quarta-feira, 3 de janeiro de 2018

A revolução russa e seus desdobramentos

Ensaio
Por Jefferson Gustavo Lopes, mestrando em História pela UFCG.

Operários russos em 1920

Lenin tinha clareza que a Rússia não estava pronta para uma revolução socialista uma vez que as forças produtivas não estavam desenvolvidas para transformar o país dos sovietes num país socializado e sem propriedade privada dos meios de produção. Todavia, insistiu para que a tentativa de capitalismo que o governo provisório queria desenvolver fosse abortada (como foi com a revolução de outubro), para, assim, desencadear a revolução na Europa. O movimento operário mundial estava naquele momento, sobretudo na conjuntura da primeira guerra mundial, estava em plena ebulição e precisaria de um estopim que incendiasse o movimento internacional. Isso aconteceu com a tomada de poder pelos bolcheviques na Rússia. Porém, as esperanças de Lenin, no que concernia à revolução na Europa, estava de fato na Alemanha. O líder do partido bolchevique em uma carta expressou:

O proletário da Rússia deve empregar toda a sua energia para dar apoio aos operários alemães [...] convocados a manter a mais ferrenha luta contra o imperialismo inglês e o seu próprio. A derrota do imperialismo alemão provocará, por parte do imperialismo francês, durante certo tempo, acréscimo de arrogância, de crueldade, de espírito reacionário conservador e conquistador.
O proletariado russo compreenderá que em breve lhe serão exigidos os maiores sacrifícios em nome do internacionalismo. Aproxima-se o momento em que as circunstâncias poderão exigir que auxiliemos os operários alemães a que sacudam o jogo próprio de seu imperialismo contra o imperialismo anglo-francês (Lenin apud Serge, 2007, p.409-410).

Trotski, co-líder da revolução de outubro, também via a revolução alemã como mais um impulso para a revolução na Europa, como argumenta:

A partir de então, a Alemanha atrairá para si, fortemente, a simpatia de todos os povos, a simpatia das massas oprimidas do mundo – e, antes de mais nada, da França. [...] mais sangrada que qualquer outra classe operária, a francesa só espera, em seu coração revolucionário, o primeiro sinal da Alemanha [...] (Trotski apud Ibde, 2007, p. 410).

