quinta-feira, 4 de janeiro de 2018

Miguel e Pablo, 50 anos de Brasil

Ensaio
Por Ana da Hora, ativista social.

Padre Reginaldo Veloso e Coral 'Vozes da Resistência'

Dia 11 de dezembro realizou-se na Igreja das Fronteiras uma celebração de Ação de Graças pelos 50 anos no Brasil dos missionários Miguel Espar e Pablo Garulo coordenada pelo antigo padre da paróquia de Casa Amarela Reginaldo Veloso e pelo padre Fábio Potiguar da paróquia do Parque dos Guararapes. O evento foi a celebração de uma trajetória de 50 anos de militância pelos direitos humanos e a justiça social para eles que se engajaram a partir do momento em que chegaram ao Brasil em 1967.
Miguel, hoje membro da Comissão de Justiça e Paz da Arquidiocese de Olinda e Recife, afirmou: “Vejo a minha vida como um imenso dom de Deus: é o meu segredo”. E descreveu seu chamado já na infância para a missão de lutar pelos pobres, os ciganos e marginalizados, além da inspiração, a partir de uma palestra de Dom Helder em Barcelona, para servir no Brasil.
Pablo – cuja ação se desenvolveu prioritariamente em São Paulo – e que veio a Recife com os dois netos, especialmente para participar da celebração, destacou: “Às vezes, me pergunto por que decidi morar no Brasil, país tão pouco amado e respeitado por suas elites; país socialmente tão desigual; país marcado por violência execrável, principalmente contra suas populações mais humildes; país onde a corrupção é uma forma oficiosa, quase institucional, de fazer política; país onde educação e saúde não recebem atenção prioritária de seus dirigentes; país onde o negro, o pobre, a mulher são muitas vezes tratados com desprezo. Ter escolhido o Brasil como lugar onde viver a minha vida tem tudo a ver com a sorte de ter encontrado muitos brasileiros de bem, gente honrada, trabalhadora, homens e mulheres bem preparados intelectualmente, profissionais competentes, solidários, amigos e conhecidos com os quais aprendi a ter fé num mundo melhor”.
Durante a Liturgia da Palavra, alguns dos presentes fizeram depoimentos acerca do trabalho deles. Flávia Campos, da Comissão de Direitos Humanos da UFPE, contou como foi motivada a se filiar ao PT a partir do conhecimento de todo o processo que Miguel enfrentou, como estrangeiro, para conseguir sua filiação. Elenita, do Alto José Bonifácio, destacou o papel de Miguel na evangelização da comunidade. Jorge César, sindicalista, testemunhou como Miguel contribuiu para conscientizá-lo das situações de trabalho escravo e opressão que sofriam os trabalhadores, e na construção do movimento sindical. Ana Gusmão e Ana da Hora destacaram a intervenção decisiva na luta pela posse da terra em Brasília Teimosa, na mobilização massiva que obrigou as autoridades e conceder a posse, e especialmente na elaboração da documentação – que concedeu não somente o direito à posse mas também impediu a especulação imobiliária e assegurou a revitalização com mínimo de desapropriação. Lurdes Luna aludiu ao compromisso de Miguel na luta contra a repressão e exploração e a militância nas oposições sindicais. Outros testemunhos, como o de Florentina Cabral, presidente da ASSEPE, de Alilton Gomes, de grupo pastoral da cidade de Moreno, por sua vez, destacaram a parceria e militância deles nos movimentos Assembleia dos Bairros, Pastoral de Juventude e na construção do Partido dos Trabalhadores. Mas sobretudo no fortalecimento de uma Igreja viva, comprometida com os que sofrem. Não apenas pelas suas ações pastorais, mas também pela coerência nas suas posturas cotidianas. Não foram esquecidos os papéis singulares de Pablo e Miguel para as suas respectivas famílias. Houve um emocionante depoimento do neto de Pablo, de oito anos, o Francisco, que “fechou com chave de ouro” o momento, segundo padre Reginaldo. Por fim, foi assinalado que diferente dos primeiros colonizadores, os imigrantes que chegaram da Europa há 50 anos cumpriram papel histórico de apoio na construção dos movimentos sociais e políticos na luta por um Brasil melhor.
A celebração foi, portanto, marcada por muita emoção, muita música e cantos, abrilhantados pelo coral Vozes da Resistência, com letras que lembraram alguns dos momentos mais marcantes dessa trajetória de 50 anos no Brasil. Ao final, uma confraternização com muitos abraços e cumprimentos afetuosos como deve ser entre militantes que convivem por meio século.

Pablo Garulo e Miguel Espar

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