terça-feira, 2 de janeiro de 2018

Impressão poética

Conto
Por Gutemberg Miranda, professor de Filosofia da UFAL.



Dois belos rapazes se conheceram quando estagiavam numa empresa multinacional. Eles tinham a mesma idade. Foram demitidos por contenção de despesas e nunca mais voltaram a se encontrar. Porém, trocavam e-mails constantemente, falavam de questões profissionais. Um continuou na carreira jurídica, outro se tornou poeta. Os diferentes rumos profissionais fizeram cessar a amizade virtual pelo seguinte motivo: João começou a enviar seus poemas para Carlos e nunca recebeu uma resposta do antigo amigo de trabalho. Todo poema que escrevia, enviava para o amigo, que nunca o respondia. Carlos ficava tão emocionado que não sabia o que dizer. Mas imprimia todos os versos e seu apartamento ficou abarrotado de poesia.
Certo dia, João recebeu um e-mail de Carlos e a mensagem era a seguinte: “Não consigo sair do apartamento. Seus poemas inundaram todo meu espaço, minha existência. Por favor, preciso de ajuda”. Já ultrapassavam os cem anos, daí é possível imaginar a quantidade de papel que Carlos acumulou em seu modesto apartamento ao longo da vida, e que, na senilidade, já não mais podia se livrar. Depois de arrombar a porta do apartamento do amigo, João acabou sendo jogado para fora pelos papéis que despencavam escada abaixo. Com a ajuda do corpo de bombeiros, João conseguiu entrar pela janela do quarto:
Jogue tudo isso pela janela antes que morramos por falta de ar!
Não consigo, aqui está todo o meu ser. Prefiro me jogar a ter de me desfazer deles.
Os bombeiros não mais entendiam o que se passava naquele quarto que ficava no vigésimo andar de um antigo edifício no centro da cidade. As folhas já não conseguiam mais se comprimir no quarto do apartamento. Em seguida, foram os corpos, jogados para fora da janela pelos papéis que os empurravam na medida em que eram impressos, até a impressora não ter mais espaço e ser lançada ela mesma no ar em pleno processo de impressão poética.


Um comentário:

  1. Camarada Gutemberg, e seu humanismo arrebatador... Um forte abraço
    Israel (xeu)

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