Essas apostas na revolução alemã visualizadas pelos internacionalistas, sobretudo Lenin, não eram uma especulação irrealista ou idealista, pois as condições de se prosperar uma revolução socialista na Alemanha naquele momento, pós-primeira guerra mundial, eram enormes por vários motivos. As condições objetivas estavam favoráveis para uma ruptura no sistema capitalista, haja vista que havia uma crise econômica que atingiu a classe trabalhadora alemã, muito educada nas lutas de classes, e que fez com que em 1918 a monarquia caísse e subisse ao poder um dos mais poderosos partidos da Alemanha, o SPD, ou o partido social-democrata alemão. Ele tinha o maior número de deputados no parlamento e uma inserção forte na classe trabalhadora e na pequena burguesia [1]. No pós-queda da monarquia pelas greves gerais, na Alemanha de 1918, como fora na Rússia em 1905, surgiram os conselhos operários, que também tinham como política a democracia de base. Mas as condições subjetivas estavam também favoráveis, pois o operariado alemão, pelo menos uma parte significativa dele, estava querendo romper com o capitalismo. Os conselhos [2] eram compostos pela parte mais revolucionária da classe trabalhadora.
O ímpeto revolucionário que durou de 1918 a 1923 obteve algumas conquistas, como a derrubada da monarquia, direito ao voto feminino e dos trabalhadores, ou seja, a instalação de uma república burguesa com algumas concessões à classe operária a fim de amortecê-la. No entanto, o partido que governou a Alemanha pós-monarquia não queria transcender as barreiras do capitalismo, mas governar com as instituições burguesas, e operar algumas melhorias dentro dos marcos da ordem. Isso se expressava nas palavras do futuro líder do governo, do partido social-democrata, que na véspera da queda da monarquia indagava: “se o Kaiser não abdicar, a revolução social será inevitável. Eu não quero essa revolução: odeio-a como odeio ao pecado” (Ebert apud Loureiro, 2005, p.55). Foi nesse espírito que a social-democracia operou na conjuntura entre 1918 a 1923.
No entanto, não cabe debater o processo da revolução alemã, não é nosso objetivo aqui. Porém, podemos afirmar que o partido social-democrata teve um papel fundamental para a derrota da revolução alemã. Porque teve a hegemonia na classe trabalhadora, mas não quis liderar o processo revolucionário. Ao contrário, lutou contra o mesmo.
Em suma, as esperanças dos revolucionários russos foram frustradas, o que levou a revolução soviética a um isolamento tremendo, e fez com que os bolcheviques buscassem outros caminhos para chegar ao socialismo. Já na Alemanha, as tentativas de revolução foram todas abafadas em detrimento de um capitalismo mais “humano”, defendido pela ala majoritária da social-democracia.
Entretanto, o partido social-democrata pagou um preço muito grande por essa traição à causa socialista, da qual ela se dizia herdeira. A conciliação de classes aconteceu para derrotar os trabalhadores.
Mesmo com a derrota da revolução alemã, a partir da qual os bolcheviques visualizavam o desenvolvimento da revolução mundial, a revolução russa inaugurou uma nova era para humanidade, e dividiu o mundo em quase todo século 20. A primeira revolução socialista espalhou centelhas de uma nova era, impactando todas as relações humanas, bem como o trabalho e o imaginário dos trabalhadores e suas entidades de classe. Como exemplos: o combate ao racismo das nações oprimidas pelo imperialismo e, não menos importante, a revolução ocasionou um impulso para a luta das mulheres por direitos iguais. Faremos um breve comentário sobre esses impactos nas relações sociais ocasionadas por Outubro de 1917.
O movimento socialista europeu justamente por sua proximidade geográfica e pela colaboração militante no interior da Segunda Internacional, recebeu o novo episódio como a redenção das classes historicamente oprimidas e espoliadas pelo capitalismo. O entusiasmo em muitos dos países da Europa Ocidental fez com que tentativas de assalto ao poder fossem buscadas de modo semelhante ao proposto pelo partido bolchevique na Rússia. Porém, muitos deles fracassaram. E onde houve êxito, as repúblicas socialistas nascentes não sobreviveram por muito tempo, como na Baviera (Munique) e na Hungria. Nestes lugares, elas duraram poucos meses, sendo finalmente derrotadas pela reação, que conseguiu reprimir e restabelecer a ordem anterior.
Uma vez que as forças revolucionárias foram derrotadas nas suas intenções de causar rupturas na sociedade do capital, como Inglaterra, França, Itália, Hungria e Alemanha entre 1918-1923, os movimentos operários e suas entidades continuaram a luta contra a carnificina da guerra e tudo o que ela representava de opressão. E a partir de então, começaram a fazer “greves-monstro” (Abendroth, 1977). Por consequência, muitos partidos conservadores e cristãos adotaram nas suas resoluções e nos seus programas eleitorais a defesa da “socialização” parcial na economia e também concessões trabalhistas para contrapor-se aos partidos de esquerda que hegemonizavam os movimentos trabalhistas.
Portanto, a relação de capital e trabalho nos principais Estados da Europa (França, Itália, Inglaterra e Alemanha) foi repensada devido às reivindicações das poderosas greves. Assim, foram concedidas oito horas de trabalho diárias e melhorias sociais para os trabalhadores, mesmo com os partidos burgueses no poder (exceto na Alemanha). O sociólogo Wolfgang Abendroth faz uma síntese:

A revolução outubrina russa dera início a esse período e teve efeito catalisador. Ao término do período, no entanto, o movimento trabalhista revolucionário acabou derrotado fora do reino czarista. Nos países altamente industrializados da Europa central e ocidental, a estrutura da sociedade capitalista conseguiu outra vez recrudescer, embora forçada, em quase todos os casos, a democratizar o ordenamento político do domínio que exercia. Por toda parte, quase sem exceção, o movimento trabalhista havia conquistado importantes concessões em matéria de política social (Abendroth, 1977, p.79).

