vida da maioria da população que habita a terra brasilis. Senão, vejamos, por exemplo, o subfinanciamento do Sistema Único de Saúde que condena os mais pobres ao sofrimento e à morte. Se não valorizam os vivos, por que se afetariam com as ancestralidades? Mas, fossem os museus, bancos? As bibliotecas, agronegócio? As escolas e universidades, indústrias? As pessoas, dinheiro? O tratamento não seria o mesmo. Uma das questões que nos cabe refletir é: como patrimônios imateriais cheios de vida e de sentido podem ser integrados à alma daquilo que não pode ser preenchido?
O que aconteceu com o Museu Nacional, assim como o que acontece desde a colonização – o genocídio praticado sistematicamente contra os povos originários; o massacre das populações quilombolas; os assassinatos e encarceramentos de jovens negros; a epidemia de agressões, estupros e assassinatos [feminicídios] de mulheres e LGBTQ's, sobretudo as periféricas; a entrega e degradação da Amazônia, Jiral, Rio Doce; “acidentes” de trabalho, fome, desigualdades, desemprego, subemprego, terceirização; assassinato político de Marielle Franco e, para arrematar, a trágica segunda morte de Luzia – é um todo constitutivo de um mesmo processo assentado e articulado de priorização da propriedade privada e do lucro.
Luzia e parte importante da memória histórica e cultural da humanidade foram assassinadas, queimadas e esmagadas vivas a partir da noite do dia 2 de setembro de 2018 na Zona Norte do Rio de Janeiro. Ficamos sabendo que a Polícia Civil recebeu a queixa e que a Polícia Federal já está encarregada de investigar se o crime foi ou não doloso. Essa é pois uma questão importante, visto que os possíveis autores precisam ser identificados e devidamente punidos. Só que não! Essa investigação provavelmente não nos levará aos verdadeiros responsáveis. Seus limites são estruturais, por isso está fadada ao fracasso.
Bom, mesmo sem a intenção de generalizar, não posso contornar o fato de que é impossível encontrar os responsáveis sem olhar para além dos escombros. Perceber o fragmento e a totalidade. Nesse momento é essencial sermos rigorosos, nos empenharmos coletivamente numa análise crítica da questão, sem a qual as conexões entre o passado e o presente não se estabelecerão. Penso que é preciso atribuir a autoria dessa tragédia aos reais responsáveis, em suma, aos sucessivos governos e às classes que os dirigiram e dirigem. Jamais houve empenho sério em resgatar ou preservar a História, a Arte e a Cultura em nosso diverso e vasto país. Além disso, jamais foram capazes de desenvolver de forma consequente soberania e autonomia na produção de conhecimento.
Todavia, é bastante emblemático que o incêndio tenha ocorrido sob o governo Temer, que é apoiado pelo Congresso Nacional mais corrupto, conservador e elitista da História recente do Brasil. Ah, não nos esqueçamos da inestimável contribuição do Judiciário nos momentos mais decisivos de sustentação desse governo e de sua contribuição para o martírio dos de baixo. Alias, não é demais lembrar que a cúpula do Judiciário segue (ou seria serve?) à trajetória de manutenção da injustiça e desigualdades, em outras palavras, alinhada à salvaguarda do que há de mais retrógrado e parcial.
Essa estrutura de poder, mesmo sem respaldo ou representatividade popular, mergulhado num mar de escândalos de corrupção, de ataques às classes trabalhadoras e ao patrimônio público, eleva seus benefícios ao mesmo tempo em que corta verbas de setores essenciais. A dinâmica progressiva de aumento dos privilégios contrasta com a aprovação da PEC 241/55 que congelou por vinte anos investimentos em setores essenciais, já historicamente penalizados, como a Educação, a Cultura, a Saúde e um vasto etcétera ligado às políticas sociais.
Temer, a maioria do Congresso e o Judiciário são hoje os representantes políticos dos interesses do capital. Não apenas reproduziram o modelo liberal clássico de Estado menor para o social e maior para os capitalistas como de forma criminosa intensificaram a dinâmica da precarização. Foi essa política que impulsionou a degradação do Museu Nacional, o espaço mais relevante em termos de acervo de história natural e antropológica da América Latina. Por essa razão devem ser identificados como responsáveis em todos os níveis pela calamidade da Quinta da Boa Vista.
Hoje, todos os amantes da memória histórica e do conhecimento observam atônitos a expressão representativa e típica de uma realidade vivida por museus, bibliotecas, universidades, escolas e espaços culturais espalhados Brasil afora. Pelo tratamento dispensado, ou seja, por todo desprezo, por toda indiferença, por todo descaso que a classe dominante subalterna do Brasil e seus governos decadentes tem conferido às questões não vinculadas aos ditames da usura, quem deveria ter estado sob chamas, queimado, desabado, desaparecido, eram eles e seu sistema tacanho. Até agora os “donos do poder” político e socioeconômico não se mostraram dignos de representar os interesses públicos do povo, da classe/raça/etnia realmente produtora das riquezas, da nossa cultura e de uma pesquisa comprometida com a causa da emancipação. Tomemos para nós os rumos da preservação do nosso passado e da construção do nosso futuro!

