sexta-feira, 9 de março de 2018

A hecatombe de Vitória e a luta republicana em Pernambuco

Ensaio
Por Gutemberg Miranda, professor de Filosofia da UFAL.

Igreja do Rosário, local da hecatombe

Em 1880 o país fervilhava com as demandas abolicionistas e republicanas a permearem a agenda política nacional. Pernambuco viveu com muita intensidade os anos que antecederam tanto a proclamação da república, quanto a abolição da escravidão. Um fato silenciado por nossa historiografia regional e nacional pode servir de parâmetro para compreendermos o clima do país naquele período: a hecatombe de Vitória em 1880 revela a perversidade de nossas elites na busca pelo poder e o quanto a nossa democracia penou para ser implantada num processo tortuoso que culminou com a proclamação da república. A tese de que os brasileiros assistiram à proclamação “bestializados” não tem fundamentos historiográficos quando olhamos a história pernambucana.
Os acirramentos políticos e ideológicos vividos desde os anos em que Tobias Barreto foi fortemente perseguido por defender ideais democráticos, e as brigas de facções no interior do partido liberal em Pernambuco, que descambaram numa chacina sem precedentes na história política de nosso país, revelam o alto custo que os ideais democráticos sofreram na luta pela implantação da república em no Brasil. A hecatombe de Vitória deve ser lembrada como um movimento político de primeira grandeza, e seu impacto deve ser comparado com os eventos de 1817, 1824 e 1848.
Em 1880, a luta entre democratas e leões paralisou o estado, gerou revolta popular em Recife, mobilizou a imprensa e redefiniu o quadro político pernambucano. Segundo Félix Cavalcanti de Albuquerque, “A 27 de junho último (1880), na cidade de Vitória, comarca de Santo Antão, deu-se um fato horroroso. Nunca a história das campanhas eleitorais de Pernambuco se manchou tanto de sangue”. Outro registro importante foi o da própria vítima, Ambrósio Machado, gravemente ferido na hecatombe de Vitória: “No infausto dia 27 de junho deste ano de 1880 foi assassinado barbaramente meu infeliz cunhado Belmino da Silveira Lins (Barão de Escada), em Santo Antão, onde foi comigo disputar uma eleição contra o governo, que sustentava nesta província a família Souza Leão, no domínio liberal”.
Em que medida tais fatos políticos em Pernambuco influenciaram os destinos republicanos da nação? Podemos afirmar que o movimento republicano em Pernambuco ganhou força a partir de hecatombe de Vitória, e que tal movimento passou a ter contornos populares, civis e democráticos. Se de início não podemos tratar as contradições no interior do partido liberal como um jogo de interesses puramente eleitorais e oligárquicos, com a hecatombe, o movimento republicano ganhou impulso em Pernambuco e projetou importantes lideranças sobreviventes e apoiadores dos “democratas” contra os “leões”. A República passa a ser assunto de interesse público, da esfera pública e não de círculos fechados e elitistas. A instabilidade gerada pela violência da coroa faz recrudescer a insatisfação popular e a luta republicana se aproxima do povo, e não apenas de uma elite intelectual e política.
A partir de Pernambuco não se pode dizer que não houve derramamento de sangue na luta republicana nas vésperas de sua proclamação. 1880 foi um marco na luta pela república em nosso país e o que se seguiu a partir dessa data foi uma luta mais ampla e popular contra a coroa. Luta de resistência que ensejou contradições reais entre republicanos e monarquistas. As tentativas imperiais de fortalecer os conservadores e monarquistas não eram bem-vistas por amplos setores da sociedade pernambucana, traumatizadas com a hecatombe de Vitória. A monarquia deixou seu rastro de sangue em Pernambuco, e as vítimas dessa tragédia representam até hoje símbolos de uma política democrática e antiautoritária. A luta republicana em Pernambuco não era fundada apenas em interesses econômicos, como na maioria das outras províncias. Em Pernambuco, vimos se formar um movimento político capaz de desestabilizar o império, uma aliança entre setores populares e as elites intelectuais e políticas do estado, em disputa contra o conservadorismo e autoritarismo monárquicos.

Ambrósio Machado,
do Engenho Arandu de Baixo

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