Ainda no âmbito da política, mais precisamente da economia política, a crise da superprodução de 1929 nos Estados Unidos desdobrou-se em cadeias pelo mundo (exceto em poucos países da malha capitalista), colocando em cheque a teoria liberal da economia. Foi justamente a economia sem nenhum tipo de regulamentação por parte do Estado que ocasionou a crise da superprodução. Assim, tais países, para se recuperar da crise, adotaram as ideias keynesianas aliadas a uma planificação comedida da economia, no interior do capitalismo. O único grande país que não sofreu com a crise de 29 foi justamente a URSS, que, ao contrário, apresentou taxas de crescimentos espantosas. A burguesia mundial teve que afugentar o fantasma da revolução mundial, recuando do liberalismo como forma de organizar a economia.
Em suma, até a maneira gerenciar o capitalismo pós-crise de 29 e pós-Segunda Guerra Mundial se deu de modo a afastar o perigo da revolução socialista, mesmo que para tal a burguesia admitisse um certo controle econômico pela nova forma de administração do capital: intervenção do Estado na economia com uma limitada planificação. Lembremos que a planificação era o tipo de modalidade econômica que existia na sociedade soviética.
A relação do marxismo com as questões raciais foram de combate e denúncia do racismo. Desde Karl Marx (embora encontremos em alguns escritos de Marx lampejos de preconceitos contra povos não-europeus), percebemos uma severa e profunda denúncia contra a opressão racial e étnica. Por exemplo, a que africanos e ameríndios sofreram, e que foram expostas no livro O Capital e no famoso capítulo XXIV, A assim chamada acumulação primitiva. Nesse específico capítulo, uma de suas partes debate a colonização, e expõe a tese de que a história do surgimento do capitalismo foi escrito com muito suor, sangue e lágrimas daqueles como os nativos da América e da África: “O extermínio e a escravização das populações indígenas, [que foram] forçadas a trabalhar no interior das minas no início da conquista e pilhagem das índias orientais e a transformação da África num vasto campo de caçada lucrativa” (Marx, 1968, p.868).
A problemática do racismo no pensamento socialista, desde dos seus primórdios, foi tratada com combatividade, ao contrário do pensamento liberal, que hegemonicamente apoiou todas as investidas e forneceu justificativas ideológicas para a construção do racismo científico. Como também deu aval à repressão aos povos subjugados pelas nações imperialistas.
A Terceira Internacional Comunista, fundada em 1919 (como já citamos acima) na Rússia, teve a liderança de Lenin. Lenin via na Internacional Comunista (IC) um instrumento poderoso para fomento de levantes operários pela Europa, mas também nas latitudes onde o capitalismo existia em sua fase mais perversa: o imperialismo. Todavia, no estudo sobre o caráter e a nova fase do capitalismo e suas novas mutações, o líder dos bolcheviques não deixou de denunciar o racismo. Portanto, o combate ao racismo dos revolucionários russos não ficou restrito às denúncias nos livros de Lenin e de outros socialistas. A orientação da IC para além de combater o racismo, ajuda a fomentar a união entre brancos e negros em torno do projeto revolucionário, pois para Lenin estava claro que o problema da opressão racista advinha da ganância dos capitalistas na espoliação da riqueza de outros povos considerados inferiores.
No 4º Congresso da IC, realizado em 1922, foi colocado que a questão negra tornou-se parte integrante da revolução mundial. A IC já reconhecia a valiosa ajuda que os povos de cor asiáticos poderiam dar à revolução proletária, e ela percebe que nos países semi-capitalistas, a cooperação com os nossos irmãos negros oprimidos é extremamente importante para a revolução proletária e para a destruição do poder capitalista. Portanto, o 4º Congresso dá aos comunistas a responsabilidade especial de vigiar de perto a aplicação das Teses sobre a questão colonial à situação dos negros (4° Congresso da IC, 2017).
O trecho do documento reproduzido abaixo refere-se a uma greve dos trabalhadores negros na África do Sul em 1922, na qual a IC apoiou a unidade entre negros e brancos. A resolução final desse congresso tirou tarefas importantes para o movimento comunista internacional combater o racismo sob o jugo do imperialismo:

