domingo, 19 de agosto de 2018

Contra o pessimismo (4)

Ensaio
Por Betto della Santa, pós-doutorando em Teoria Social pela UFF.

Acesse a parte 1 aqui: Contra o pessimismo (1)
Acesse a parte 2 aqui: Contra o pessimismo (2)
Acesse a parte 3 aqui: Contra o pessimismo (3)

Raymond Williams (1921-1988)

V
Do desespero convincente à esperança viável
É possível encontrar dos mais baixos vales, depressão pessimista, aos mais altos cumes, de euforia otimista, no interior da tradição marxista. O exercício de topologia intelectual não deixa de ser algo tal qual sismógrafo político a auscultar o pulso das massas de perto. Salvo ledo engano não poderia haver mais catastrófica preleção sobre o futuro humano do que o alerta de Friedrich Engels para o fato mesmo de que o sistema solar vai ter fim. A absoluta convicção na aniquilação do Planeta e todo o gênero humano sobre a face da Terra, afinal de contas, não é propriamente a mensagem dum ensolarado café da manhã. O destino último para o qual sucessivos militantes – de Blanqui a Lyotard – imaginaram fugas intergalácticas, vôos interplanetários e repovoamentos épicos, dignos de melhores constructos da indústria cinematográfica de Hollywood em seus delírios mais fantásticos (se é que Los Angeles ainda é capaz de produzir algo digno de atenção), não encontrou no mais bem-disposto, bem-alimentado dos fundadores do materialismo histórico solução:

"Milhões de anos podem se passar, centenas de milhares de gerações nascerem e morrerem, mas inexoravelmente chegará o tempo em que o calor declinante do Sol não será o suficiente para fundir o gelo que vem dos polos, em que a espécie humana, acotovelando-se cada vez mais no centro do globo, já não há de encontrar, nem na Linha do Equador, o calor que torna possível a vida humana, em que esta perecerá, gradualmente, e se extinguirá pari passu todo e qualquer vestígio de vida orgânica, e a Terra, então esta esfera congelada e extinta, ora parecida à Lua, continuará a girar por toda a escuridão infinita mais profunda em órbitas cada vez menores entorno a um Sol também findo e, por fim, juntar-se-á ao defunto Astro" (Engels, Friedrich, 1965, tradução nossa).

A sombria mortalha, imagem literária tão portentosa, foi usada por sucessivas vagas de militantes socialistas para referir um destino fatal, mas distante. Rosa Luxemburg, por exemplo, usava constantemente uma macambúzia alegoria para designar a ativação dos “limites internos absolutos” do próprio capital, em reprodução ampliada, teoricamente verdadeira, como tese, à qual opunha a “luta de classes”, como antagonista derradeiro, muito antes de vir a ser. Tal limite interno era qual a “extinção do Sol” de tão longínquo. Vibrando na mesma frequência desta largura de ondas, Trotsky imaginara a um futuro mais que brilhante nos seus escritos sobre Literatura e Revolução para o gênero humano.

"A sociedade futura irá se destacar da áspera e embrutecedora preocupação do pão de cada dia. Os restaurantes coletivos prepararão, à escolha de cada um, comida boa, sadia e apetitosa. As lavanderias públicas lavarão bem as roupas. Todas as crianças serão fortes, alegres, bem alimentadas e absorverão os elementos fundamentais da ciência e da arte, como a albumina, o ar e o calor do sol”. Assim, “(…) as paixões liberadas irão se voltar para a técnica, para a construção, inclusive da arte, que naturalmente se tornará mais geral, madura, forte, a forma ideal de edificação da vida em todos os terrenos. A arte não será simplesmente aquele belo acessório sem relação com qualquer coisa”. «É difícil prever o espectro da autodeterminação a que o homem do futuro poderá alcançar (…). O homem se tornará incomensuravelmente mais forte, mais perspicaz, mais polido; seu corpo terá uma forma mais harmônica, seus movimentos serão mais dotados de ritmo, sua voz será mais musical» (...) o próprio corpo humano “(…) será mais harmonioso, seus movimentos mais rítmicos, sua voz mais melodiosa. As formas de sua existência adquirirão qualidades dinamicamente dramáticas. A espécie humana, na sua generalidade, atingirá o talhe de um Aristóteles, de um Goethe, de um Marx. E sobre ela se levantarão novos topos" (Trotsky, Leon, 1924, tradução nossa).

