quinta-feira, 17 de maio de 2018

Marx 200: um prólogo

Ensaio
Por Betto della Santa [*]

"O amor é o desejo de se doar – e não o de receber – algo. E amar é a arte de produzir algo de novo a partir das possibilidades de outrem. Para isso, são necessários a admiração e o afecto do ser amado. Mas é sempre algo factível, ao alcance das mãos. O desejo excessivo de ser amado tem de facto muito pouco a ver com aquilo que o verdadeiro amor realmente é" (Bertolt Brecht).



Quem diria? Dizer – ou escrever – “Marx 200”, depois do 200° anúncio de sua morte, não deixa de ser uma das ironias da história que, muito possivelmente, provocaria uma apaixonada gargalhada do próprio Sr. Karl Heinrich Marx. Mas, provavelmente, seria um riso algo nervoso. Oras! Diferentemente de zenbudistas ou vegetarianos, Marx não gostaria de assistir suas ideias e seu programa perdurar, e se prolongar, para além de seu próprio espaço social e tempo histórico. Enquanto for a filosofia insuperável de uma época será, também, sintoma incontornável de que a necessidade e urgência de abolir a exploração, opressão e dominação tampouco foram superadas. 
Contudo não deixa de ser este triste quinhão – horizonte nublado do presente – a força que nos impele a arrancar alegria ao futuro. Para todos os efeitos Marx permanece não propriamente uma referência parda mas, sobretudo, ilustre incógnita desta época. Nascido na segunda década dos 1800, Marx era filho de uma dona de casa de Gelderland e um advogado da Renania, ambos reconvertidos de judeus em luteranos. Oriundo de um núcleo familiar relativamente próspero da pequena burguesia, na região mais avançada e moderna do que hoje constitui o território alemão, Marx formou-se nas universidades de Bonn e Berlim em contato com a mais alta teoria da época. Não é o lugar – ou hora – para se deter em minúcias de sua vida e obra. Passemos, então, ao grão.
O espírito de Karl Marx se formou ao redor da prática da crítica e do projeto da revolução enquanto esferas indissociáveis de refundação da própria existência. Uma crítica de triplo caráter. Foi preciso terçar espadas com os campeões das tendências adversárias para trilhar seu caminho. No combate cerrado às concepções alemãs, às práticas francesas e ao terreno inglês Marx forjou as próprias armas como litigante apátrida ainda em vida, mas, mais que tudo, um internacionalista. A filosofia hegeliana, a política de Proudhon e a economia de David Ricardo foram os seus alvos. Os conteúdos práticos, expressos por tais formas teóricas – da fetichização do aparato estatal à reificação das relações sociais, passando pelo estranhamento de si –, eram o objeto final da crítica. Mas o espírito necessita se fazer carne ⸺ da interpretação crítica à transformação revolucionária.
Se na Coroa prussiana a razão de Estado falou o idioma da religião, a insurgência contra o despotismo absolutista precisou se traduzir em crítica da divindade. O celestial significado da palavra hier/arquia – poder do sagrado – revelou-se, então, em seu sentido mais mundano. Mas se Kant fora responsável por destronar o reino de deus foi Robespierre o vetor da decapitação do rei. O deslocamento a Paris não deixa lugar a dúvidas: pensar tal os alemães e fazer qual os franceses. Mas foi por sugestão de Friedrich Engels – uma história de estricta camaradagem, sem paralelo – que Marx passou a escutar o som de uma nova linguagem com os clássicos da economia política. Após a experiência da censura, do exílio e da perseguição não à tôa foi Londres seu destino final. Da revolta dos tecelões da Silésia à rebelião dos cartistas até a insurreição communard de Paris: clubes e sociedades, órgãos de correspondência e redações de jornal, comitês de enlace e partidos.
O fim da filosofia – não da história – passava, necessariamente, pela realização da política. Uma outra filosofia, reinventada já para além das cátedras acadêmicas, ou uma nova política, reorganizada longe dos gabinetes estatais. Uma teoria crítica e uma práxis revolucionária não podem se autolimitar a constituir uma razão de Estado ou um cânone universitário. Por detrás destes intentos de burocratização, e até de mercantilização, do legado de Karl Marx, repousa uma pasmaceira sonolenta como concepção de história. Após quase três décadas de colapso da União das Repúblicas Soviéticas Socialistas – que de-há muito pouco tinha de socialista e nada possuía de soviética – já não existe portentoso aparato de Estado ou grandes máquinas partidárias como estruturas em funcionamento contra movimentos sociais de autoemancipação dos trabalhadores. Mas por outro lado o divórcio estrutural entre a teoria e a prática tampouco fez bem ao marxismo.
Com um cauteloso otimismo e genuína alegria desde o Brasil assistimos e participamos de uma série muito animada de colóquios, congressos, tertúlias acadêmicas e lançamentos editoriais associados à efeméride dos 150 anos da edição do Livro I d’O Capital e à comemoração de 100 anos da Revolução de Outubro. Aliás, por exemplo, não foi sem uma ponta de orgulho que hoje recordamos da autêntica audácia que significou batizarmos o já tradicional Colóquio Marx e o Marxismo em 2017, realizado pelo coletivo do Núcleo Interdisciplinar de Estudos e Pesquisas – Niep-UFF, Niterói, Rio de Janeiro –, com o título “de O Capital à Revolução de Outubro (1867-1917)”. Se não podíamos sustentar o gesto, ao menos a intenção de reunificar a crítica à ordem do capital ao projeto da revolução do trabalho ficaria registrada. Ainda e quando houve públicos distintos para temas d’O Capital e Outubro. Muitas iniciativas semelhantes tiveram lugar no país.