1. O IV Congresso considera essencial apoiar todas as formas do movimento negro que visam minar ou enfraquecer o capitalismo e o imperialismo ou impedir a sua expansão.
2. A Internacional Comunista lutará pela igualdade racial de negros e brancos, por salários iguais e igualdade de direitos sociais e políticos.
3. A Internacional Comunista fará todo o possível para forçar os sindicatos a admitirem trabalhadores negros onde a admissão é legal, e vai insistir numa campanha especial para alcançar este fim. Se esta não tiver êxito, ela irá organizar os negros nos seus próprios sindicatos e então fazer uso especial da táctica da frente única para forçar os sindicatos gerais a admiti-los.
4. A Internacional Comunista vai tomar imediatamente medidas para convocar uma Conferência ou Congresso internacional negro em Moscovo (Ibidem, 2017).

Portanto, o combate ao racismo e a libertação das colônias da tutela dos países imperialistas teve a revolução socialista na Rússia como referencial teórico e prático, uma vez que a URSS constituída como potência socialista proporcionou um fascínio muito grande nos filhos das elites nativas, que ao estudar na Europa conheceram as teorias ligadas ao Estado soviético [3], como também nas ajudas que a URSS forneceu às guerrilhas pela libertação de muitos países africanos nas décadas de 50 e 60.
O movimento derivado de outubro de 1917 foi quem mais defendeu a igualdade racial entre negros, brancos e asiáticos, visto que no Ocidente, de forma geral, os negros eram tratados como raça de segunda categoria, produzindo até formas mais brutais de descriminação institucionalizada, como a que havia até a década de 60 nos Estados Unidos da América, a dita “terra da liberdade”.
O movimento feminista da época teve ressonância na revolução russa, isto por que as mulheres desempenharam um papel extremamente importante no processo revolucionário. O movimento que derrubou o Czar em fevereiro (março no calendário do Ocidente) teve na vanguarda as mulheres trabalhadoras e pobres [4]. Todavia, antes da própria revolução de outubro, os partidos de esquerda tinham mulheres que participaram dos debates sobre a emancipação feminina, seja na Rússia ou na Europa de modo geral [5].
Na revolução de outubro na Rússia, a questão da emancipação da mulher foi colocado em debate nos primeiros anos, fazendo que reivindicações históricas fossem atendidas e construídas pelas mulheres russas, como: direitos jurídicos iguais aos homens, direito ao divórcio na hora que uma das partes desejassem, direito ao aborto, direito a votar e serem votadas nos sovietes, etc.
O Estado se encarregava de obrigações de garantir creche para as mulheres poderem trabalhar, visando a libertação dos grilhões do lar. Para o movimento feminista, era a instituição família a mais opressora da sociedade capitalista. Assim, a construção de creches, orfanatos e lavanderias coletivas eram as condições que poderiam garantir que a mulher rompesse com as amarras da família patriarcal.
A historiadora Wendy Goldman ao fazer um estudo sobre a origem dos diretos das mulheres na sociedade ocidental contemporânea, argumenta que foi o regime soviético no princípio quem mais avançou no mundo:

De um ponto de vista comparativo, o código de 1918 estava notavelmente à frente de seu tempo. Uma legislação parecida com a relação de igualdade de gênero, divórcio, legitimidade e propriedade ainda está por ser promulgado nos Estados Unidos e muitos países da Europa. Como tal, o código preservava o registro de casamento, pensão alimentícia, subsídio de menores e outros mecanismos relacionados com a necessidade persistente, ainda que transitória, da unidade familiar (Goldman, 2014, p.73).