É a hora e a vez de prestar atenção aos conselhos do criador do Berliner Ensemble. Já é tempo de deixar o pessimismo marxista para os dias melhores. Em seu poema, Aos que virão, Brecht insiste em que só haveria que desesperar se e quando houvera injustiça sem resistência. E, mesmo nos tempos aparentemente sem resistência, o passado de luta constituiria valor como luz ao fim de um túnel. Recuperar o Dia do Juízo ainda que toda a justiça não se imponha ao final – uma vida dedicada à busca da felicidade do gênero humano continuaria digna de encomio. Não triunfar não é o mesmo que ter fracassado, da mesma forma que não é verdadeiro que bem está / é o que bem chega já a seu termo. Quem não luta com toda força até o fim nunca saberá se evitar o mal era factível ou não.
Não é à-tôa que sejam tão afamados os escritos de tom messiânico de Walter Benjamin. Uma era de revoluções sociais e transformações políticas não precisaria de tal antídoto. A reputação tão duradoura e estimada da Escola de Frankfurt em geral contrasta com o quasi-desconhecimento, por parte dos marxistas revolucionários, dos estudos culturais do marxismo inglês. Contemporâneos dos autores alemães, foram antipodas, à altura, do que foi este seu Kulturpessimismus. Sem opor a banalidade do otimismo ao pessimismo fatalista, The uses of literacy (1958), de Richard Hoggart, Culture and society (1958), de Raymond Williams, e The making of the English working class (1963), de Edward Thompson, lavraram o terreno que nutria a cultura tal qual uma ensamble intrincada de práxis e, tais práxis, a conformar a atividade vital humana que molda o curso da história.
Mais vale, como nos conta Williams – em entrevista a Terry Eagleton –, tornar viável a esperança do que convincente o desespero. É preciso distinguir as sementes de vida das sementes de morte. O critério ulterior da razão crítica é, para Williams como para Marx, um ato histórico, e não mental. “You are a Marxist aren’t you?”. Pois então mãos à obra. Como já dissera um outro marxista conterrâneo, o mundo não vai se transformar sozinho.

Edward Palmer Thompson (1924-1993)

Bibliografia
Antonio Gramsci. Quaderni del Carcere. Torino, Einaudi, 1975.
Boris Kagarlitsky. The suicide of New Left Review. International Socialism 2:88, Autumn 2000.
Duncan Thompson. Pessimism of the Intellect – a History of the New Left Review. London, Merlin, 2004.
Edward Berstein. Evolutionary Socialism: a criticism and affirmation (Die Voraussetzungen des Sozialismus und Die Aufgaben der Sozialdemokratie.) 1911/2014.
Eric Hobsbawm. Tempos Interessantes: uma vida no séc. XX, Porto, Campo das Letras, 2005.
Friedrich Engels apud Sebastiano Timpanaro. Classicismo e Illuminismo nell’Ottocento. Pisa, 1965, p.158.
Gilbert Achcar. The 'historical pessimism' of Perry Anderson. International Socialism 2:88, Autumn 2000.
Gregory Elliot. Perry Anderson: The Merciless Laboratory Of History (Studies in Classical Philology), Penguin, London, 1998.
Leon Trotsky. Literatura y Revolución. Buenos Aires, RyR, 2014.
Louis Althusser. Lire le Capital, Presses Universitaires de France, Collection «Quadrige», 1996.
Jean Paul Sartre. Critique de la Raison Dialectique, Tome I, Paris, 1960.
Paul Blackledge. Perry Anderson, Marxism and the New Left. London, Merlin, 2014.
Perry Anderson. Considerations on Western Marxism. London, Verso, 1974
Raymond Williams / Terry Eagleton. Recursos de Esperança: cultura, democracia, socialismo. Trad. Nair Fonseca e João Alexandre Peschanski. SP: Unesp, 1989/2014.
Terry Eagleton. Esperanza sin Optmismo. Taurus, Buenos Aires, 2015.
Theodor Adorno e Max Horkheimer. Fragmentos Filosóficos. 1947. (Dialektik der Aufklärung – Philosophische Fragmente), várias edições.
Walter Benjamin. Theses on the Philosophy of History (also On the Concept of History, from German: Über den Begriff der Geschichte), 1940, várias edições.

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