terça-feira, 20 de fevereiro de 2018

Descrença recorrente e dificuldades para superar

Ensaio
Por Leal de Campos, militante socialista, ex-preso político e economista.

Mao, Stalin e Kruschev

Há algum tempo que se identifica uma grande descrença em relação ao que se fala sobre socialismo e comunismo. Fora do campo da militância política das várias organizações partidárias e populares – nas quais algumas pessoas se dizem “marxistas” – essas premissas deixaram de empolgar outras para além desses nichos voltados, especificamente, para si mesmos.
A maioria delas se desiludiu com algumas experiências do dito “socialismo real” e em face disso rechaçam com veemência a existência de regimes fechados, policialescos e autoritários, os quais ainda se sustentam. Todavia, o pior mesmo é que se associa tudo isso a qualquer referência que se venha fazer em busca das possibilidades para se construir outra sociedade, bem diferente da atual. Isto porque não se tem como propor novas perspectivas de transformações políticas e sociais, baseadas no que se fez até o presente. Especialmente, no que se refere ao domínio de um partido único que se mistura com o próprio Estado, respaldado no manejo burocrático.
Tais distorções político-ideológicas não têm nenhuma relação com o que se pretende alcançar com a participação efetiva e direta das massas, ao exercer o seu poder popular. Construído de baixo pra cima e não ao contrário, rechaçando com total rigor, em todas as instâncias, quaisquer interferências burocráticas, de grupos partidários ou não. Grupos estes que procuram, repetidamente, controlar e também aparelhar todas as iniciativas organizativas de base, em proveito próprio, passando a ilusão da necessidade irrestrita do “partido da revolução”. Quando se sabe muito bem que cabe – única e exclusivamente – à classe trabalhadora e demais excluídos a tarefa histórica de se libertar do jugo capitalista e assim tomar em suas mãos o próprio destino, sem se deixar tutelar, novamente, por “intermediários”.
Contudo, o totalitarismo que se conhece passou a prevalecer a partir da ideia equivocada da “ditadura do proletariado” exercida por esse único partido, em nome de todo o povo. Ou seja, isso sempre levou ao mando de um reduzido conjunto sobre todos os outros membros, favorecendo também a ascensão de um líder supremo a quem a maioria deve se reportar. Isto é, a organização partidária usurpa o poder das massas e o comando central substitui o coletivo, e por último um ser ungido toma para si o direito de decidir tudo em nome de todos. Pois, somente a ele cabe a última palavra em todas as questões político-administrativas, que serão viabilizadas, na prática, por força das decisões impostas pelo monolitismo travestido de “centralismo democrático”.
Já como uma das consequências contíguas da Revolução Russa de 1917, a burocracia partidária – tendo à frente o famigerado Josef Stálin – veio a “canonizar” Lênin e se intitular herdeira do “marxismo-leninismo”. E, aos poucos, a Academia de Ciências Soviética foi desfigurando todas as concepções revolucionárias e substituindo-as por dogmas, pregando que o confronto se dava entre nações opressoras e oprimidas, e não mais através da luta de classes no dia a dia. E, assim sendo, veio a nomear o imperialismo como o uno e principal inimigo a se combater, além das justificativas para que se sustentasse o esdrúxulo e absurdo conceito do “socialismo num só país” e da “pátria mãe do socialismo”. Passando à militância de esquerda a fantasia de que já existia “um novo mundo” para se proteger. Uma lástima!
Desse modo, passou-se a vivenciar uma total inversão de valores perante as populações em geral. Circunstâncias que só favoreceu aos países imperialistas, em especial os EUA, os quais passaram a se apresentar como verdadeiros “defensores da democracia” e “paladinos das liberdades democráticas”. Enquanto isso, as conhecidas esquerdas ”leninistas” e “marxistas” prosseguem até agora insistindo em apoiar estruturas autoritárias e igualmente burocratizadas, desde que elas ofereçam algumas melhorias nas áreas da saúde e de alfabetização. É isso o que intercorre, justamente, nos países ditos “socialistas” e “comunistas” tais como: China, Vietnã, Cuba, Laos e Coreia do Norte, em detrimento de uma consequente atuação do movimento de massas para muito além dos aparatos administrativos.
As tais esquerdas agem sempre dessa maneira, ocultando e também dissimulando, sobretudo, o pleno controle do Estado, principalmente quando o tal aparelho estatal se confunde com a própria “estrutura partidária” em ação. Mecanismo este aceito como uma continuidade da “revolução” que, por ventura, triunfou e se consolidou. Sendo, porém, essa carcaça a detentora inconteste de um poder burocrático que se dá acima de qualquer outro e em todas as esferas. Enfim, a cúpula decide e o partido, por meio de seus membros ativistas, executa as ordens emanadas de cima para baixo.
Ora, nada disso tem a ver com o comunismo ou socialismo visto se tratar de simples simulacros. Então, como se superar a descrença quanto a essas concepções viciadas, tendo em vista discursos cifrados que não esclarecem nada e nem se propõem a uma autocrítica construtiva? A maioria das esquerdas populistas e reformistas continua a repetir as mesmas coisas do passado e defender o insustentável diante de exemplos totalmente desagregadores e, por conseguinte, altamente destrutivos. Com efeito, uma nova sociedade que seja justa, fraterna e igualitária, somente poderá se assentar num exercício democrático aberto e plural, e não em regimes que se fundamentam, basicamente, em emblemáticos significados totalitários.
Essas, entre outras mais, são as inúmeras dificuldades que ainda permanecem até os dias de hoje, entravando os avanços que poderiam até ser mais consistentes e inovadores para uma possível saída à esquerda. Alternativa revolucionária esta que, inevitavelmente, deve passar pelas lutas contra o capital, em todos os níveis. Sem se optar pela conciliação entre as classes, que são antagônicas por sua natureza e que têm objetivos excludentes.
Talvez se tenha, ou não, um tempo que possibilite se disseminar outro discurso de conteúdo socialista, revolucionário e anticapitalista, por excelência. Visto que é mais do que primordial se agir contra o sistema capitalista e as suas corporações empresariais, por se necessitar de inadiáveis mudanças. Entretanto, o mais importante é se desenvolver correntes do pensar socialista, que venham explicitar com clareza todas as proposições relacionadas às mudanças, as quais se fazem necessárias e urgentes para serem colocadas em andamento.
Mas, isso tem que ser feito de uma forma bastante acessível à maioria das populações, principalmente. Tendo em vista que isto deverá se constituir no alicerce para a consolidação de uma consciência crítica, voltada para o combate à desigualdade e aos privilégios. Evitando-se, assim, desvios e fraudes.

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