Portanto, a visão dos bolcheviques em relação à emancipação da mulher não estava em mera legislação jurídica que colocava em igualdade homens e mulheres na Rússia, mas em políticas econômicas que elevassem as condições objetivas das mulheres como premissas básicas para alcançar a libertação da instituição da família tradicional [6]. Sendo assim, a primeira medida era criar cotas de empregos nas grandes fábricas, nos órgãos da administração do aparelho estatal. Isto possibilitou que as mulheres tivessem independência econômica.
Assim, o movimento feminista Europeu foi guiado e seduzido pelo que estava acontecendo na Rússia em relação aos direitos das mulheres. Isso exerceu uma influência muito grande nas feministas, a ponto de terem na Rússia uma referência concreta nas suas lutas contra a opressão de gênero e classe.



América latina
Os ecos da revolução começaram imediatamente a penetrar em vários movimentos trabalhistas, estudantis, socialistas e anarquistas do mundo todo, independentemente de que filiação teórica fosse, visto que o nome de Lenin e dos sovietes eram os mais comentados dentro desses movimentos, na Europa ou fora dela. Como o caso dos “sovietes” que foram formados pelos trabalhadores cubanos na indústria de tabaco daquele país (Hobsbawm, 2016). E também no México, onde o movimento revolucionário iniciado em 1910 se radicalizou justamente em 1917: “Naturalmente reconhecia-se sua afinidade com a Rússia revolucionária: Marx e Lenin tornaram-se seus ícones, juntos com Montezuma, Emiliano Zapata e vários trabalhadores índios” (Idem, 2016, p.72).
Na América Latina, o ano de 1917 representou muitos embates entre operários e patrões, expondo um acirramento ainda maior na dinâmica das lutas de classes, uma vez que a Primeira Guerra Mundial significou a piora da situação material das classes trabalhadoras e, por outro lado, o processo revolucionário russo influenciou enormemente a mentalidade daqueles trabalhadores, sobretudo os mais esclarecidos, que viram no capitalismo uma espécie de “escravidão” moderna. Em suma, foram esses os dois fatores que fizeram explodir lutas sociais através de grandes greves e motins que surgiram durante esse período.
Para pegarmos um exemplo: “na Argentina, durante 1917, foram registradas, oficialmente, apenas em Buenos Aires, 138 greves com mais de 136 mil participantes. Isso significou um imenso incremento em comparação com os anos anteriores” (Koval, 1980, p. 71).
Em Cuba, os operários e trabalhadores pararam duas semanas os portos de onde escoavam as mercadorias de exportação – açúcar e tabaco –, ocasionando uma paralisia geral na economia local. Os trabalhadores da produção cana-de-açúcar também pararam. No Chile não foi diferente, pois houve mais de sessenta greves entre 1917 à 1918 que chamaram a atenção das autoridades daquele país para uma contraofensiva repressiva.
Não detalharemos a situação de cada país da América Latina à época, mas o historiador Russo Boris Koval, ao investigar aquela conjuntura do movimento operário no continente, faz uma boa síntese daquele momento:

A luta grevista das massas abarcou todo continente em 1917-1920. No cenário das batalhas de classe, o operariado em todos os países, grandes e pequenos, aumentou continuamente seu vigor, acumulou experiências e fortaleceu a unidade combativa de suas fileiras. O traço principal da ação proletária latino-americana foi, naquela época, seu caráter de massa. Para compreender isso, basta recordar alguns fatos. No Chile, mais de cem mil pessoas fizeram agosto de 1919 uma manifestação contra a fome e a miséria. Nenhuma outra ação desse tipo havia jamais alcançado semelhante plenitude. Na Argentina, de 1918 a 1920, participaram das greves, segundo dados incompletos, mais de 576 mil pessoas (Koval, 1980, p.119).

