terça-feira, 20 de março de 2018

Nova tradução brasileira dos Manuscritos econômico-filosóficos, de Karl Marx

Resenha
Por Francisco Xarão, professor de Filosofia do Instituto de Ciências Humanas e Letras, Unifal-MG.

Capa da nova edição da Martin Claret

Com a tradução de Luciano Martorano e com textos de abertura de Ingo Elbe e Paulo Denisar Fraga, acaba de chegar ao mercado editorial brasileiro, vertidos diretamente da edição alemã das Obras Completas de Marx e Engels (MEGA2), os Manuscritos econômico-filosóficos, de Karl Marx (Editora Martin Claret, 2017, 336 páginas).
Deve-se a David Riazánov a descoberta, em 1923, entre o espólio literário de Marx e Engels, destes escritos de Marx. O próprio Riazánov, editor russo criador da primeira edição das Obras Completas de Marx e Engels (MEGA1), de início não compreendeu suficientemente o alcance e o lugar destas anotações na cronologia da obra marxiana. Ele publicou em 1927 uma parte desses manuscritos com o título “Trabalho preparatório à 'Sagrada Família'”, pensando, então, tratar-se de notas prévias de Marx para o trabalho que redigiu em conjunto com Engels em novembro de 1844.
Os Manuscritos econômico-filosóficos, Manuscritos de Paris, ou simplesmente Manuscritos de 1844, como também são referidos pela crítica, é uma obra inacabada de Marx. Redigida, provavelmente, entre abril e agosto de 1844, em Paris, quando Marx tinha apenas 26 anos de idade, o texto, composto por três cadernos, somente foi publicado, em seu formato integral, em 1932 na MEGA1, com o título Manuscritos econômico-filosóficos do ano de 1844 (doravante MEF).
O primeiro caderno apresenta, sobretudo, excertos de economistas clássicos (Say, Ricardo, Smith) acerca de salário, lucro e renda entremeados de reflexões e notas críticas do próprio Marx sobre trabalho alienado e propriedade privada. Do segundo caderno, incompleto, restou conservado um fragmento de anotações de Marx sobre a relação entre capital e trabalho em que aparece, pela primeira vez, a síntese que será repetida, em 1859, na “Introdução” de Para a crítica da economia política e, depois, em 1867, no livro I de O capital, de que o modo de produção capitalista apresenta-se como uma “imensa acumulação de mercadorias”. Nas poucas páginas que sobreviveram, Marx escreveu: “O trabalhador produz o capital, o capital produz o trabalhador, portanto, ele produz a si mesmo, e o homem como trabalhador, como mercadoria, é o produto do conjunto do movimento” (p.211). O terceiro caderno, o mais longo entre os três, discute criticamente a propriedade privada, o trabalho e o comunismo. Apresenta uma crítica da dialética e da filosofia de Hegel em geral, uma seção sobre necessidades, outra sobre divisão do trabalho e uma seção curta sobre dinheiro. Há ainda, na sequência, um prefácio, que nas edições foi posto no começo do conjunto dos manuscritos, e uma exposição sucinta do capítulo final da Fenomenologia do espírito, de Hegel, que normalmente não é incluído nas edições ou figura como um quarto caderno.
A relevância desta obra inconclusa de Marx para a compreensão de sua trajetória intelectual e a genialidade de descobertas que somente serão esclarecidas com a leitura de O capital, pode ser medida pelo volume da crítica em torno da mesma. Despidas da roupagem hegeliana/feuerbachiana, a teoria da alienação é retomada em formulações posteriores de Marx, por exemplo, na análise do fetichismo da mercadoria, em graus mais aproximados das especificidades das relações sociais que a tornam possível.
Nesse aspecto, a nova edição brasileira é de leitura obrigatória para quem deseja entender o ponto de partida e de chegada da teoria da alienação em Marx. Isto por que ela disponibiliza a tradução de Luciano Martorano do texto de abertura de Ingo Elbe, publicado originalmente em 2015 em sua obra Paradigmen anonymer Herrschaft: Politische Philosophie von Hobbes bis Arendt (Paradigmas da dominação anônima: filosofia política de Hobbes a Arendt) em que o autor traceja os “níveis de significação e déficits de fundamentação do conceito de trabalho alienado nos Manuscritos econômico-filosóficos”.
O texto do professor de filosofia da Universidade de Oldemburgo, da Alemanha, mapeia as quatro dimensões da alienação, transita pela análise do trabalho assalariado, do dinheiro e da propriedade privada conforme tematizado por Marx nos MEF para apontar, em teses sumárias, a transmutação do conceito trabalho dos MEF para O capital. Este movimento é importante para indicar o que Elbe considera ausências ou lacunas de fundamentação teórica ou, como poderíamos dizer, um distanciamento semiológico entre os conceitos de trabalho alienado e de trabalho abstrato. Em vários níveis, apresenta elementos novos para a abordagem da teoria da alienação e, por certo, novas polêmicas em torno dos MEF.
A esse respeito, o texto inédito de Paulo Denisar Fraga, que faz a catalogação das edições básicas e traduções dos MEF num total de 7 idiomas, ajuda a entender a origem de velhas polêmicas em torno dos MEF que envolvem a própria teoria da alienação no jovem Marx. Além disso, revela, por exemplo, que o idioma português é aquele que mais vezes realizou traduções dos MEF diretamente da segunda edição das Obras Completas de Marx e Engels (MEGA2). Sobre isso, ressalta que até então esse idioma permaneceu à margem da consideração dos estudos europeus a respeito das traduções dos MEF. Também destaca que o título pelo qual agora conhecemos estes escritos de juventude de Marx, foi dado pelo novo editor russo das Obras Completas de Marx e Engels (MEGA1), Vladímir Adorátski, e é diferente da edição de Landshut & Mayer, que publicou tais manuscritos também em 1932, sob o título Economia nacional e filosofia: sobre as relações da economia nacional com o Estado, o direito, a moral e a vida burguesa (1844), uma versão que excluía o primeiro caderno. O valor destas edições é sublinhado por fundar os dois troncos genealógicos principais das publicações dos MEF.
Comparativamente a outros trabalhos de levantamento bibliográfico sobre o histórico das edições dos MEF, o segundo texto de abertura desta nova edição brasileira, do professor de filosofia da Universidade Federal de Alfenas, Paulo Denisar Fraga, se apresenta como o mais completo mapa que relaciona “edições básicas” em alemão e russo a traduções – que chama de “derivadas” – nos idiomas francês, castelhano, inglês, italiano e português. Embora não seja o objetivo declarado do autor, a leitura do caminho percorrido pelas várias edições do texto do jovem Marx, além de suprir algumas lacunas, faz correções pontuais em informações amplamente difundidas entre especialistas sobre as edições da obra. Além disso, arrola ampla bibliografia, levantada em acervos de onze países, e aponta criticamente para influências externas às escolhas editoriais do formato dos textos dos MEF.
Assim, seja pelos relevantes estudos de abertura de Elbe e Fraga, seja pela qualificada tradução de Luciano Martorano – que já traduziu obras como Teoria materialista do Estado, de Joachim Hirsch (Editora Revan) –, esta nova edição brasileira dos MEF tem todos os elementos para se tornar obra de referência para os especialistas nos estudos do jovem Marx e leitura indispensável para o público em geral interessado em conhecer os primeiros escritos sobre economia política e a formulação filosófica fundamental de toda a vida de Marx, de onde desdobrou a sua teoria do ser social.

*Texto publicado originalmente em Revista Esquerda Petista, Volume 8, p.92-93, novembro de 2017.

O jovem Karl Marx

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