domingo, 3 de junho de 2018

Ciro Gomes, o príncipe

Ensaio
Por Thiago Arrais, que mora no Ceará.



Ciro Gomes é um “animal político”, menor apenas do que Lula no cenário brasileiro. Não se trata, somente, de fazer da política carreira e ofício (há muito mais gente neste bonde), mas de saber transitar, servindo-se disso, pelas múltiplas camadas do espectro político do país. Num certo sentido, Ciro é ainda mais desenvolto que Lula nesse malabarismo das contradições: apenas num recorte recente, aquele que já foi o homem forte de Tasso Jereissati e FHC, sentou-se ao lado de Luciana Genro, elogiou Boulos, foi elogiado por Manuela D'Ávila, jantou com Haddad, comportou-se como um leal aliado de Lula e Dilma. O homem que diz querer banir o fisiologismo do golpista PMDB tem, como seu possível vice, o atual vice-presidente da Fiesp, que liderou o golpe à Dilma e ao PT e é quadro do PP (o mais corrupto partido político do país de acordo com o TCU). O candidato que já conta com o voto de Caetano Veloso e dá palestra para o público ambientalista do Teatro Oficina, é o desenvolvimentista de estreitas relações com grandes empreiteiros da construção civil e do agronegócio, tendo sido há até pouco tempo alto executivo da CSN, liderando a malfadada e superinflacionada construção da Transnordestina.
A animalidade política de Lula e de Ciro distingue-se, contudo, num ponto: Lula projetou-se num contexto de representatividade social, tem o lastro da militância política atrás de si. Ciro, como um self made man, sempre soube fazer da política “seu caminho só, único”. Atrás de Ciro não há ninguém, apenas ele mesmo. Quem é do Ceará, como eu, sabe que Ciro, e o seu clã Ferreira Gomes & Agregados instalado no poder do estado há já muitos anos, dialoga pessimamente com setores organizados da sociedade: sejam professores, policiais, profissionais da cultura ou da saúde, etc. Há em sua entourage uma forte natureza repressiva. Ciro e sua turma mandam no Ceará e, dentre seus feitos, nos quais as noções de conciliação e cooptação se confundem, consegue até mesmo eleger um governador do PT no estado (mesmo com boa parte do PT local contra!). No Ceará, aliás, o que podemos verdadeiramente chamar de esquerda (a ala mais progressista do PT, todo o PSOL e outros partidos e movimentos sociais) é oposição ferrenha ao Ferreira Gomes way of life. Mas o tabuleiro está armado: Ciro & sua gente são exímios cooptadores de almas políticas. Tem a habilidade de saber escolher bem seus aliados e inimigos, apostando num leque diverso, rigorosamente organizado e centralizado em seus objetivos. Despreza o que não produz vantagem. E parece perceber que é assim que a banda toca no Brasil: como quem rege uma caótica sinfonia de interesses contrários e cresce com isso. Não é à toa que Ciro gosta de citar O príncipe, de Maquiavel. Ele é o próprio.

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