Esses conflitos entre patrões e operários na América Latina culminaram em greves de massas em quase todos os países que fazem parte do continente, uns com maior intensidade e outros com menos. Perante a situação, os Estados capitalistas da América Latina adotaram duas medidas para tentar solucionar a “anarquia” e colocar seus respectivos países em “normalidade”. A primeira foi a repressão brutal que os trabalhadores e suas entidades de classe sofreram, pois em todos os países os governos burgueses utilizaram a polícia e o exército para debelar as lutas dos subalternos. Para ilustrar a repressão, tomamos como exemplos Chile e Argentina (em todos os países a burguesia foi bastante truculenta). No Chile, as forças repressivas entram em rota de colisão com uma greve de massas que ocorreu em 1919, causando várias mortes (cometidas pela polícia). No entanto, o governo declarou estado de sítio com o pretexto de impedir “a revolução social”, perseguindo as lideranças sindicais e dando aval para as empresas demitirem em massa os operários grevistas.
Na Argentina, o embate entre operários e patrões foi mais trágico que no Chile, pois ficou conhecido como “a trágica semana Argentina”. Ela aconteceu em decorrência de uma greve em uma determinada fábrica: operários fura-greve começaram a ser hostilizados pelos setores mais radicais, e os primeiros chamaram a polícia, que começou a reprimir violentamente. O saldo foi de 6 mortos e vários feridos em 7 de janeiro de 1919. Todavia, milhares de trabalhadores fizeram homenagens póstumas a esses operários mortos, chegando a reunir 200 mil pessoas em Buenos Aires. Mais uma vez, a polícia argentina começou atirar na multidão e muitos operários que foram render homenagem aos mártires foram baleados. Muitos acabaram morrendo. Entretanto, isso desencadeou uma revolta ainda maior entre os trabalhadores, ao ponto de uma ala do movimento ir ao confronto com as forças policiais e sofrer ainda mais baixas. Para justificar essa carnificina as autoridades propagavam que havia um grupo que queria implantar a “revolução soviética em Buenos Aires” (Idem).
Em suma, a justificativa que o Estado deu para tamanha barbárie foi irrealista, pois os motivos que geraram essa violência toda não estavam na luta contra a derrubada do Estado argentino, uma vez que a correlação de forças era desfavorável para tamanha ousadia. No entanto, a paranoia da burguesia perante a Revolução de Outubro fez com que qualquer agitação social fosse vista como potencial revolucionário e nesse sentido tinha que ser debelada rapidamente. O resultado desse morticínio chegou, segundo números oficiais, a mais de 1.500 mortos e 4.000 feridos.
A segunda medida para abafar os perigos revolucionários inflamados no seio do movimento operário pelos primeiros ecos revolucionários em muitos dos países latino-americanos foram as concessões a algumas reivindicações mais elementares da classe trabalhadora. No Chile, em dezembro de 1917, foi aprovada uma lei para o pagamento de pensões a trabalhadores mutilados nos locais de trabalho. Na Argentina, foi aprovada a jornada de 8 horas diárias de trabalho, uma folga dominical, férias remuneradas e regulamentação do trabalho de mulheres e crianças. No Uruguai, também os trabalhadores conquistaram as 8 horas diárias de trabalho. Já no México, onde já havia em curso uma revolução desde 1910, e que em 1917 convergiu com o levante russo, a constituição de 1917 introduziu um artigo que se referia a uma espécie de código do trabalho, em que direitos como 8 horas diárias, proibição de trabalho noturno para mulheres e crianças, dias de descanso e salário-mínimo eram garantidos (Ibidem).
A partir do reconhecimento da revolução outubrina pelos subalternos organizados, partidos com a nomenclatura comunista começaram a surgir: na Argentina (1918), no México (1919), no Uruguai (1920), no Brasil (1922), no Chile (1922) e em Cuba (1925). Todos esses partidos eram filiados à IC, fundado em 1919 pelos bolcheviques, dois anos após a insurreição de outubro.

