segunda-feira, 11 de junho de 2018

O desterro como vocação: a prosa ficcional de Philip Roth

Ensaio
Por Renato K. Silva, que atualmente é doutorando em Ciências Sociais pela UFRN e foi pesquisador visitante na Universidade da Califórnia, em Los Angeles.

O escritor Philip Roth

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Se há um traço indelével na prosa ficcional de Philip Roth (1933-2018) é a marca do desterro. As personagens de Roth tem estampadas em suas trajetórias um sentimento de inquietação no tocante ao não pertencimento físico e moral às circunstâncias que estão inseridas. E esse mal-estar possui dupla face: identitário e sexual.
Em síntese, Roth era um escritor eminentemente autobiográfico e escrevia numa chave estética realista. Isto é, há homologias significativas entre alguns dos protagonistas (Alexander Portnoy, Nathan Zuckerman...) com a trajetória do escritor e a do próprio país a partir da segunda metade do século passado.
Como descendente de imigrantes judeus, Roth não se sentia completamente assimilado à cultura norte-americana, sinteticamente binária: republicanos vs democratas, brancos (WASP sigla em inglês para branco, anglo-saxão e protestante) vs não brancos; Sul (conservador) vs Norte (progressista)... Tampouco via-se como um judeu. Eis o centro da crise identitária dos protagonistas de Roth no cadinho sociocultural americano: judeu branco, mas não WASP, que apesar da ascensão social oriunda do pós-guerra não consegue ser assimilado pelos góis (não judeus para os judeus) num país até então com a maior comunidade judaica do mundo.
O mal-estar identitário dos protagonistas de Roth pode ser melhor entendido num breve escrutínio das circunstâncias históricas onde foi gerida a prosa ficcional do autor. Com o fim da Segunda Guerra, os EUA saem do conflito como a grande potência econômica mundial e às vésperas de conquistar também a hegemonia simbólica. A obra de Roth emerge num período em que o historiador inglês Eric Hobsbawm chamou de “A era de ouro do capitalismo”, que vai do pós-guerra à década de 1970. Na “era de ouro do capitalismo” a sociedade norte-americana acentua um movimento que vinha desde o New Deal – a transformação do país numa sociedade de classe média. Num cenário específico como esse, a luta de classes é suplantada pelas lutas por reconhecimento. Ou seja, as personagens de Roth emulam um tipo de sociedade mais calcada em Hegel do que em Marx. As lutas por reconhecimento são mais tangíveis que a luta de classe pois a renda, para os não-WASP, não é índice de adesão à comunidade imaginada estadunidense. Portanto, o mal-estar identitário na economia interna da prosa rothniana é consubstanciada na verossimilhança histórico-social que a obra está inserida – o que alça a fatura dos livros a um patamar de aderência ao real poucas vezes vista no cenário cultural americano da segunda metade do século XX.
Com o estrondoso Complexo de Portnoy (1969), a obra de Roth emula uma inflexão que o capitalismo americano tomou naquela quadra histórica: ascensão das narrativas identitárias na esteira de 1968 com forte herança psicanalítica e declínio da sociedade rígida do fordismo-keynesiano para a acumulação flexível pautada sobretudo no terceiro setor (serviços).
Após a mudança da matriz econômica industrial rígida para a flexibilidade dos serviços, grandes contingentes de trabalhadores deixaram de operar com matérias-primas, objetos sólidos, manipulação de ferramentas para trabalharem com ideias pouco definidas: propaganda/publicidade, meios de comunicação de massa, marketing... e toda uma seara de objetos sem uma materialidade tangível, quase espectrais. Numa sociedade com essa compleição, os desejos e as necessidades são sublimados para o campo simbólico: saem de cena os desejos coletivos para a solução de um problema material e começa a se autonomizar o desejo de conquista de produtos imateriais – o valor de troca substitui o valor de uso, isto é, o fetiche (mercadológico e sexual) começa a eclipsar o reino das necessidades da carne e do espírito.
Nesse contexto de baixa especificidade material entre seres e coisas, fruto da fetichização, é que as personagens de Roth transitam: a empáfia pomposa e inócua da vida universitária, a busca ensandecida por status num sistema produtivo cada vez mais arrivista, as paranoias e veleidades de um quase impermeável mercado editorial para forasteiros, a arrogância janota das elites da Costa Leste, o racismo institucionalizado, o pavor hidrófobo das correntes de pensamento de esquerda, a draconiana vigilância da economia libidinal alheia… Nessas circunstâncias, os tipos sociais rothnianos supõem enfrentarem sistemas relativamente rígidos de poder, quando de fato debatem-se contra espectros ideológicos, resíduos de matéria sublimadas em patrulhamento político e sexual outros que não condizentes à mediania WASP. Apesar da vida administrada, amplamente confortável, intelectualizada e elegante, o universo dos tipos sociais rothnianos se dissolve na dispersão proveniente de uma vida confusa e sem sentido pois grassa uma profunda incapacidade de ancoraram-se na materialidade das coisas – o desterro é igualmente uma condição de ausência de finalidade para as trajetórias.
Outra dimensão cara à especificidade dos tipos rothnianos é o mal-estar sexual. Dizia Freud em famoso ensaio (Mal-estar na civilização) – de maneira relativamente mecânica – que quanto mais se aumenta o escopo da cultura, no regaço de dada sociedade, mais alarga-se o mal-estar. E esse sentimento de insuficiência diante da ampliação e domínio da cultura sobre a natureza gera, sobretudo no reino da libido, embotamento e sensaboria da vida porque amplia-se o hiato entre o desejo e sua almejada realização.
Nesse diapasão, as personagens de Roth – especialmente masculinas, embora haja algumas femininas (destaque para Drenka em O teatro de Sabbath) – debatem-se contra os ditames e interdições da cultura cristã que sufocam a livre vasão da libido num mundo que ao mesmo tempo em que queima sutiãs amplia a vigilância e a legislação ao corpo alheio – especialmente feminino. Aqui há uma mitificação na superabundância libidinal das personagens judaicas que Roth e Woody Allen ajudaram a consolidar – às vezes até em tom caricatural – no imaginário do mundo Atlântico. E nesse quesito a mitificação priápica do homem judeu, nas obras de Roth e Allen, contribuiu para a constatação (plausível) do viés misógino na obra de ambos.
Por fim, a última fase dos romances de Roth – a partir dos anos 2000 até o fim da década – tematizou a decrepitude corporal proveniente da velhice somada à incompatibilidade entre desejo sexual e sua correspondente consecução. Os nêmesis de Roth transbordaram, no conjunto final de seus romances, em personagens abalroadas por doenças, homens-fantasmas carregados de misantropia sobrevivendo às expensas de memórias vacilantes e longe das grandes cidades, solitários e melancolizados pela incapacidade de se coadunarem à vida na era da aceleração dos algoritmos... Em suma, o recolhimento bucólico de Roth, nos anos finais de vida, e sua decisão em cessar a lavra ficcional (2010) demostra que o desterro também pode ser, outrossim, uma vocação.

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Última edição brasileira de livro célebre de Roth

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