segunda-feira, 5 de fevereiro de 2018

Lições e rumos para 2018

Ensaio
Por Ana da Hora, ativista social.



O capitalismo se prepara abertamente para abandonar todo e qualquer papel social. Empresas estão assumindo a guerra e a pilhagem no Oriente Médio, por exemplo. Prisões e todo o sistema de saúde passam para empresas nos EUA. Mas essa tendência vai demorar a ser percebida mundialmente e vai ganhar força proporcional ao avanço da automação. A burguesia que depois da 2ª grande guerra se esforçava em aparentar ser a guardiã do humanismo, abandona definitivamente esta máscara.
Por isso, o que estamos presenciando é o abandono e/ou desmonte de organismos como a Unesco. Todo e qualquer organismo, seja local ou mundial, que não responder aos interesses de lucro, controle ou repressão estão sendo abandonados sem fundos ou sendo literalmente fechados. Devido ao avanço das forças produtivas e tecnológicas, eles perceberam que sua única saída é obter controle absoluto através da transferência das funções sociais para uma(s) empresa(as). Desmantelando o próprio Estado que foi criado desde os primórdios do capitalismo para melhor gerir a sociedade. Com isso, dilui-se o cuidado, controle e serviço sociais e dificulta-se ainda mais o surgimento de bases socialistas, já que os organismos coletivos começam a ser desmantelados. É isto ou arriscar a qualquer momento vê-los cair em mãos dos trabalhadores tão agudas estão as condições objetivas.
Essa transferência gradativamente das atividades da sociedade para empresas vem ganhando contornos mais claros no governo Trump, mas começou bem antes, inicialmente com presídios. Da carceragem à Saúde, a ideia é capitalizar tudo… Por isso, aqui no Brasil – onde o Estado controla muitos setores de serviços – a sociedade e as infraestruturas foram colocadas à venda. A maioria da classe média está sendo ganha para o projeto de desmonte do Estado graças à outra tática igualmente nova: a cooptação e a doutrinação massiva através da mídia. Num uso sem precedentes da psicologia social e formação de opinião. Nada disso seria vitorioso não fosse a união de objetivos dos 3 pilares do capitalismo: governos, poder judiciário e militares.
No caso dos governos, eles são premiados com a corrupção e os altos salários e benefícios que os elevam à condição de casta social e facilitam seu distanciamento de qualquer ideologia nacionalista e propiciam sua ruptura com qualquer relação verdadeira com ideias humanitárias. Transformaram-se em homens de negócios políticos, a maioria sendo descendente de famílias tradicionais ou então tendo migrado do negócio da terra ou da igreja, não tendo dificuldades em assumir seus novos papéis. Aqui também com conotação própria nacional, corruptos sem formação ideológica e moral já dedicados ou criados desde o nascedouro ao negócio de enganar e mentir pra viver.
Em outro aspecto, estamos sendo brindados com uma experiência completa de controle de comportamento através da mídia. É um investimento meticuloso, lento, e que exige uma coordenação extrema de eventos e demonstra um controle nunca visto da psicologia aplicada às massas. Agora, por exemplo, a prisão de Maluf (já em sentença de morte e sem devolver um tostão), ou seja oferecido em sacrifício (provavelmente em troca da família manter todo o produto do roubo ou algo assim), prepara as massas para aceitarem a prisão de Lula como justa e imparcial.
Esse controle da opinião pública que tem a ajuda das grandes empresas de rádio e televisão agora é feito e organizado meticulosamente, medido e avaliado em resultados. Por isso, quando Temer quis votar a Contrarreforma da Previdência em dezembro a todo custo (a Santa havia prometido a ele uma ereção), seus aliados se negaram pois sabiam que iam perder. Então, lançaram uma campanha mentirosa culpando o funcionalismo (que mesmo sendo retirada por ser caluniosa) que foi suficiente para mudar parte da opinião pública e animar os parlamentares a marcar para o carnaval (época mais relaxada das massas) a decisão. Por isso, torna-se necessário começar a responder a essas táticas também, pois de fato as mentiras estão sendo repetidas até serem aceitas como verdade.
O balanço de 2017 deve ser também de colapso do último organismo de massas que não havia sido cooptado completamente no governo Lula: os sindicatos. Numa sessão às pressas, de madrugada, um dia antes da aprovação da reforma trabalhista, reinstituiu-se o imposto sindical. Mas há que se perguntar a que preço essa concessão vai custar ao movimento sindical e de massas. Sabemos que após uma greve geral vitoriosa, em vez de se intensificar o movimento, o mesmo foi esparsado e finalmente diluído, até mergulhar na total paralisia.
Vamos avaliar o grau de entrega ao sistema e capitulação desta casta sindical, exatamente agora quando seu principal articulador se encontra como a bola da vez a ser destruída. Este momento também possui outra singularidade: a emergência do fascismo provocou da parte das esquerdas a lição de que sua devastação é tao destruidora e ilimitada que deveria ser o único momento que exigiria uma frente única de todos.
O problema foi que ao longo dos anos depois da 2ª grande guerra, este recurso foi usado como desculpa para uniões com correntes liberais e obtenção de ganhos eleitorais, e se diluiu seu princípio. A questão que está colocada é: “a repressão à mobilização (já aprovada legislativamente ferindo todos os princípios democráticos) e a condenação política de maneira judicial de Lula dia 24 (ferindo todos os princípios democráticos) justifica uma frente única de todos?”. Embora a resposta devesse ser fácil, existem elementos que a dificultam e a transformam em um paradigma: Lula e a burocracia sindical não são bastiões de democracia e princípios, pelo contrário. Em sua militância diária sempre primaram por ganhar disputas não importando o método, e quando acreditavam que não precisavam, expurgaram as tendências de esquerda de seu partido. E outro aspecto é que com Lula fora das eleições alguns creem que as esquerdas (especialmente PSOL) ganham força.
Minha avaliação é que ganha força descomunal neste último período a noção da total falência do legislativo neste país. Setores significativos de parcelas sociais jovens da classe média e trabalhadoras expressam espontaneamente esta noção, e disseminam via mídias sociais orientações neste sentido, ensinando como votar nulo (que acaba sendo amplamente aceito). Infelizmente, a imersão em partidos eleitorais por parte da maioria dos ativistas conscientes está impedindo que este fenômeno, que representa a superação da ilusão eleitoral, seja percebido e, por conseguinte, fomentado e organizado. Pior do que isso, vejo que está nos impedindo de acompanhar as mobilizações com os setores que ainda tem ilusão com o Judiciário, para que façam a experiência final com o mesmo com a condenação de Lula e, a partir daí, apoiado na decepção da perda deste ícone, em vez de chamar a substituição por outro, chame-se ao colapso do sistema eleitoral com o voto nulo. Esse, sim, abriria a condição para a fomentação de um processo de mudança real. Está sendo chamado por João Pedro Stédile uma reorganização dos movimentos populares em nível municipal, estadual e nacional. São iniciativas como essas que tem de ser infiltradas pela militância consciente para orientá-las ao empoderamento, e não ao controle das massas.
2018 está aqui com um quadro extremamente desfavorável e ao mesmo tempo completamente aberto a possibilidades. Setores que haviam desmobilizado os movimentos veem-se obrigados a apelar para a reorganização. Cabe aos revolucionários lutar para tornar os mecanismos de organização duradouros e participativos. À prova de corrupção e de manipulação, ou seja, democráticos. Mais uma vez, não podemos escolher a onda, temos que nos lançar na corrente, e o quanto antes o fizermos, em melhores condições estaremos para norteá-la, desfazendo os atrasos e avançando com as conquistas.



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