O Museu Nacional não apenas existiu por 200, ele resistiu o quanto pode.



_____

*Paródia de minha autoria que remete à música Lucy in the sky with diamonds, de 1967, dos Beatles. A música inspirou o paleoantropólogo Donald Johanson a batizar com o nome Lucy a descoberta de 1974 do fóssil feminino com cerca de 3,2 milhões de anos encontrado no triângulo de Afar, na Etiópia. Versão “Luzia in a sea of ashes” (Luzia em um mar de cinzas). Luzia é fóssil humano mais antigo encontrado no continente americano, com cerca de 12.500 a 13.000 anos. Duas vezes morta.

6 comentários:

  1. Nossa memória foi expropriada. Esperavam os capitalistas se apropriar dela, torná-la invisível e nos tornar filhos de origem nenhuma.

    ResponderExcluir
  2. "Se não valorizam os vivos, por que se afetariam com as ancestralidades? Mas, fossem os museus, bancos? As bibliotecas, agronegócio? As escolas e universidades, indústrias? As pessoas, dinheiro? O tratamento não seria o mesmo. Uma das questões que nos cabe à reflexão é: como patrimônios imateriais cheios de vida e de sentido podem ser integrados à alma daquilo que não pode ser preenchido?" Disse tudo. Reflexão muito boa.

    ResponderExcluir
  3. O texto está muito bom, especialmente por tentar conectar as mortes simbólicas às mortes físicas e sociais no Brasil. Ótimo para pensar! Parabéns!

    ResponderExcluir
  4. Parabéns Ana Oliveira; texto muito lúcido. O que aconteceu com o Museu Nacional não foi uma tragédia. Tragédia acontece quando o evento independe da vontade de quem a sofreu; ex: a seca é uma tragédia, a fome não. Tal fato ocorreu pela irresponsabilidade dos nossos governantes. Bom lembrar que o último Presidente do Brasil a visitar o Museu foi JK. Paulo Magon.

    ResponderExcluir
  5. Adorei o texto Ana! Vc retratou muito bem essa perca irreparável q tivemos, juntamente com o descaso e responsabilidades visivelmente intencional...eles estão falindo ainda mais a Educação, a cultura, filosofia

    ResponderExcluir
  6. Namastê! Obrigada por compartilhar este texto tão cheio de significados e que expressa claramente não só a sua dor e indignação, mas a de um número inestimável de pessoas que sofrem e estão de luto pela perda deste patrimônio cultural e histórico...

    Grata por este texto... Parabéns Ana Oliveira.

    ResponderExcluir

Adicione seu comentário.