A Praça Vermelha dos anos 2010

Notas
[1] Para entender melhor o tamanho e a influência que a social-democracia exercia na classe trabalhadora alemã e suas respectivas cifras, consultar Isabel Loureiro em A revolução alemã (1918-1923).
[2] Foram os conselhos que impulsionaram uma revolução na Baviera-Munique, que logo depois seria reprimida pela reação com a complacência da social-democracia.
[3] Para compreender com mais profundidade a relação entre a URSS e os países africanos, ver Thiam & Mulina, em História Geral da África, Volume VIII. São Paulo: Editora Cortez, 2011, p.965-1001.
[4] A segunda etapa da revolução russa, que foi a de fevereiro (março no calendário Ocidental), teve como vanguarda as mulheres trabalhadoras e pobres da cidade. Ao começar o processo de manifestação contra o czar, elas conseguiram atrair os homens para as suas fileiras e com isso derrubar a monarquia que vigorava há mais de trezentos anos. Para conhecer melhor esse aspecto, ver Kevin Murphy, Revista Outubro, n.28, abril de 2017.
[5] O debate sobre a emancipação das mulheres e da opressão de gênero deita raízes no seio do marxismo e do comunismo. Basta lembrarmos de Engels e seu célebre livro A situação da classe trabalhadora na Inglaterra, de 1844. Já a Segunda Internacional tinha nas suas filiais mulheres de destaque, como Rosa Luxemburgo, na Polônia; Clara Zetkin, na Alemanha, e Alexandra Kollontai, na Rússia, além de tantas outras que tiveram destaque em seus respectivos partidos. Todas elas tinham em comum o combate ao machismo a partir do marxismo.
[6] A historiadora Wendy Goldman no seu livro Mulher, Estado e revolução defende que nos primeiros anos da revolução russa as mulheres experimentaram as maiores liberdades possíveis, especialmente por conta das políticas jurídicas e econômicas adotadas pelos bolcheviques. Elas tinham um constante debate com o movimento feminista que compôs o governo. Todavia, com a dura crise econômica do regime, ocasionado pela guerra civil, os avanços foram sendo limitados. Foi com a ascensão do stalinismo na URSS que essas políticas foram atacadas de vez e o retrocesso se consolidou.

Bibliografia
KOVAL, Boris. A grande revolução de Outubro e a América Latina. Editora Alfa-Ômega. São Paulo, 1980.
GOLDMAN, Wendy. Mulher, Estado e Revolução. Boitempo Editorial. São Paulo, 2014.
HOBSBAWM, Eric. A era dos extremos: o breve século XX (1914-1991). Companhia das Letras. São Paulo, 2010.
LOUREIRO, Isabel. A revolução alemã (1918-1923). Editora Unesp. São Paulo, 2005.
SERGE, Victor. O ano I da revolução russa. Boitempo Editorial. São Paulo, 2007.
ZIZEK, Slavoj. Às portas da revolução. Boitempo Editorial. São Paulo, 2005.
ABENDROTH, W. A história social do movimento trabalhista europeu. Paz e Terra. Rio de Janeiro, 1977.
CARR, E. H. A revolução russa de Lenin a Stalin (1917-1929). Zahar Editores. Rio de Janeiro, 1981.
THIAM & MULINA. História Geral da África. Volume VIII. São Paulo. Editora Cortez, 2011.
ENGELS, F. A situação da classe trabalhadora na Inglaterra. Boitempo Editorial. São Paulo, 2012.

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