quarta-feira, 30 de maio de 2018

A greve dos caminhoneiros e a esquerda revolucionária

Ensaio [*].
Por Rafael Massuia, professor de Sociologia da Universidade do Centro-Oeste (Unicentro), campus Irati-PR.



Se a greve dos caminhoneiros, que completa hoje 6 dias, e não dá ainda indícios claros do seu encerramento (e, muito menos, da “normalização”, que, segundo previsão de alguns analistas, poderá levar 2 semanas) não alcançasse nenhuma conquista efetiva, mesmo assim, teria sido de grande valia pelo inestimável aprendizado que forneceu para a classe trabalhadora e as esquerdas de forma geral.
Parte da esquerda, sobretudo aquela que gravita ao redor do PT, tem se visto diante de um dilema intransponível: apoiar os trabalhadores dos transportes parece ser o certo a se fazer, mas, como muitos entre estes tem entre uma de suas bandeiras o pedido de intervenção militar e/ou apoiam a candidatura presidencial de Jair Bolsonaro, a solução é cruzar os braços e fingir-se indiferente em relação à greve (mas não aos impactos e reflexos dela, naturalmente).
A proposta de “ação” desses setores da esquerda harmoniza-se perfeitamente com seu programa. Ora, as principais bandeiras desse movimento reforçam o pedido de mais democracia, retomada do crescimento econômico, distribuição de renda via programas sociais, etc. Num cenário em que o próprio conceito de democracia é colocado em xeque, seu discurso (e também sua análise da realidade) desmancha no ar.
E não há cobrança possível a ser dirigida a essa parte da esquerda senão a que reavaliem drasticamente suas posições. Não se tratam de análises pontuais equivocadas. Mas do realçamento de equívocos mais profundos, tornados mais evidentes diante da situação efervescente na qual se encontra o país. Diante da incapacidade quixotesca de fazer um diagnóstico da realidade, a resposta “social-democrata” é a de permanecer neutra, por não se tratar de um movimento que surgiu do interior da esquerda (e, lembremos, os grandes movimentos político-sociais em geral não possuem políticos claros em sua gênese, mas adquirem-no durante o processo). A prática política (ou, nesse caso, a inação) é tomada como um postulado a priori; a realidade que se vire para acomodar-se à análise futura, que deverá justificar a estratégia tomada.
Mas centremos nossa preocupação com os setores da esquerda que nos interessam: aqueles em condição de dar respostas efetivas, em sintonia com a gravidade e intensidade do momento histórico específico no qual nos encontramos – a esquerda revolucionária. Não confundamos a luta pela transformação radical da sociedade com a luta por democracia (ainda que esta possa – e deva – ser um dos importantes pontos articuladores da estratégia daquela); não confundamos a democracia formal, burguesa, com democracia substantiva, genuína, possível somente em uma sociedade emancipada.
Os sofridos trabalhadores dos transportes, submetidos a condições extremas de trabalho, revoltam-se, com razão, pelo fato de seus rendimentos verem-se corroídos entre os gastos operacionais de seu ofício. Com indignação e espanto, assistem a um aumento progressivo nos preços dos combustíveis, ao mesmo tempo em que o país acompanha com grande atenção às denúncias de corrupção de agentes públicos e privados. Nesse contexto, em que os discursos orientados à direita ganham amplo espaço nos meios midiáticos convencionais e alternativos (redes sociais, WhatsApp), não é nenhum espanto que os caminhoneiros vejam em soluções conservadoras a única saída possível.
O atual ciclo de acumulação capitalista tem revelado toda a barbárie que é capaz de produzir, em escala progressivamente global (com suas contradições adentrando, inclusive, no dito Primeiro Mundo). Assim como os trabalhadores estadunidenses e alguns países europeus, a massa trabalhadora no Brasil cansou-se de promessas vazias. De soluções paliativas e/ou temporárias. A mera retomada da política de preços vigente antes da catastrófica política flutuante (que só interessa aos acionistas) de Pedro Parente/Michel Temer não resolverá todos os problemas e é uma falsa resposta a médio e longo prazo.
A grande massa trabalhadora local (e também mundial) não aguenta mais do mesmo. O desperdício diário de vidas humanas plenas de potencial em hecatombe ao deus capital precisa ser combatido em sua raiz. O “golpe militar”, visto não como um episódio concreto, mas como a maximização das expectativas coletivas da substituição do estado atual das coisas, é um grito de desespero que só não se faz ouvido por aqueles insensíveis às suas demandas.
É esse o momento da esquerda revolucionária se posicionar ativamente. Não só em apoio e solidariedade à luta dos caminhoneiros, mas na perspectiva da construção de um amplo programa nacional que busque congregar os diferentes movimentos e segmentos engajados. É preciso que coloquemos nosso programa revolucionário, da construção de uma sociedade pautada no trabalho livre e associado, aquela em que o “o livre desenvolvimento de cada um é a condição para o livre desenvolvimento de todos”.
Claro, até que isso, de fato, possa ser implementado, muitas medidas e ações intermediárias serão necessárias, e é preciso que elas sejam também explicitadas (forte programa de industrialização, reforma agrária, produção de bens alimentícios para o mercado interno, ampliação dos direitos trabalhistas, criação de comissões fabris de estruturação horizontal, federalização da educação escolar, política cultural de amplo acesso à cultura universal e local, etc.). Mas, nos momentos em que as contradições se agudizam e o pretendido e falacioso “equilíbrio sistêmico” é colocado em xeque, é um dever histórico essencial que assumamos a defesa da construção de um programa de ação concreto, que tenha como proposta central a transformação radical desta sociedade.



[*] Publicado em 27 de maio de 2018 como Nota Pública do Espaço Marx Irati-PR diante da greve dos caminhoneiros.

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