segunda-feira, 23 de julho de 2018

Contra o pessimismo (1)

Ensaio
Por Betto della Santa, militante e educador que segue os ensinamentos do "mestre" – educar como quem milita e militar como quem educa para tornar a esperança viável.

Purificação do Templo (1875), de Carl H. Bloch

O pessimismo e o otimismo fazem parte do senso comum. São estados de espírito que, como pólos opostos, não deixam de ser vulgares, e até algo banais. Quando associados a visões de mundo messiânicas, de tipo milenarista, alcançam o status de sagrado e – com retórica inflamada – podem subir aos céus ou descer aos infernos. Os exemplos são muitos. Abundam. Mas dado o contexto efetivo em que nos toca viver vale a pena ver, mais de perto, os mais próximos. Qual diria Brecht, estranhar aquilo que nos é familiar. Vale a pena acompanhar de perto o argumento de Terry Eagleton (2015) sobre a questão.
A tradição cristã – por exemplo – é ali considerada uma concepção total de mundo mais pessimista do que um qualquer humanismo secular ao mesmo tempo em que seria, sem qualquer termo de analogia, imensamente mais otimista. Se por um lado é dum brutal realismo em relação a tudo o que tem a ver com uma inamovível natureza humana – da inexorabilidade do mal à perversidade da autoilusão, até o escândalo do sofrimento – por outro também constitui absoluta redenção a esta tão terrível condição. De tão possível – pasmem ou regojizem-se? – já se a fizeram em nosso nome: — Praise the Lord! Aleluia!
O último dos stalinistas convicto e confesso, o mais preguiçoso e vulgar, jamais poderia proclamar impune – nos dias de hoje – que o socialismo é o inexorável e, menos ainda, que ele já apareceu sem que sequer nos tivéssemos dado conta. Para as profissões de fé, contudo, o advento dum tal Reino é, de antemão, assegurado. Pois a vinda de Jesus, do Mundo dos Mortos, teria-o já fundado. A nova sociedade – a cidade futura – é possível em base a um corpus transfigurado. E é isso o que se celebra, na Páscoa. A Ressurreição.
Mas, atenção! Não era lá o caso de uma consertação sindical ou barganha política. Nada de negociações. Sem pactos. O Messias é um irredutível: ou se está a favor – ou se está contra. Nada de meios-termos tão ao gosto das suscetibilidades mais contemporâneas. Nem migalhas de pão, nem servir vinho novo em velhas garrafas. Outro mundo possível e necessário é prenúncio ou encarnação, mas nunca gradualismo. Neste exato sentido muito específico Cristo foi, mais que reformista social, um vanguardista revolucionário.
Cristo não dava nome a uma transição pacífica – do velho para o novo – à maneira de qualquer socialismo evolucionário à la Edward Berstein ou seu Partido Socialdemocrata Alemão. Dada a urgência e até severidade da aludida condição – que os Gospels dirão o Pecado do Mundo –, alcançar uma ordem social igualitária envolve passar mesmo pela morte, pela condição do Nada, o mais absoluto, turbulência irascível: o pior dos flagelos.
Mas por que os seguidores de Jesus Cristo tão-só esperam a tal vinda do Reino dos Céus? Tem a ver com algo que pode soar até bastante banal, para nós, mas que não podia fazer qualquer sentido, para eles. Não havia no horizonte, daquela gente, qualquer noção de que a atividade humana poderia jogar algum papel de auxílio em sua fundação na Terra. O cristianismo primício imaginou-o antes como dom-de-Deus — e não um ato histórico. Não à-tôa foi necessário um desenvolvimento histórico de longa duração para superá-lo. O otimismo e o pessimismo também fariam história nas ideias políticas do socialismo: em um outro tipo de escrita da história, e toda uma outra forma de fazimento da história.

A continuar!

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