domingo, 29 de julho de 2018

Contra o pessimismo (2)

Ensaio
Por Betto della Santa, militante e educador que segue os ensinamentos do "mestre" – educar como quem milita e militar como quem educa para tornar a esperança viável.

Acesse a parte 1 aqui: Contra o pessimismo (1)

Angelus Novus, de Paul Klee

I
O novo tempo do mundo?
O espectro da autodeterminação – um novíssimo modo de fazer história – só surgiu nos últimos duzentos anos. A única concepção de história disponível naquele então era uma 'Heilsgeschichte' ou, em miúdos, algo como a História da Salvação'Sagrada' – e todo um outro tempo. Walter Benjamin tematiza, ao final de suas Teses sobre o Conceito de História, uma possibilidade efetiva para a instauração de um novo «Tempo-de-Agora». O materialismo histórico e a história sagrada se voltam contra a ideia de progressivismo. Acreditamos que este espectro ronda o globo e é um tema que vale a pena rever adiante.
A remissão a valores e crenças de que se navega a favor da corrente do mar da história, a confiança cega no incessante desenvolvimento material das forças sociais produtivas, a fé inexorável – em uma imparável elevação da consciência social do proletariado – e a asseveração de inevitabilidade à finalidade socialista do curso dos acontecimentos foi um ópio socialdemocrata do movimento da classe trabalhadora, de sindicatos e partidos. Seria, hoje, politicamente farsesco repetir à tragédia histórica naïf de inícios do século XX.
O Kulturpessimismus não deixa de ser o marco epocal que divide águas no socialismo. A quarta vaga geracional do marxismo continental europeu fez renascer a este idioma. Usando expressões até então ininteligíveis – para Engels e Marx, Mehring ou Labriola, de Rosa Luxemburg a Leon Trotsky – diferentes marxistas tal Adorno, Sartre, Althusser e Benjamin foram bastiões intelectuais deste novo pessimismo teórico da razão crítica. A derrota histórica da revolução no século XX deixaria profunda marca em seus expoentes.
A Dialética do Esclarecimento de Adorno e Horkheimer pode ser considerada magnum opus do pessimismo marxista, campeã invicta da negação dialéctica na Europa ocidental. A Crítica da Razão Dialética de Sartre valoriza o tema da escassez em uma nova chave. E Althusser é responsável por articular a noção de ideologia tal qual um Appareil d'État. Mas é Benjamin quem irá desafiar vigorosamente o cânone do progresso enquanto tal. O mais peculiar marxismo ocidental – para Anderson (1974) – é, também, o mais típico.
As inovações temáticas do assim-chamado marxismo ocidental antecipam problemas reais (e fulcrais) de toda história do movimento socialista pós-primeira guerra mundial. Muitas das preocupações de Adorno com a natureza, que à altura apareciam enquanto desfasamento algo perverso no relativo à orientação das obras do Instituto de Frankfurt, reapareceram, subitamente, nos amplos debates, posteriores, sobre o meio-ambiente. A incursão principal de Althusser, sobre a ideologia, foi directamente inspirada pela onda de revoltas no interior do sistema de educação superior do mundo capitalista avançado. O tratamento do problema da escassez por Sartre esquematizou a cristalização universal da burocracia, após todas as revoluções socialistas – levadas a cabo nos países atrasados.
Todas as principais inovações e/ou desenvolvimentos teóricos, no seio deste corpus, se distinguem da tradição prévia do materialismo histórico pela falta de clareza dos seus corolários e de suas conclusões. A este respeito, entre 1920 e 1960, o marxismo mudou – lentamente – de cores e texturas no Ocidente. A confiança herdada, o otimismo dos fundadores, e a altivez dos sucessores, desaparecera, inescrutavelmente. Quase todos os principais temas novos da história intelectual, desta época triturada, revelam a mesma diminuição da esperança e a mesma perda de convicções. O arco da descrença distópica.