Mas o contraste é evidente, lancinante. Não houve qualquer termo de comparação possível, em profundidade e extensão – quantidade ou qualidade –, de atividades extra-acadêmicas e não-editoriais que tivessem lugar em sindicatos, movimentos sociais de trabalhadores e/ou partidos políticos identificados com a luta pelo socialismo que fossem sequer dignas de nota, infelizmente. Se serve de consolo, nos Estados Unidos e na Europa, além de consagradas atividades científicas relacionadas à concepção materialista da história, aí sim se fizeram notar eventos e congressos deste tipo no âmbito de organizações coletivas no terreno político da esquerda socialista radical. Mas, ainda assim, igualmente sem qualquer vestígio de uma audiência ou participação de massas. São tempos difíceis, é verdade. Mas tampouco foram fáceis os anos vividos por Marx e Engels, Lenin e Trotsky, Rosa Luxemburgo e Antonio Gramsci. É preciso encontrar saídas e explicações.
É ao mesmo tempo alentador e preocupante que a principal iniciativa organizada nacional de luta e resistência contra o golpe de 2016 seja a replicação de cursos livres no interior das universidades ou coletâneas editoriais sobre…. As notícias mais alvissareiras vêm de outro lugar. Após os medíocres longa-metragens God kak zhizn (Grigori Roshal, URSS, 1965) e Marx und Engels (Wolfgang Böttner, Alemanha Oriental, 1979) foi um cineasta do Haiti – cantado por C.L.R James, n’Os Jacobinos Negros, e berço mundial da primeira revolução social negra –, Raoul Peck que – em pleno século XXI – lançou a esplêndida co-produção fílmica franco-alemã. Não é fácil compreender o porquê. Mas não deixa de ser curioso atinar para como chegou ao país. As corporações distribuidoras sequer cogitavam uma estreia comercial no Brasil quando um algo subterrâneo e espontaneísta movimento de cineclubes, circuitos alternativos e cinéfilos variados roubou a cena e subverteu o protagonismo à contramão da forma-mercadoria, colocando o filme em circulação não por ter nenhum negócio a fazer mas sim por ter muitas coisas a dizer a respeito. Capengando à retaguarda, em um ano de atraso, a máfia dos multiplex reparou a vergonha alheia.
O projeto internacional MEGA, da publicação – integral – das obras completas de Marx e Engels, por ora anuncia mais 250 volumes passiveis de edição. Cento e quarenta por realizar. A difusão especializada da letra do texto dos autores, a sua discussão qualificada e um novo despertar de interesse coletivo contam também já com aliados norte-americanos de peso, em plena Era Trump, a exemplo das revistas Catalyst e Jacobin com círculos de leitores no mundo inteiro e números que impressionam. Esta é uma das mais bem-sucedidas publicações da esquerda socialista radical na era contemporânea e, com certeza, a mais bem-sucedida da história dos Estados Unidos. Embora só tenha sido iniciada em Setembro de 2010 a sua audiência já atingiu 700 mil leitores visitantes por mês para a versão online e 15 mil leitores assinantes na versão impressa dentro e fora do país.
Novos desafios, velhos dilemas. Karl Marx dá nome a uma prática crítica e a um projeto revolucionário. Com contribuições em praticamente todos os terrenos do saber-fazer, porém, este nome não pode ser reduzido a nenhum deles: filosofia, economia, história, jornalismo, ciências sociais ou o que quer que seja. A perspectiva de totalidade segue sendo o que lhe confere o nexo uno e diverso, por um lado, e permite que a indissociabilidade entre marxismo crítico e revolucionário não perfaça um jogo de soma zero. Tampouco o marxismo pode ser identificado a aparatos ou líderes. Raymond Williams já alertara à intelectualidade para os perigos e as armadilhas de uma erudição desengajada ou de uma retórica dogmática. O marxismo legitimatório e o marxismo acadêmico, envoltos nos círculos partidários oficiais e nos corredores universitários institucionais, segundo Williams, deveriam ser superados por um marxismo operativo. O critério ulterior de uma práxis crítica e revolucionária seria – para Williams como para Marx –, um agir histórico, e não mental.
A ideia de realizar-se – através da auto-realização do outro – é comumente chamada como amor. Afinal de contas é disto que se trata, não é mesmo? Pessoas cuja auto-realização implica, delicada e vigorosamente, a fertilização recíproca da realização das demais. De alguma forma e em alguma medida é justamente o que busca Marx, enquanto o equivalente geral do amor. Ou o que alguns antes de nós chamaram já, talvez em analogia à economia política, “amor político”. A que se assemelharia algo de tal natureza, para além dos limites do eu – já extintas as barreiras de classe –, em direção ao conjunto do gênero humano mundialmente reconciliado consigo mesmo? Àquilo que – com pessimismo da razão e otimismo da vontade – ainda ousamos nomear por futuro. Sem por isso esquecer o passado ou distraidamente descuidar o presente – com amor e socialismo. O ano de “Marx 200”, afinal de contas – hoje tal qual como ontem –, não é mais que um começo.



[*] Betto della Santa é atualmente professor de teoria social na UFRJ, membro do Niep-UFF/Niterói e recém realizou um estágio pós doutoral na Universidade Nova de Lisboa.

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