sexta-feira, 23 de março de 2018

Um Conto Chinês

Crítica
Por Marcia Malcher, pesquisadora e crítica de cinema.

Capa do DVD brasileiro

O filme Un Cuento Chino (Um Conto chinês), coprodução Argentina/Espanha, conta a história do encontro inusitado e completamente por acaso de Roberto (Ricardo Darín), um vendedor de ferramentas, com Jun, um chinês perdido na Argentina que está à procura de um tio.
Roberto não se acostuma com gente, leva uma vida de manias… E ao se ver obrigado a hospedar Jun enquanto este não encontra o tio, ele o faz contrariado. A relação de incomunicabilidade entre os dois se deve tanto à estranheza de idiomas como à convivência forçada, de completo desajuste.
Na China, Jun era um artesão que trabalhava pintando brinquedos e estava prestes a casar. No entanto, ele perde a noiva, morta por uma vaca que caiu do céu (da mesma forma que Jun “despencou” na vida de Roberto). Depois disso, resolve ir atrás do único membro vivo de sua família, o tio que mora na Argentina, tendo apenas um endereço.
Roberto se esforça para afastar as pessoas. É um veterano da Guerra das Malvinas que ao voltar para casa depois da derrota para a Inglaterra, vê que seu pai morreu às vésperas da sua chegada. E assim como esse episódio da sua vida, coleciona outras notícias que segundo ele comprovam como a vida não faz sentido. Entre elas, aquela de uma perseguição a contrabandistas de vacas na China que acaba causando uma pane na aeronave usada para transportar as vacas, de onde escapam algumas delas em pleno voo.
E essa era a notícia da vida de Jun. Enquanto Roberto, após ter passado por um episódio absurdo, trancou-se em si mesmo e começou a colecionar outras notícias semelhantes, como uma forma de confirmar para si a 'falta de sentido' do mundo e o manter na letargia da solidão, Jun, depois de perder a sua noiva, ou aquela pessoa que era toda a expectativa de ter uma família, decide buscar 'um sentido', decide ir à procura do tio. As duas personagens funcionam como opostos espelhados. A virada em 180 graus da câmera na abertura que traz o espectador da China para a Argentina é emblemática nesse sentido.
Durante todo o filme, somos levados a acreditar que o estrangeiro, Jun, chinês, que não fala uma palavra de espanhol, que não consegue achar o tio, é quem está perdido. Mas, na verdade, a forma de vida de Roberto demonstra um 'não estar' e um 'não se comunicar com o mundo' que se mostra uma real falta de rumo. Oras… Se a vida não tem sentido nenhum, para quê vivê-la?!…“Quem está perdido?’’.
Jun é o humano por detrás de um recorte de jornal. É o sentimento por detrás do absurdo. É o que a notícia oculta. É o que Roberto se negava a ver. Ele fantasiava aquelas histórias, imaginando-se ator em todas elas, mas não encenava a sua própria vida. Reproduzia o absurdo no imaginário, com distanciamento, sentado sozinho em sua mesa, recortando jornais.
Hoje vivemos em um mundo de absurdos. De histórias que se tornaram espetaculares. Um mundo pós-utopia, pós-humano, pré-tecnológico… Enfim, dito pós-moderno. E aí o pós cumpre toda a sua função de desesperança. Se já vivemos o pós, o que mais se há de fazer?! Se a vida é sem sentido | ou é o que é (e tudo comprova isso), para quê nos esforçarmos em vivê-la?!
Talvez a lição mais valiosa deste conto seja a de que como seres humanos genéricos somos capazes de atuar no mundo e sob nós mesmos. Transformar e nos transformar. Não somos poeira cósmica pairando no universo movimentando-nos sob a força dos planetas e astros. Pelo contrário, somos compostos de matéria humana em constante e intensa relação social e vigor ativo. Enquanto Roberto se deixou pairar (ou melhor, parar) diante da vida porque se convenceu que a própria ação era inútil diante de um episódio “sem sentido”, Jun, diante de uma situação semelhante e apesar do sofrimento, optou por buscar o único membro da família que restou, um recomeço e um novo lugar, n’outro lado do mundo. E que ironia… A vaca, animal responsável pela tragédia de Jun, acabou sendo a chave de salvação para Roberto.
Há muitos que levam uma vida igual à do ferramenteiro, com seus hábitos regrados, mantêm o costume diário de recordar imagens e notícias do absurdo, guardando-as em seus diários (repletos de vidas alheias). Até que… O absurdo caia à sua cabeça…
Mas não pensem que Um Conto Chinês é um filme sisudo. É uma bela comédia pra fazer rir e pensar (!).

Título original: Un cuento chino
Duração: 93 min
Gênero: Comédia
Direção: Sebastián Borensztein
Ano: 2011

Roberto e Jun

Um comentário:

  1. Prezada Marcia, assisti tal filme numa madrugada fria tentando vencer minha insônia. Quase pronto pelos fluidos de Morfeu vi - tela de TV - uma vaca cair do imenso céu. A curiosidade venceu-me o sono. Senti imenso pesar pelo "destino" que levou casal apaixonado a tão trágico momento. Ao final, fui perceber a poesia da alteridade e imprevisibilidade das experiências vividas por nós humanos. Precisamos sim! Precisamos uns dos outros. Muito me fez gosto vossa análise, sobretudo: "Seres humanos genéricos somos capazes de atuar no mundo e sob nós mesmos. Transformar e nos transformar." Abraço fraterno. Paulo Magon.

    ResponderExcluir

Adicione seu comentário.