domingo, 17 de junho de 2018

Greve dos caminhoneiros: todos juntos em defesa da ordem!

Ensaio
Coletivo Transição, agrupamento antissistêmico de ativistas.



Que lições tiramos desta verdadeira crise econômica e institucional que o país viveu por 10 dias? A maioria da sociedade foi surpreendida pela greve dos caminhoneiros. 2 milhões deles, sendo 600 mil autônomos: categoria importantíssima para o país, já que quase todo o transporte é feito sobre rodas, pauperizada e sujeita a terríveis jornadas de trabalho e perigos. Para o governo não deveria haver surpresas: ignorou por meses as reivindicações da categoria, desenvolveu a politica de American First (EUA em primeiro lugar) da Petrobras, superfaturou os preços dos combustíveis, diminuiu sua capacidade de refino interno, exportou e vem exportando óleo cru e importando gasolina de acordo com o preço do dólar, gerou desemprego e, com isso, onerou o custo dos transportes.
A população viu na greve da categoria a expressão legítima de seus anseios por uma mudança na politica de preços e por uma mudança do governo. Rapidamente muitos trocaram os perfis em suas redes sociais por caminhõezinhos com o slogan “Somos todos caminhoneiros”. E, mais uma vez, a voz do povo estava correta. Os caminhoneiros responderam divulgando uma pauta abrangente que exigia o fim dos aumentos dos combustíveis e a saída de Temer. Com a magnitude e efetividade do movimento, o Congresso apavorado cortou o PIS-Confins. O poder judiciário (desde o início deste governo muito bem com aumentos exorbitantes) – destaque para o ex-advogado do PCC e tucano Alexandre de Moraes, hoje ministro do STF – se apressa em aprovar leis e multas contra a greve. E o governo mais uma vez aposta em sua linha de enrolação e propaganda e assina um acordo com os donos de frotas. E através da mídia tenta fazer o movimento recuar com migalhas, e ameaça repressão aos que não aceitam as medidas. Até aqui todos cumpriram adequadamente o seu papel.
Paralelo a todo esse processo, onde estavam a direita e a esquerda, seus partidos e entidades? E as organizações nacionais de trabalhadores que tem como razão de existir o apoio, organização e representação de seus interesses imediatos e históricos? A extrema direita rapidamente defende a consigna dos caminhoneiros de “Fora Temer” e tenta alimentar a proposta de intervenção militar. A CUT, além de centrais burocráticas e cartoriais (Força Sindical, UGT, CTB, CSB, etc.), emite somente no dia 25 de maio, 5º dia da greve, um comunicado se colocando para servir como “mediadoras na busca de um acordo que solucione o caos social para o qual o país caminha”!
Isso mesmo! Em vez de se posicionar contra a política do governo e disputar as consciências e corações dos caminhoneiros com apoio de outras categorias de trabalhadores na superação da perspectiva corporativa e fragmentada, as centrais sindicais citadas resolveram ficar à margem do jogo e se oferecer como árbitros. Uma vergonha sem fim. Lentamente puxadas pelos petroleiros e pela população em geral, finalmente a bandeira correta de repúdio ao aumento dos combustíveis, expressão da política de preços da Petrobras, pelo “Fora Temer e seu Parente”, cresceu na mesma medida em que o governo percebeu a gravidade da situação e se rendeu à proposta específica dos caminhoneiros (com benefício maior para as grandes transportadoras, mas também pressionado pelo agronegócio).
Ainda existiu a tentativa de continuar em defesa das bandeiras gerais, mas o golpe jurídico sobre os petroleiros, com multas astronômicas, foi o tiro de misericórdia para acabar com a greve que eles iniciaram 3 dias após o anúncio das medidas do governo. A partir do 5º dia, o PT e os movimentos sindicais ligados a ele, que no início erroneamente chamavam o movimento dos caminhoneiros de locaute, preferiram não trabalhar pela disputa dos rumos do movimento e seu caráter anti-institucional pois avaliaram que é melhor esperar as eleições. Eleições incertas, não apenas pelos resultados, mas pela modalidade que poderá adquirir com o golpe em curso. Outro grave erro, pois apostam suas fichas no terreno controlado pelas classes dominantes e todo o seu aparato opressor, incluindo exército, judiciário e formadores de opinião. Parece haver uma santa aliança de todos, golpistas e golpeados, pela manutenção da ordem institucional atual. Uma tragédia colossal para os interesses dos trabalhadores e da maioria da população contra o domínio das grandes transnacionais e das classes dominantes nacionais e internacionais no Brasil. E se lançam no terreno eleitoral sem apoio organizado popular que poderia ter sido desenvolvido na greve e nos milhares dispostos a apoiá-la. E, claro, o PSOL, que embora fazendo uma leitura correta não mobilizou seus militantes para começar a organização das pessoas, o que também teria utilidade para a campanha eleitoral. Alerta aos lutadores: nunca se deve colocar todos os ovos em uma só cesta! Especialmente quando se tratam de eleições. O movimento se beneficiará muito mais se as eleições forem encaradas como meio, e não como um fim. Encontramo-nos com jovens que sozinhos haviam parado o trânsito, que impediram a venda de gasolina em postos, que engrossaram os pontos de concentração dos caminhoneiros. Imaginemos se os organismos de luta, os movimentos e os partidos estivessem fazendo o seu papel: mobilizando, ajudando a organizar e buscando dar coordenação às ações!? Votos, eleições e, fundamentalmente, mudanças substantivas, só serão conquistadas com organização de base.



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