II
Para onde vai a teoria?
À melancolia intelectual – impregnada na obra dos críticos de Frankfurt – falta qualquer nota de energia militante que se lhe possa fazer frente. Adorno/Horkheimer puseram em causa a própria ideia de domínio do homem sobre a natureza como o reino da liberdade, para lá do capital. O pessimismo de Althusser, ou Sartre, tivera outro horizonte. Mas não menos grave que o anterior; o socialismo realmente existente. Althusser afirmou que até o comunismo permaneceria opaco, enquanto ordem social para os indivíduos que nele vivessem, enganando-os com a perpétua ilusão do livre-arbítrio. Sartre rejeitou a própria ideia de ditadura do proletariado, como impossível. E interpretou a burocratização das revoluções como o produto invariável de uma escassez cujo fulcro seguiria insuperável. Estas teses conjugaram-se com acentos particulares, e cadências gerais, perfeitamente invulgares na história precedente do movimento socialista internacional. E foram estas também, de forma menos directa ou verbal, sinal inconfundível de alterações profundas.
O tom e as alegorias que Adorno e Althusser, Sartre e Benjamin, iriam utilizar mudaram drasticamente todo ambiente literário precedente. Benjamin foi quem melhor sintetizou uma concepção de história da intelligentzia centro-europeia em linguagem que teria sido quase incompreensível para todas as gerações anteriores: «Eis como retratamos o Anjo da História. A sua face está virada para o passado. Onde nós percebemos uma cadeia de acontecimentos, ele vê uma única catástrofe que mais não faz do que empilhar naufrágio sobre naufrágio e os atira para diante dos pés. O Anjo gostaria de permanecer nesse lugar, de acordar os mortos e reconstruir o que foi destruído. Mas uma tempestade sopra do Paraíso: tomou as suas asas com tal violência que o Anjo não as pode já fechar. Esta tempestade impele-o irresistivelmente para o futuro, para o qual as suas costas estão voltadas, enquanto o amontoado de escombros que se lhe depara cresce em direcção ao céu. Esta tempestade é aquilo a que chamamos Progresso». E Benjamin soía afirmar que mesmo mortos não estariam a salvo – enquanto seguirem vencendo os vencedores...
É certo que Benjamin – como Antonio Gramsci – foi vítima do fascismo enquanto dava luta sem quartel contra o stalinismo. Mas também no segundo pós-guerra mundial o tom sombrio foi inequívoco. Talvez o mais urgente de todos os escritos de Althusser, por exemplo, possa advertir – com feroz violência – para o desenvolvimento social desde o nascimento à infância. Desenvolvimento, este, que estaria na origem do surgimento do inconsciente qual uma provação a que todos os seres humanos teriam de passar ao largo da vida. Com inspiração em Freud, o professor d’Ulm irá retratar uma 'guerra infinita' e algo como a 'morte não-oficial', de uma série ininterrupta de pulsões de vida, no mundo dos homens. Também Sartre iria usar metáfora atroz, para comparar as relações entre os homens, em chave de escassez'raritá' de Galiani –, 'duplo demoníaco' e, até, 'outra espécie'. Passagens como estas fazem parte de uma prosa fundamentalmente estranha ao mundo – da política e das letras – de Marx, de Labriola ou de Trotsky. E trazem um pessimismo subjacente para lá de intenções ou das teses – declaradas – dos seus autores.
As características que circunscrevem esta constelação de marxistas tal tradição distinta tem a ver com a origem no malogro das revoluções socialistas nas zonas desenvolvidas do capitalismo europeu após a primeira guerra mundial. Desenvolvendo-se no meio de uma crescente cisão entre a teoria política socialista e prática da classe trabalhadora, o abismo entre ambas, que começou a ser cavado pelo bloqueio imperial à Revolução dos Soviets, veio a ser ampliado e consumado – institucionalmente – pela burocratização da URSS e do Comintern durante o regime de Stálin. Para os expoentes do novo idioma não estava em causa uma renúncia formal à ideia de revolução. Mantiveram o horizonte intelectual de uma transformação social, radical, mediante a agência humana, socialista. Mas longe de qualquer ativismo este léxico marxista ateve-se a uma República de Letras. E virou letra – e república – morta.
Um divórcio estrutural, entre a teoria e a prática, impediu a consecução de um trabalho político e intelectual de conjunto, do tipo do que definiu todo marxismo precedente. Em consequência disso, os teóricos refugiaram-se nas academias, afastando-se do modo de vida e de luta das classes trabalhadoras dos seus próprios países. E a teoria abandonou a economia e a política pela filosofia e a estética. Esta especialização conjugou-se com uma linguagem cada vez mais truncada, cujas barreiras ergueram-se em função da sua distância das massas. Inversamente, ela conjugou-se também com um rebaixamento do nível de conhecimentos mútuos – ou comunidade internacional real – entre os próprios teóricos, dos diversos países. Foram paroquiais onde e quando seus ascendentes eram internacionalistas. A perda de todo e qualquer contacto dinâmico com a prática da classe legou o método como impotência, a arte como consolação e o pessimismo como acicate.
Mas não podemos reduzir tal tradição, como um todo, a este triste panorama. Apesar de tudo, os seus principais quadros mantiveram-se autoimunes ao reformismo tradicional. Apesar de se encontrarem tão apartados das massas, em geral, e dos trabalhadores, em particular, quase nenhum deles – exceção ao que veio a ser o renegado Horkheimer – veio a capitular ao capitalismo triunfante, como antes deles fizeram alguns teóricos da Segunda Internacional, triste memória de Karl Kautsky, muito mais próximo da luta de classes. E tanto mais – por entre as suas próprias inibições e silêncios – a experiência histórica de que as suas obras eram uma expressão cabal foi também, em certos aspectos particulares, das mais avançadas do mundo, pois que englobavam às mais altas formas de economia capitalista, o proletariado industrial mais antigo e as mais longas tradições intelectuais do socialismo. Trata-se – sem sombra de dúvidas – de um riquíssimo legado.

Horkheimer e Adorno

A continuar!

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