quinta-feira, 21 de junho de 2018

Glauber, nosso futuro do pretérito

Ensaio
Por Alberto Luis, doutorando em Sociologia pelo IESP/UERJ.



A revista piauí de maio de 2017 trouxe uma instigante matéria assinada por Eduardo Escorel em razão do aniversário do lançamento de Terra em transe, de Glauber Rocha, em maio de 1967 (O massacre de maio, piauí nº 128). De um lugar privilegiado, o montador da película narra com miudezas os bastidores da recepção do filme nos meios intelectuais e por cabeças do Estado de exceção à época. Com acesso às gravações do debate de lançamento no Museu da Imagem e Som (MIS) do Rio de Janeiro, ao qual compareceram conhecidas silhuetas da crítica e militância – o próprio Escorel, Fernando Gabeira, Luiz Carlos Barreto, dentre outros – o autor tem a oportunidade de revisitar o contexto e reavaliar o legado de Terra em transe cinquenta anos depois. Passados os anos, o filme parece assumir uma dimensão histórico-sociológica que reforça a ideia do cinema como via de conhecimento da história e da realidade nacional.
O debate no MIS foi exaltado, reproduzindo microscopicamente a recepção interna e externa da alegoria glauberiana do terceiro mundo. O filme, que invocou tanto a esquerda quanto a direita, é representativo da trajetória pessoal e artística de Glauber, desancado por um e outro dos extremos ideológicos, até tornar-se a uma certa altura de sua vida um estrangeiro no seu próprio país. Um misto de radicalidade estética, originalidade incontível que justifica o título da excelente biografia por João Carlos Teixeira Gomes, Glauber Rocha, esse vulcão – e pathos terceiro-mundista, aliada a uma experiência com o Brasil profundo, torna Glauber não apenas um dos mais importantes, senão o mais importante, cineasta e crítico de cinema nacional. Mais que isso: dá a sua obra uma vitalidade artístico-formal e político-temática que faz com que não possa ser simplesmente denegada aos escombros da história intelectual. Num momento histórico em que, como um filme retrô, o Brasil volta a polarizar-se em torno a problemáticas sociais e políticas que parecem ter mudado apenas para permanecerem as mesmas (a desigualdade social, a fome, os pequenos bonapartismos, etc.), o cinema glauberiano revela-se dotado de uma dimensão transcendente que o revitaliza.
Terra em transe organiza-se em torno a polaridades que foram exploradas por Glauber sistematicamente na maior parte de sua obra: revolucionários e conservadores, arcaicos e modernos, nacionalismo e subserviência internacional. Mas elas aparecem no filme de maneira alegórica, isto é, significantes (imagens) e significados (sentidos) não coincidem diretamente. Para recorrer a uma definição de Ismail Xavier em “A alegoria histórica”, “a imagem aponta para um significado oculto e disfarçado, além do conteúdo aparente” (p.345). É assim que em uma Eldorado imaginária, o poeta Paulo encarna os dilemas de uma intelectualidade dividida entre a descrença na revolução, a conversão à militância e o apartamento do povo. Oscila entre estar a serviço de um político conservador, Porfirio Díaz, e um populista, o Vieira. O subalterno aqui não pode falar, e, em uma sequência antológica, o intelectual tapa a boca do homem do povo, mira a câmera e dispara: “Isto é o povo! Um imbecil, um analfabeto, um despolitizado”. Por fim, Paulo opta pela via populista, convencido de que o conservador Porfírio Díaz tem limites de classe intransponíveis. Porém, o populista Vieira capitula e o intelectual desesperado exorta os outros a pegar em armas, razão pela qual acaba morto.
Toda a miséria material e espiritual do Brasil de todos os tempos está ali; e Glauber não faz concessões à esquerda e à direita, tal qual um superego social. Violenta e intransigente, geneticamente programada para oprimir, a direita encontra-se com certos setores da esquerda no autoritarismo e no tipo de relação instrumental que ambas mantém com o povo, esse grande espectador. Terra em transe coloca questões – e em certa medida as soluciona – que em outro espaço-tempo seriam postas por sociólogos, filósofos, disciplinares em geral: há ali um diagnóstico de época, uma avaliação da correlação de forças sociais, um profundo entendimento dos afetos envolvidos na trama político-social, uma crítica do saber e do fazer da esquerda (des)organizada. Terra em transe deveria ser para nós, na ausência completa de exemplares livrescos dos modelos europeus, um diagnóstico da nossa condição político-social estrutural, da nossa situação afetiva e do nosso ethos.
Emergindo das profundezas do inconsciente coletivo para onde foram recalcados, filme e diretor despontam incomodamente no imaginário da intelectualidade brasileira como um tabu: Glauber é o antepassado mais contemporâneo da cultura nacional e Terra em transe o futuro do pretérito dos nossos dilemas. A afirmação contrasta com a recepção do seu legado desde a sua morte aos dias de hoje, conforme bem descreve o próprio Escorel: “O que não pode ser negado é que os filmes de Glauber […] não envelhecem bem […] Talvez não seja exagero dizer, como fez Paulo Paranaguá há alguns anos em seu blog do Le Monde, que 'os filmes de Glauber Rocha […] desapareceram do radar das novas gerações de cinéfilos'”. Com a devida retificação, poderia dizer o falecido diretor acerca de si mesmo e da recepção da sua obra, o que a respeito de si próprio dissera outro renegado, Sousândrade: “entristeci – decepção de quem filma 50 anos antes”.



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